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Um Bailarino na Batalha

«Pesados como pedras, no entanto velozes como pedras, eles caminham, os últimos errantes, uns poucos dias mais adiante, os poucos dias que os separam da música dos ossos. Eles caminham, os últimos errantes, embatendo uns nos outros, repelindo, à força de olhos e de cotovelos, à força daquele ronco que lhes bate, mais do que o coração, dentro do peito, repelindo e chamando, concentrados na marcação das cenas animais, na coreografia da matilha. Pois tudo aquilo que séculos, milénios, foram acumulando, abstracções, certa elegância na sobrevivência, as leis cujo poder suspende a faca e faz descer a faca, tudo era fácil de rasgar, tudo era um mero adorno, um véu de rapariga, algo que não resiste à impiedade.

Agora dormem agitadamente, entregues uns aos outros, confiando primeiro nos laços de família, só depois na vizinhança, e confiando pouco, enfurecidos contra os próprios sonhos que impedem a vigília. Fogem da pátria. Tinham pátria? Tinham, pelo menos, povo. Porque as pátrias surgiam num momento e apagavam­‑se noutro. Os povos, não.»

120 pages, Paperback

First published January 1, 2018

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About the author

Hélia Correia

62 books47 followers
HÉLIA CORREIA nasceu em Fevereiro de 1949, licenciada em Filologia Românica e professora de Português do ensino secundário. Apesar do seu gosto pela poesia, é como ficcionista que é reconhecida como uma das revelações da novelística portuguesa da geração de 1980, embora os seus contos, novelas ou romances estejam sempre impregnados do discurso poético.
Na sua ficção, conflui o reatar de uma herança literária que impõe certa linearidade à escrita romanesca com a assimilação de traços da narrativa contemporânea que vão de um García Márquez ou Carpentier até à novelística de Agustina Bessa-Luís, numa tendência para surpreender o sobrenatural no quotidiano da vida provinciana e burguesa, ou para transpor para a escrita romanesca o plano em que a dimensão social das relações humanas se cruza com a religiosidade, com a superstição e até com o irracional. Estreou-se na poesia, em 1981, com O Separar das Águas e O Número dos Vivos em 1982. A novela Montedemo, encenada pelo grupo O Bando, deu à autora uma certa notoriedade. Aliás, Hélia Correia revelou, desde cedo, o gosto pelo teatro e pela Grécia clássica, o que a levou a representar em Édipo Rei e a escrever Perdição, levadas à cena, em 1993, pela Comuna. Escreveu também Florbela, em 1991, que viria a ser encenada pelo grupo Maizum. Destacam-se ainda na sua produção os romances Casa Eterna e Soma, e, na poesia, A Pequena Morte/Esse Eterno Conto.
Recebeu em 2002 o prémio PEN 2001, atribuído a obras de ficção, pela sua obra Lillias Fraser, e em 2006 o Prémio Máxima de Literatura, pela obra Bastardia.

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26 (33%)
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22 (28%)
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7 (8%)
1 star
2 (2%)
Displaying 1 - 13 of 13 reviews
Profile Image for Paula Mota.
1,836 reviews628 followers
November 16, 2019
4,5*

Nenhum se achava preparado para um confronto em que não se morria, em que a destreza saía só da boca, conseguindo dilacerar as linhas maiores do pensamento. Tão-pouco tinham muitas convicções. As convicções faltavam, como um sal perdido para o corpo por efeito de tanta insolação.

Um grupo de refugiados de um país muçulmano em guerra atravessa o deserto depois de ter sido abandonado por aqueles que haviam sido pagos para os levar até ao mar, com destino à Europa. Uma história a que, infelizmente, já nos habituámos, mas aqui não há ideias batidas nem exploração da desgraça. Aqui interessa o destino, mas destaca-se sobretudo a viagem, porque é durante ela que se estabelece toda uma dinâmica extraordinária entre os elementos do grupo, com confrontos e alianças inesperadas. E comigo aconteceu o mesmo: queria chegar ao fim, para saber quem resistiria, mas detinha-me frase sim frase não, para voltar atrás, reler e admirar, porque a escrita de Hélia Correia é simplesmente esplendorosa.

Contemplou o seu povo. Eles ajeitavam o corpo para a queda, iam perdendo a verticalidade, ofereciam a nuca e o espírito ao cutelo.
Profile Image for Tamára.
410 reviews512 followers
June 23, 2026
2,75 Premiado com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE), este livro, comparado a um poema épico em prosa, não me impressionou particularmente.

Inspirado na realidade de muitos que fogem desesperadamente da guerra, este livro oferece um comentário político pertinente ao leitor. Acompanhamos um grupo de caminhantes que procura refúgio na Europa, o símbolo de paz.

