- A hipótese sobre essa trajetória é de que as bases do discurso tendencialmente de direita de 2015 foram dadas nas manifestações de 2013, e que o ponto de inflexão desse processo ocorreu no momento preciso do jogo que marcava a abertura da Copa do Mundo de Futebol de 2014, inaugurando o estádio do Itaquerão, na cidade São Paulo, no dia 12 de junho. 16 - Laclau entende que não faz sentido a distinção entre discursivo e não discursivo, tudo é significado por meio de um processo de articulação, e nada pode ser dito, entendido ou reconhecido fora dele. Ele é contundente em afirmar que negar essa distinção não tem nada a ver com o idealismo, ao contrário, é retirar das ideias sua distinção em realação ao material 20 - Laclau exemplifica o aparecimento do significante flutuante indicando como uma demanda popular pode deixar uma cadeia de equivalência progressista para se articular a um discurso conservador: [...] neste caso, as mesmas demandas democráticas sofrem a pressão estrutural dos projetos hegemônicos rivais. [...] A questão é que seu sginificado é indeterminado entre fronteiras alternativas de equivalências. Denominarei 'significantes flutuantes' esses significantes cujo sentido está, assim, 'suspenso'. 23 - a novidade nas ruas de 2015 em relação a 2013 era um novo discurso articulado dando sentido à política. Na trajetória que o produziu, desapareceram vestígios de luta por direitos, por melhores salários, por melhores serviços públicos, por passe livre nos transportes públicos, ou por perfomances simbólicas contra o capitalismo. 51 - No Brasil, os quadros políticos à direita geralmente não se assumem como tal e tendem a se apresentar como liberais, com o objetivo de se distanciarem de uma velha direita, associada ao período militar. (...)a direita brasileira nunca conseguiu se instituir com êxito em um único partido. 59 - O antipartidarismo reativo e o desagrado com o funcionamento das instituições podem motivar o surgimento de políticos outsiders, que são candidatos com estilos e discursos antipartidários, que aspiram à presidência e que participam das eleições em o apoio de um importante partido nacional em que tenham desenvolvido suas carreiras políticas fora dos tradicionais canais partidários. 75 - As novas tecnologias, ao permitirem um enorme número de cidadãos interligados, facilitam a participação política não convencional. Mas, por meio delas, podem ser reforçados tanto a mobilização cívica quanto o antipartidarismo daqueles cidadãos que são interessados, porém insatisfeitos, com a política. 76-77 - O tipo de análise estrutural das páginas do Facebook usado parece adequado para a identificação de comunidade de usuários que se informam pelas mesmas páginas. a disputa em torno do papel histórico do PT organizou o campo de disputa do discurso político no Facebook polarizando os usuários entre antipetistas e antiantipetistas. 105 - Há poucos consensos entre os paulistanos, entre eles a defesa de direitos sociais, e a negação do discurso liberal econômico e do punitivismo. Os temas do impeachment/golpe dividem a população que majoritariamente nega o discurso da vitimização petista. 117 - Sentindo-se pouco representados/as em ambientes acadêmicos, na mídia tradicional e na política institucional, os defensores radicais do livre mercado encontraram na internet um refúgio a partir do qual, com o apoio organizacional e financeiro de uma rede preexistente de organizações, passaram a se organizar na sociedade civil, fomentar ações coletivas nas ruas e lançar candidaturas políticas com o intuito de, em suas próprias palavras, ganhar corações e mentes e disputar hegemonia com os/as esquerdistas. 124 - A hipótese principal que orienta o argumento que pretendo desenvolver é a de que três fatores foram fundamentais para explicar a formação desse contrapúblico e o seu sucesso em organizar uma militância de base que convocou e dirgiu os primeiros protestos pró-impeachment: 1. a presença precoce em fóruns e redes sociais virtuais de jovens universitários e profissionais liberais das classes média e alta que possuíam interesse pelo liberalismo econômico; 2. a preexitência de uma rede de think tanks liberais no país que pudesse oferecer suporte, cujo objetivo principal era atuar politicamente para influenciar o "clima de opinião" e facilitar a proposição e/ou adoção de políticas liberalizantes. 128 - De acordo com a definição proposta por Warner, um contrapúblico seria necessariamente imbuído de uma consciência a respeito de seu statust subordinado frente a um horizonte cultural dominante. Seus membros, a despeito de serem subalternos ou não, partilham identidades, interesses e discursos tão conflitivos com o horizonte cultural dominante que correriam o risco de enfrentarem reações hostis caso fossem expressos sem reservas em públicos dominantes, cujos discursos e modos de vida seriam tido irrefletidamente como corretos, normais e universais. 