A partir de um caso de tentativa de infanticídio que culminou com um desfecho insuspeito, Vera Iaconelli discute algumas das condições para a construção usa função materna. Privilegiando três eixos de estudo - a experiência corporal, o lugar do sujeito e o laço social - mostra como a função materna é uma construção psicossocial atravessada pela lógica dessubjetivante da contemporaneidade. E reafirma a escura do sujeito como condição para a superação dos impasses da atualidade.
Vera Iaconelli é psicanalista especializada em psicologia parental. Graduada pela em Psicologia pela Universidade São Marcos (UNIMARCO), é mestre e doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Pesquisa temas como a depressão pós-parto, o infanticídio e o período perinatal.
É conhecida do público por debater de forma aberta e livre de tabus os principais desafios enfrentados pelas mães na sociedade contemporânea. Vera denuncia as pressões para que as mães sejam infalíveis em seu papel e questiona como os filhos são afetados por uma educação cada vez menos comunitária, em que toda a responsabilidade recai sobre pais que muitas vezes não estão devidamente preparados para cumprir esse papel.
Em suas colunas para o jornal Folha de São Paulo, debate angústias e enfermidades psíquicas típicas de nosso tempo, partindo de assuntos do cotidiano para investigar como a vida em uma sociedade marcada pela aceleração e pelo enfraquecimento de muitos laços sociais pode afetar a saúde e o bem-estar dos indivíduos. Também é autora de livros como Manifesto antimaternalista, no qual desconstrói o lugar-comum segundo o qual as mulheres nascem prontas para a maternidade, como Criar filhos no século XXI e Felicidade ordinária.
Vera é diretora do Instituto Brasileiro de Psicologia Perinatal e Parental, o Gerar, e integra o Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, além de participar dos Fóruns do Campo Lacaniano de São Paulo.
Eu li a tese de doutorado. Imagino que o livro possua um conteúdo relativamente diferente.
É importante reconhecer que mudanças sociais desencadeiam novos anseios, como a própria tese menciona. Entender como lidar com eles é essencial. A inclusão da mulher no mercado de trabalho e a individualização do ser humano criam visões ideológicas que reverberam desde o século passado. Não há respostas consagradas e seguir as buscando é uma tarefa louvável.
O estudo de caso é dramático e comovente. Mas as análises culturais realizadas têm um ponto de vista bastante conveniente. A constante coerção da mulher ao longo do tempo, passando a não apenas ser impelida mas “forçada” a querer gerar uma vida para manter sua condição de mulher é um conceito no mínimo questionável. Colocar a mulher como essa figura passiva e impotente ao longo da história faz parte de uma narrativa que resisto a comprar. Ainda mais quando deixa o próprio homem como o agente opressor. De diversas formas, todos são oprimidos. O recorte dos estudos femininos convenientemente considera apenas a mulher como objeto de opressão, fazendo parecer que tal grupo é o único a sofrer.
Acrescentando para a crítica à tese, muitas vezes (se não todas), a “construção social” é questionada como algo antinatural. Mas se a construção social da maternidade está sendo questionada, entrará outra em seu lugar, tão (ou mais) artificial quanto a primeira, pois fruto de uma reflexão ideológica. Por si só, isso deve ser um problema a ser levado em consideração, pois há outras ideologias ali no futuro, já virando a esquina. Outro problema é que qualquer engenharia social é incapaz de antecipar suas consequências. Essa não seria diferente. Quando tentamos mudar a sociedade massivamente, em tese, deveríamos nos responsabilizar pelas consequências. Mas sabe-se que isso não acontecerá.
Está tese deixa uma série de elementos de fora de sua análise, como é de se esperar. Mas seu conteúdo essencialmente materialista a compromete. A maternidade tratada apenas como trabalho exclui a experiência mais criativa que um ser humano pode empreender: gerar vida. Certamente, há o que melhorar na condição da mãe. Mas o viés imaterial é tão pouco debatido que deve soar insano e fora da realidade para muitos ouvidos. Entretanto, é essencial, pois está diretamente relacionado ao valor que se dá à vida humana. Se gerar uma vida nada mais é do que um detalhe do contrato social, a vida passa a ser um mero produto, tão descartável quanto é um mero produto.
Para um trabalho mais relevante enquanto forma de mudança social, acredito que a inclusão de estatísticas ajudaria bastante.