Hélia Correia retrata as condições de sobrevivência, a luta e o sofrimento com uma complexidade que contrasta com o tamanho do livro. Apesar de ser pequeno, o ritmo lento, contemplativo e reflexivo da narrativa confere-lhe um peso que transcende as suas dimensões.

Em cada página deparamo-nos com uma escrita rica, mas que, em última análise, não me conseguiu marcar como seria de esperar.
Parece-me que falta sempre qualquer coisa nas obras da Hélia.

Tenho mais um livro da autora para ler este verão. Espero ser surpreendida.  
Profile Image for Daniela Rosas.
297 reviews18 followers
June 11, 2022
"Um Bailarino na Batalha" o livro mais recente da autora portuguesa Hélia Correia, publicado pela editora Relógio D'Água, foca-se na travessia pelo deserto de migrantes africanos para fugirem da guerra no seu país e chegarem à europa, à terra prometida.
O grupo de pessoas que faz esta travessia vê-se obrigado a ultrapassar os obstáculos mais complicados que qualquer um pode imaginar, a fome, a sede, as tempestades de areia, o calor infernal e principalmente o conflito entre aquilo que sentem que devem fazer e a sua cultura. Neste grupo encontramos unicamente aquelas pessoas que não podem estar na frente de batalha, ou seja, mulheres, crianças, velhos, inválidos e também os cobardes, aqueles que não tiveram capacidade para lutarem. Será através desta distinção que iremos perceber a dinâmica entre os personagens. É importante referir que apesar de sabermos nomes de 5 homens e 4 mulheres, não temos um personagem principal e muito menos um estereótipo de personagem. Cada um deles representa um grupo que não pôde lutar.
Com o passar do tempo, a travessia começa a tornar-se cada vez mais complicadas e a crença que todos eles têm na sua cultura começa a desvanecer-se, as mulheres começam a largar o véu e em vez da separação entre homens e mulheres começamos a ver a separação por família. Aqui podemos compreender que estes migrantes decidem abandonar os preconceitos, a cultura, os hábitos, a sua civilização e assim aproximam-se mais um pouco da cultura ocidental, mas ao mesmo tempo começamos a dar-nos conta de que estes personagens se estão a tornar mais selvagens e isso começa a assustá-los.
Assim que as condições destes começam a melhorar, os migrantes recuperam os seus costumes e começam a tornar-se mais humanos de novo, apesar de serem de uma sociedade machista e preconceituosa.
Ao longo da leitura deste livro conseguimos perceber uma dinâmica diferente, já que apesar de estarmos perante uma obra contemporânea temos presente um assunto que já vem da antiguidade e que também pode ser revista nos dias de hoje, com as migrações em massa de cidadãos de países africanos e orientais.
Este não é um livro de leitura fácil, é verdade que pelo tamanho podemos pensar que vamos ler muito rápido e compreendê-lo facilmente, mas na verdade não é bem assim. Estamos perante um livro muito complexo, com uma história muito forte e que nos pode levar a ter sentimentos desencontrados. É um livro com uma intensidade e uma velocidade bastante elevada e isso torna a capacidade de compreensão da história e de todos os acontecimentos mais difícil.
De uma forma geral esta foi uma boa leitura, mas por ter lido com bastante rapidez, por ter sido uma leitura obrigatória, tornou a leitura cansativa e a compreensão da história mais lenta.
Por estes motivos decidi pontuar este livro com 3 estrelas.

A Vossa Gothic Clare
Profile Image for Bruno Carriço.
201 reviews16 followers
March 4, 2023
A prosa é cuidada, às vezes apetece demorar numa ou noutra frase, mas vamos avançando na leitura e a batalha ruma ao seu término sem faísca.
Profile Image for António Jacinto.
146 reviews5 followers
December 19, 2024
Parece a diáspora dos judeus. São nómadas. Quando jovem, li um livro (em BD, um conjunto) que me parece inspirar Hélia Correia. Era qualquer coisa dos nómadas. Um tempo aparentemente após guerras no planeta. Este livro fez-me lembrar isso, essa distopia.
E também a diáspora dos judeus no primeiro testamento.
E há uma frase que ela foi buscar subrepticiamente ao Ruy Belo. E muita coisa me escapou. Mas há nitidamente a presença do inferno de Dante na cidade, e uma observação vista de fora (do lugar dos Tártaros ou dos bárbaros de Cotzee), dos que desejam o lugar da civilização (que é um logro, um mito), daí a Europa ser um fogo-fátuo. O livro tem uma leitura ideológica, até em paralelo com a jangada de pedra do Saramago.
Profile Image for Miguel Duarte.
132 reviews56 followers
September 19, 2018
https://www.comunidadeculturaearte.co...

