Em Dar corpo ao impossível, Vladimir Safatle parte de uma reflexão a respeito do sentido da última figura da dialética que o pensamento filosófico conheceu, a saber, a dialética negativa de Theodor Adorno. Ele recusa as interpretações deceptivas da dialética negativa, tão presentes até hoje, a fim de explorar suas dinâmicas de produtividade e as modificações que ela produz em conceitos como: totalidade, materialismo, sujeito, diferença e infinito. Isso leva Safatle a propor uma articulação de estrutura entre a dialética negativa e aquelas de matriz hegeliana e marxista. Articulação esta que procura compreender o sentido mais profundo das relações entre configurações da dialética e determinações históricas específicas. Trata-se ainda de se perguntar sobre o que a reatualização da dialética proposta por Adorno deve à psicanálise freudiana e à confrontação incessante à fenomenologia de Martin Heidegger. Ao final, Dar corpo ao impossível serve-se do saldo de tais reflexões para repensar a recusa da dialética que anima a filosofia francesa contemporânea, em especial através do anti-hegelianismo de Gilles Deleuze, assim como para retomar o uso que a dialética, enquanto experiência crítica, conheceu no Brasil, em especial graças a Paulo Arantes.
O que é dialética Negativa? Safatle analisa como Adorno produziu um giro dialético que não se encontrava nem em Hegel nem em Marx. Para esse giro, contou a tematização do desenvolvimento social considerando o conceito freudiano de recalcamento e o caráter não progressivo e não linear do desenvolvimento psicológico. A incapacidade de rememorar o passado recalcado e integrá-lo em um novo arranjo no presente é fonte de sofrimento quando lutamos para não ouvir esse passado. A dialética negativa escuta a música e a literatura que dão voz ao que ainda não tem lugar no mundo ao enunciarem o que é gramaticalmente impossível. A literatura de Guimarães Rosa dá testemunho de que não se transforma uma situação social sem novas formas de enunciação, dizeres que são negação e recuperação da fala popular: uma corrente subterrânea coletiva que ainda não tem lugar no mundo. O que se inventa é o que antes era impossível.