132-133 - Foi justamente em meio às revoltas de junho de 2013 que surgiu a ideia de reunir a militância liberal em um movimento mais amplo e que não se restringisse às limitações existentes pelas organizações criadas até então, o qual recebeu o nome de Movimento Brasil Livre (MBL) 159 - A popularização da internet vem provocando nos últimos anos um aumento expressivo no surgimento de contrapúblicos à esquerda e à direita (Downey, Fenton, 2003). Esse aumento aponta ao mesmo tempo para uma democratização da esfera pública, na medida em que permite que mais pessoas possam participar e influenciar o debate público, mas também pode ter efeitos deletérios na medida em que aumenta a fragmentação dos públicos, facilita a formação do chamado "efeito bolha". 165 - Dentre os principais defensores da manutenção interpretativa da díade esquerda e direita, encontramos Norberto Bobbio. Em seu já clássico ensaio Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política, Bobbio propõe uma série de princípios que, segundo ele, encontram-se claramente presentes e são distintivos das ideologias de esquerda e direita. 176-177 - A direita, como aponta Bobbio, move-se por outros ideais que envolvem: o individualismo, a supremacia da propriedade privada e da livre iniciativa; a intuição; a primazia do sagrado; a valorização da ordem e da tradição; o elogio da nobreza e do heroísmo; a intolerância à diversidade étnica, cultural e sexual; o militarismo e a defesa da segurança nacional; o crescimento econômico em detrimento da preservação ambiental e dos interesses imediatos dos trabalhadores; o anticomunismo; e a identificação permanente com as classes superiores da sociedade. 177 - A técnica de pesquisa dos grupos focais revelou-se uma combinação produtiva entre observação participante e entrevistas em profundidade. Mostrou-se, também, um recurso promissos para a compreensão do processo de construção percepçòes, atitudes e representações desses grupos sociais. (...) "os atores elaboram discursos sobre sua própria ação" (Boltanski, 2000, p. 55) 181 - A introdução das cotas raciais nas universidades públicas e em outros concursos produziu, em especial, um efeito duplamente elucidativo no dimensionamento dessa revolta. As cotas não só reduziram os espaços sociais que antes eram concebidos como reservas de mercado para classe média como colocaram em xeque a validade prática e nromativa dos mecanismos meritocráticos, que são fundantes para a organização da cosmovisão dessa classe. 205 - o neoliberalismo, na sua forma atual, apresenta-se como uma "razão do mundo" de natureza antidemocrática. (...) é reconhecido na contemporaneidade como a única verdade e alternativa possível para o desenvolvimento das nações. 209 - quatro maneiras mais viáveis de identificar e analisar sentimentos são: 1) por meio de sentimentos específicos (...) 2) os sentimentos genéricos, os quais também são preestabelecidos para análises comparativas (...) 3) polaridades, nas quais se pode perceber, por meio da soma de pontuações de palavras entre positivo e negativo, qual é a polaridade das frases; 4) emoticons e/ou emojis 220 - movimentos políticos forjam a antecipação de uma irredutibilidade de sua causa, como um modo de fazer com que ela seja encarada, no espaço público, como uma inevitabilidade. 234 - Necessária interação entre Ciências Sociais e Ciências da Computação 241 - O poder capitalista é hoje um poder totalitário montado num pedestal global donde comanda os ordéis das sociedades nacionais e suas esferas públicas, a que chamamos democracia por inércia ou por não sabermos que outro nome lhe dar. [Citando Boaventura de Sousa Santos] 251
O livro reúne artigos que se propõem a analisar expressões relacionadas à manifestações que ocorreram entre 2013 e 2015, desde os protestos que reivindicavam direitos sociais e melhores condições de vida até sua transformação (e, porque não, cooptação) em movimentos anti-governistas, cujo foco passou a ser a defesa pelo impeachment de Dilma Roussef. Alguns dos artigos aqui reunidos se destacam por fundamentarem análises sobre, por exemplo, a mudança de discurso nas manifestações políticas, o papel de organizações [neo]liberais na promoção do antipetismo e a mídia hegemônica enquanto agente fundamental na instauração, no imaginário popular, de um ambiente quase bélico em torno das questões políticas mais proeminentes nos anos entre 2013 e 2015, pincipalmente no ano de 2016. A coletânea de artigos mostra sua relevância ao passo que compila um grande número de dados, sejam eles relativos à indivíduos que participaram de atos entre 2013 e 2015, recortes destes a partir de perfis socioeconômicos e ideológicos, metadados obtidos em redes sociais, que medem os ânimos e classificam manifestações individuais, apresentam metodologias de pesquisa e investigação... Contudo, apesar do bom trabalho de pesquisa e levantamento presente nos artigos, as análises e relações feitas entre dados e contextos políticos me parecem insuficientes, abordando poucos aspectos do que se pode entender como plano de fundo dessas manifestações. Pouco se fala em crise econômica, desarticulação dos movimentos de esquerda e o papel do governo na própria desarticulação e no apaziguamento de setores que tenderiam à combatividade, a influência de atores externos, etc. No geral, um bom livro para se apropriar de dados técnicos e iniciar leituras sobre os movimentos que vêm, nos últimos anos, tomando conta do cenário político brasileiro. Gostaria de avaliar com 3,5/5, no entanto não é possível.