"Um Bailarino na Batalha", a mais recente obra de Hélia Correia (escritora premiada com o Camões em 2015), publicada pela Relógio d’Água, foca-se numa travessia do deserto. Inicialmente não é clara a circunstância desta duríssima travessia, que nos é apresentada em jeito quase bíblico, de forma francamente críptica. O grupo de pessoas que se vê a braços com tão árdua tarefa foge do massacre que assola a sua terra natal, e a certa altura é perceptível que a terra prometida que buscam não é a da Bíblia, mas sim a Europa.

Neste grupo de migrantes – não é claro qual o seu local de origem, mas, tratando-se de muçulmanos, é argumentável que partam do Médio Oriente (onde se situa a terra prometida aos Judeus) – inserem-se apenas aqueles que não estão na frente de combate nem nela pereceram, ou seja, as mulheres, as crianças, os velhos e inválidos, e os cobardes. É, portanto, dentro deste preconceito mútuo que se faz a dinâmica do grupo. Os homens são constantemente olhados de lado e excluídos por não estarem a combater, mas, do mesmo modo, também eles olham para os restantes com todo o preconceito e superioridade da patriarquia que vigora. As mulheres, algumas delas até mais capazes de combater que aqueles homens (“O mais grave era ser mulher, e mãe, e precisar de alguém que a protegesse, quando sabia como matar na perfeição”), são ainda assim menosprezadas e há efectivamente uma fronteira entre os sexos, sem contacto mútuo.

Ao longo da travessia, no entanto, essas diferenças vão se progressivamente esbatendo: as mulheres abandonam o véu, os grupos passam a organizar-se por família e não por sexo. É como que um progressivo despojar de tudo o que ficou para trás, a cultura, a civilização, os hábitos, os preconceitos, as garantias. Mas se, por um lado, isso dilui preconceitos, por outro aproxima-os cada vez mais dos animais. Vão formando um grupo cada vez mais coeso, uma espécie de matilha, com o avançar das dificuldades. Têm de manter-se juntos para conseguirem sobreviver, para rumarem em direcção ao destino que buscam.

Não são, no entanto, os homens quem lidera o grupo. As mulheres tomam a palavra e são as “visões” de Erend (uma criança) e Nuru (um velho cego) que encaminham o grupo para um rio que lhes possibilita escapar do deserto e os salva da fome, mas na primeira localidade que encontram são proibidos de entrar e é lhes dito que não vale a pena continuarem o seu percurso em direcção à Europa, porque lá não os querem.

“Vocês são invasores. E vão levar-lhes o desassossego e os costumes cruéis. É o que eles dizem. Cada um guarda a sua casa dos estranhos. Também vocês a guardariam, se a tivessem.”

Não desistem à primeira tentativa, no entanto. A Europa é efectivamente a única opção de caminho imaginável, mesmo que os hábitos dos povos desse continente se lhes apresentem como estranhos, ainda que compreensíveis.

“A questão é guardar o nosso povo dentro do deles. São boa gente. Mas depois querem mandar. Querem dizer o não e o sim das nossas vidas. E olham para nós com olhar franco, mas, quem reparar bem (…), vê-lhes os pêlos do pescoço arrepiados.”

Mas, ao protegerem-se a si próprios desta maneira, também eles caem na mesma armadilha que os europeus.

“À força de viverem iguais dias, iguais anseios, privações iguais, eles haviam caído na armadilha da teia identitária.”

Assim que as condições de vida melhoram, assim que a fome deixa de ser uma preocupação, os velhos hábitos regressam, com os preconceitos e todas as dinâmicas a eles associadas. Será impossível, então, escapar a esta identidade? A única fuga possível é despojarmo-nos da civilização? Quaisquer que sejam as respostas, Hélia Correia levanta as perguntas, e não há perguntas mais cruas que aquelas que questionam o nosso local no mundo. Quem somos, donde viemos, para onde vamos. Será que alguém sabe responder-lhes?
Profile Image for Rita.
195 reviews9 followers
February 8, 2026
Não gostei. O tema é bom: é uma descrição dum povo em dificuldades por África(?) fora a caminho do sonho europeu. o livro tem lirismo e misticismo e é breve, mas tive dificuldade em conectar-me com as personagens, baralhei-me terrivelmente nos nomes das pessoas e, enfim, nem entendi bem aquele fim e aqueles rejuvenescimentos de alma.
19 reviews5 followers
December 28, 2020
Muito sobressalto estético, muita elevação da alma, muita poesia exacta, mas redenção não. Quando humanizamos, sem lirismos piedosos, aqueles que matamos no Mediterrâneo e nos campos de refugiados, é precisamente aí que não pode haver qualquer redenção.
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