Partindo do conceito de Weltliteratur, “literatura mundial”, cunhado por Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), e do entendimento de que cada época pode reinterpretar as grandes obras de arte a partir de seu próprio contexto, A dupla noite das tílias, de Marcus Vinicius Mazzari, professor de Teoria Literária da Universidade de São Paulo, propõe uma leitura informadíssima e atualizadora da obra máxima de Goethe, Fausto: uma tragédia. Aliando a erudição e o senso crítico a uma capacidade investigativa rara, o autor abarca um leque de questões que atravessam a história, a economia, a ética, a estética, a percepção da natureza e a poesia, sem perder-se jamais na multiplicidade de caminhos possíveis. Ao contrário, detendo-se particularmente no quinto ato do Fausto II, que concentra a chamada “tragédia da colonização”, Mazzari não só repassa criticamente a discussão contemporânea sobre esta que é a mais enigmática obra de Goethe como também avança, de maneira fundamentada e original, uma interpretação própria para as “fórmulas ético-estéticas”, cunhadas pelo poeta em sua maturidade. A dupla noite das tílias resulta, assim, um livro denso de poesia, reflexão e informação, que abre perspectivas amplas para a Literatura Comparada e se afirma como obra poderosa do ensaísmo brasileiro.
Há leituras que puxam outras leituras e se o nosso interesse por um livro, um tema ou um problema for real, vamos sempre buscar leituras de apoio ou de aprofundamento. É o caso de clássicos como o Fausto. O número de ensaios e estudos pode ser grande, mas há alguns que valem a pena para expandir nossa compreensão do livro ou, mesmo que não concordemos com a tese do autor, para nos dar novos caminhos para o estudo.
O livro-ensaio A dupla noite das tílias: história e natureza no Fausto de Goethe, escrita pelo professor Marcus Mazzari, é um estudo centrado principalmente no significado e impacto das cenas do quinto ato do Fausto II, conhecidas como "a tragédia da colonização". Nesta última etapa de sua trajetória, Fausto já centenário havia se tornado um grande colonizador, capaz de dominar a natureza pela técnica ao construir grandes diques para expandir seu território em direção ao mar. No entanto, incomodado com a pequena propriedade vizinha dos anciãos Filemon e Baucis, dá ordens ambíguas a Mefisto que as cumpre de sua maneira: mata os proprietários e incendeia a pequena propriedade. Linceu, o vigia do castelo de Fausto, vê da torre o incêndio que consome a casa e as duas tílias da frente da propriedade. Esta cena está repleta de símbolos e referências: Filemon e Baucis são personagens da mitologia, presentes nas metamorfoses de Ovídio. A cena também evoca a passagem bíblica da vinha de Nabot.
No estudo de Mazzari, numa perspectiva mais teórica, analisa-se a concepção estética de Goethe e sua substituição de uma oposição entre símbolo e alegoria por fórmulas ético-estéticas. Comenta-se as diversas recepções e interpretações destas cenas. E, por fim, é proposta uma nova interpretação, centrada na crítica ao desenvolvimento desenfreado e em seu impacto ecológico. A dupla noite das tílias, do título do estudo, estariam relacionados à dupla agressão à natureza e a vida humana.
Marcos Vinícius Mazzari nasceu em São Carlos, em 1958. É professor de Teoria Literária e Literatura Comparada na FFLCH-USP, tradutor e escritor. Publicou também Romance de formação em perspectiva histórica (1999) e Labirintos da Aprendizagem (2010).