"Nas noites de Verão, quando não havia muito vento, tínhamos por costume, como outras famílias, passear no Palácio de Cristal. Agora, é aquela alameda, entretanto ladeada por barraquinhas de tômbola e por stands de amostras, um vasto espaço de desolação. No mês a que me refiro, porém, de Agosto de mil novecentos e trinta e seis, e no serão que escolhi, realizava-se um concerto de beneficiência, oferecido pela Banda dos Bombeiros Voluntários do Porto. Tenho uma saudade imensa da enorme construção de vidro e de ferro, há anos demolida, a qual, a meus olhos de rapariga, ainda não afeitos às viagens, surgia como uma baleia extraordinária e transparante, ali arrojada, por uma dessas tempestades atlânticas que, no Inverno, sempre fustigam as costas do Norte. Lá dentro, abria-se um pequeno teatro e um restaurante médio e, ao fundo da maior das três naves, onde os meus passos se perdiam, erguia-se um órgão solene, a cujo teclado eu imaginava ir sentar-se, de cada vez, o misantrópico Capitão Nemo, tentando esquecer-se do ódio que nutria contra os homens que fazem as guerras."
Mário Cláudio, pseudónimo de Rui Manuel Pinto Barbot Costa, nasceu no Porto a 6 de Novembro de 1941. Frequentou o curso de Direito em Lisboa, tendo-o terminado na Universidade de Coimbra. Frequentou a Universidade de Londres, graduando-se como Master of Arts. De regresso a Portugal, tem exercido funções como técnico do Museu Nacional de Literatura e como professor universitário. Ganhou o prémio APE de Romance e Novela em 1984 com a obra 'Amadeo'. É considerado um dos mais importantes autores portugueses das últimas décadas. Embora se tenha dedicado à poesia, ao teatro e ao ensaio, é no romance que Mário Cláudio mais se tem destacado. Em 2004 foi agraciado com o Prémio Fernando Pessoa. Criou um heterónimo, o poeta Tiago Veiga, hipotético bisneto de Camilo, de quem publicou em 2011 uma extensa biografia. Vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLAB 2014, com a obra 'Retrato de Rapaz'. Grande Prémio de Romance e Novela, da APE, em 2019.