Grande livro, grande narração. Uma narrativa da descolonização vivida pelo lado de dentro, o lado dos colonos acossados pela proximidade da entrega de Moçambique à FRELIMO no verão de 1974. É Luís Ribeiro Sales, diretor de uma agência de informação britânica em Lourenço Marques, que vai contando em forma de diário todos os movimentos das forças mais representativas da sociedade e da política, da África do Sul, da guerrilha, dos primeiros passos do MFA. Uma figura central da narrativa é o empresário Jorge Jardim (JJ), com ambições políticas fortes, mas que acaba por não ter a perspicácia política para poder lutar contra a esquerda dominante em Portugal e nas negociações para a independência. E assim o poder é entregue em setembro de 1974 à FRELIMO, organização que fizera a guerrilha contra a tropa portuguesa, e não totalmente representativa da sociedade moçambicana. Em Lisboa digladiam-se as posições mais conservadora (Spínola) e mais esquerdista (Costa Gomes), sendo esta que será vencedora até ao 25 de novembro de 1975. O livro resulta de uma investigação feita nos anos 80 pelo autor e torna-se um thriller alucinante a culminar nos acontecimentos de 6 setembro de 74, início de uma pequena revolução em Lourenço Marques, a redundar num massacre de provavelmente 2000 pessoas e num êxodo para Portugal e África do Sul. Também o protagonista Luís Ribeiro Sales se deixa enredar na história que conta e é essa a força e a debilidade desta narrativa entusiasmante.