Romance epistolar, retrato da época monarquista do país e matéria para discussão sobre as mulheres. Aos 22 anos, a alemã Ina von Binzen foi contratada para educar filhos de uma família no interior do Rio de Janeiro. Em uma série de cartas escritas a uma amiga, Von Binzer demonstra raro interesse sobre a vida no Brasil na segunda metade do século XIX. São considerações sobre a escravidão e a abolição; a forma de educação da elite brasileira em contraste com a rigidez dos hábitos germânicos; as festividades que não compreendia neste país tão diverso de sua pátria; sua desambientação inicial – que levou a desabafos, embora reconhecesse a gentileza de nosso povo e a beleza de nosso país –; a saudade que sentia de sua terra. Os meus romanos é, sem dúvida, fundamental para compreender um Brasil de outros tempos – que diz muito sobre a pátria que nos tornamos.
Na orelha do livro, encontramos: "Sua leitura revela-nos um Brasil de outros tempos, considerado muitas vezes um Brasil selvagem, do ponto de vista de uma expatriada ainda aqui não ambientada. Embora suas críticas, por vezes severas, a usos e costumes estranhos a ela possam susceptibilizar alguns leitores brasileiros mais sensíveis, suas descrições são sempre impregnadas de um humor puro e sadio".
Estou entre os leitores brasileiros mais sensíveis, e também entre aqueles que não alcançaram a pureza do humor da obra. As cartas da alemã são repletas de visões diminuidoras do Brasil, dos brasileiros, das pessoas escravizadas, o que torna bem difícil que sua leitura seja leve e humorada.
O que o livro pode ter de "interessante" é a possibilidade de ler raízes do racismo e do eurocentrismo que nos constroem até hoje. Visões como a da alemã frutificaram entre nós, de tal forma que reconhecemos em suas burlas e ironias muito do que, até bem pouco tempo, preenchia o senso de humor coletivo e naturalizado do Brasil. Seus questionamentos sobre o sistema escravocrata - tidos como críticos por alguns leitores do livro - não me pareceram embasados por uma visão humanizadora dos escravizados, mas sim por um olhar estratégico de como se faz uma nação de sucesso aos moldes europeus. Se alguém quer estudar testemunhos racistas de europeus que vieram ao Brasil no século XIX, o livro vale. Se alguém procura uma leitura de não ficção divertida e leve sobre costumes do século XIX, diria para buscar outra obra, ou outra voz, ou outro século (qual?).
A leitura não me fez rir e nem foi empolgante (fiz esforço para chegar ao final, quando, além de violenta, também me parecia chata). Há breves momentos curiosos (sua surpresa diante da alegria das crianças, a descoberta do mofo de Petrópolis), mas nada que me dê vontade de reler o livro. Ficará aqui guardado para o dia quando eu precise de uma citação que demonstre a xenofobia, o racismo, o eurocentrismo, a soberba que imperaram o oitocentos no Brasil.
Coletânea de cartas enviadas do Brasil à Alemanha, da autora para sua melhor amiga Grete, entre 1881 e 1882. Um retrato interessante do Brasil ainda escravocrata pintado por uma jovem educadora. Não tem a pretensão de ser uma historiadora ou socióloga, mas apenas compartilhar experiências, reflexões e angústias, e por isso mesmo aproxima o leitor e nos faz refletir sobre o nosso tempo.
O livro relata as experiências que Ina viveu enquanto preceptora nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Eles nos proporcionam registros de condições sociais, econômicas e políticas no Brasil do final do século XIX, isto é, no período da Proclamação da República e da Abolição da Escravatura. A educadora alemã relata também com bastante precisão o ambiente doméstico das famílias brasileiras e a sociedade como um todo. recomendo.