Ressentimento, obra pioneira da psicanalista e escritora Maria Rita Kehl, ganha, em 2020, uma nova edição pela Boitempo, com um novo prefácio e projeto gráfico. O livro aborda a conceitualização do ressentimento a partir de quatro pontos de vista: a clínica psicanalítica, a filosofia de Nietzsche e Espinosa, a produção literária e o campo político. O ressentimento não é um conceito clássico da psicanálise; assim, Maria Rita Kehl mobiliza tanto as suas observações clínicas quanto conhecimentos de outras áreas para definir e explicar a constelação afetiva que forma o ressentimento. “Ressentir-se significa atribuir ao outro a responsabilidade pelo que nos faz sofrer” – é desse modo que o ressentido se conduz a um beco sem saída: ao não assumir a responsabilidade sobre a própria situação, ele busca apenas uma vingança “imaginária e adiada”. Faz-se notar, assim, a atualidade do tema do ressentimento, presente nos conflitos sociais daqueles que não se veem como agentes da vida social e política. Apenas a partir da tomada de consciência da própria responsabilidade enquanto sujeitos de nossas ações é possível abrir mão da passividade – e dos ganhos secundários – da posição ressentida.
Maria Rita Kehl é psicanalista, formada em psicologia pela USP. Mestra em Psicologia Social pela USP e Doutora em Psicanálise pela PUC-SP, também é ensaísta e jornalista.
adorei! muito bom para quem não é da aérea da psicanálise e nem da filosofia. explora o tema de forma profunda e didática, embasada principalmente nietzsche e espinosa, além de freud. o livro tem muitos insights legais, vale a pena ler com calma.
achei a parte da filosofia/psicanálise do ressentimento melhor do que as análises sociais, mas ainda assim são boas, principalmente a parte que enfoca de movimentos sociais. já algumas explicações de fatos históricos foram meio capengas e metade do posfácio é só um grande textão anti-bolsonaro, é o ponto baixo do livro.
Um ótimo livro para estudar as questões pertinentes ao ressentimento. Enquanto psicóloga achei uma leitura agradável e acessível, mas não recomendo para quem não domina os principais termos técnicos da psicologia.
"chamei de estética do ressentimento a este princípio que organiza as narrativas em torno do ponto de vista do personagem ressentido - o qual, sempre coberto de razões em suas queixas e mágoas, constitui o polo de identificações positivas do leitor/espectador. São dramas em que o ressentido é representado como moralmente superior aos demais: é o personagem sensível e íntegro, que não abriu mão de seus princípios e preferiu se deixar prejudicar em vez de jogar um jogo que lhe parecia sujo. No ressentimento, o mal está sempre no outro. O ressentido é a vítima que foi prejudicada, abusada ou deixada para trás, o que a autoriza a vingar-se ou a reivindicar, em silêncio acusador, o reconhecimento que lhe foi recusado. É de um lugar supostamente "fora da vida" que o personagem ressentido denuncia a maldade, os jogos de interesses, as torpezas da vida."
Comprei esse livro há um tempo, mas adiava a leitura - até por receio de ser muito complexa. No fim, apesar de denso, foi um livro tranquilo de entender e amei. Fiz diversos paralelos, principalmente em questões políticas e sociais, e definitivamente há para mim um antes e depois desse livro. Recomendo!