"Entre as Mãos" tem uma personagem central partida ao meio, e assim a narrativa se constrói, em duas partes, tendo como ponto em comum o atropelamento sofrido por Magdalena e todo o processo de sua recuperação. O primeiro capítulo, "Trama", se narra a partir da voz do namorado de Magdalena, desde o momento que se conhecem até o momento em que acontece o acidente (cuja recuperação, anunciando seu caráter de pós-escrito, surge em itálicos). Quando o segundo capítulo surge, "Avesso", percebemos que trata-se de um livro de narrador auto-consciente, e que ambos foram escritos por Magdalena. A diferença destas personalidades está simbolizada numa sequela deixada pelo acidente, as mãos deformadas que transformam a vida desta costureira, e que também transformam o modo como escreve. Primeiro, como o namorado, imaginando seu lado da história que fatalmente termina em abandono, supondo um encontro do namorado com seu "pai velho" que a criou (e que traz o momento de maior fôlego do livro, um monólogo deste pai velho que destrincha toda a genealogia de Magdalena). Segundo, como si própria, sempre às escondidas, até que finalmente confessa autora de si.
É curioso como "Entre as Mãos" é mais um destes livros brasileiros contemporâneos que leio onde o ato de escrever é narrativizado, é parte do enredo; onde o próprio objeto em que se escreve, as condições materiais deste ato estão narrativizadas, como se não fosse mais possível simplesmente narrar sem esta origem comum no real. Esta característica não faz com que a narração em si mude - Magdalena não fala diferente quando se esconde por trás da voz do namorado, e certamente é mais madura como autora do que como figura, dados os inúmeros episódios onde sugere-se algum nível de instabilidade mental nela. Essa auto-consciência joga contra o que é um relato duplo bem pungente, com momentos de brilho (a descrição de um aborto e de um estupro vêm a mente, mas mesmo quando é mínimo ao narrar cotidianidades como o pegar de um ônibus ou uma aula de costura, o livro vai muito bem). E isso tudo se torna indesculpável num terceiro capítulo desnecessário, chamado "Linhas Soltas", onde o que vêm à tona é justamente o reforço da auto-consciência com a reiteração de histórias já fechadas e uma camada extra de confusão que não serve à trama.
Nem todo romance precisa ser sobre a escritura do próprio romance. A maioria deles, inclusive, não deveria ser.
Um trecho memorável:
"Não contar aquilo para as tias", a frase dela repassando na minha cabeça.
A instrução para não comentar nada, não entrar no assunto, não mencionar diante das tias palavras como ultrassom ou tinha duas semanas ou ainda aquela explicação, "Está vendo este ponto branco aqui na imagem?, o ponto branco é ele", não diga para as tias que sente muito, assim como disse o doutor antes de carimbar o receituário: Tomar um comprimido agora e outro mais tarde, o doutor solícito, Ligar em caso de dor insuportável, mas antes de ligar, você sabe, suportar pelo menos um pouco, evite, evite dizer coisas como perdeu, você perdeu, ou mencionar detalhes como a porta do banheiro trancada, água quente na bacia, vapor ajudando na dilatação, toda aquela demora para esperar descer, esperar mais um pouco, esperar bastante e então sentir descendo, sentir o volume passando pelo tubo, o seu tubo dilatado pelo comprimido prescrito, vai sangrar?, um pouco, um pouco não, muito, fazer força, mais força, sentir o momento exato da expulsão e, nesse momento, resistir, resistir a amparar com os dedos, não faça isso, não ponha a mão, não olhe para ele, para o volume, não repare se há braços, pescoço, testa, uma pequena veia na testa, e olhos, uma membrana cobrindo os olhos, não repare, não ponha a mão, deixar cair na privada, isso, dar a descarga antes de se erguer, dar a descarga por tempo suficiente para que algo grande passe pelo cano, e depois, há depois?, absorvente noturno fluxo intenso, aquele outro comprimido prescrito, o que faz dormir, o que faz não sentir o sangue, o sangue descendo pela passagem agora menos dilatada, e na manhã seguinte também, outro absorvente fluxo intenso, outro e mais outro até que nada saia pelo tubo, até que nada mais desça e o corpo volte a ser um corpo sem resíduos, sem mancha na calcinha, sem nada a revelar para as tias - eu repetindo a frase dela na minha cabeça, "Não contar nada disso".
(Editora Record/2019, p.32-33)