Em vinte e um anos, a cena literária portuguesa renovou-se com uma geração de incríveis novos autores que trouxeram consigo um novo fôlego de qualidade e criatividade, uma promessa de algo nunca feito, tanto na prosa como na poesia.
Em vinte e um anos, jovens promessas fizeram-se escritores. João Tordo, José Luís Peixoto, Margarida Vale de Gato, Valério Romão, Bruno Vieira Amaral, Ondjaki, Rui Costa são apenas alguns dos nomes distinguidos pelo prémio Jovens Criadores, e que hoje comemoramos com a publicação desta colectânea de prosa e poesia.
«ANA PESSOA Nasceu em Lisboa em 1982 e começou a escrever histórias aos 10 anos. Estudou Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses e Alemães) na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Saiu de Portugal com 22 anos para fazer um estágio de 6 meses na Alemanha e nunca mais voltou. Vive em Bruxelas desde 2007, onde trabalha como tradutora.
Tem contos publicados em várias coletâneas e textos premiados em Portugal (incluindo Jovens Criadores '10, Aveiro Jovem Criador 2010 e Jovens Criadores '12) e também noutras paragens (Concurso internacional de contos «Um mar de palavras» 2010, Espanha, Concurso Internacional de Teatro Castello di Duino 2011, Itália). O seu primeiro livro, 'O caderno vermelho da rapariga karateca', venceu o Prémio Branquinho da Fonseca 2011, na modalidade Juvenil. 'Supergigante' é a sua segunda obra.
“Como Desenhar o Corpo Humano” é uma colectânea de 21 textos de 21 autores, por ocasião dos 21 anos do prémio Jovens Criadores. Os textos são inovadores e bastante diferentes entre si. Há poesia, há prosa, há diferentes estilos, narrativas, linguagens, temas. Há criatividade e cisão com convenções literárias. Os meus preferidos:
Uma saca cheia de andorinhas - Inês Bernardo Os velhos - José Luís Peixoto Algumas histórias muito curtas - José Mário Silva A simpleza das coisas - Marlene Ferraz.
"Naquele ano, ao chegar a casa, tinha a mãe à espera com o postal na mão. O postal que dizia «Mãe, tu és uma rosa», na minha letra redonda e cuidadosamente desenhada. À mesa da cozinha, ela esperava-me. A minha irmā mais nova tinha subido a ladeira até nossa casa, a correr à minha frente, e tinha-a avisado de que eu estava a caminho. Quando a vi como postal na mão, sorri. Ela tinha-o recebido, tinha-o guardado e esperava-me com ele na mão. «Mãe, cheguei», disse, pousando as compras no chão. Em silêncio, ela levantou-se, agarrou-me o braço pelo cotovelo, arrastou-me pátio fora, atravessámos a estrada, entrámos em casa da tia Maria do Monte que, sentada à fogueira, vigiava a sopa na panela. A minha mãe largou-me e abriu, em frente da mulher analfabeta, o postal que eu lhe tinha enviado. «Veja isto, tia Maria. Veja esta ordinária. Onde já se viu, uma filha tratar uma mãe por "tu"?»"
De 21 textos de tonalidades e velocidades distintas, gostei mais de uns do que de outros.
Esta foi uma leitura que antecipei descomplicada, algo distante, mais para entretenimento literário que para o ramram emocional de me arrumar/desarrumar e fazer de novo, no qual me viciei.
Posso dizer que foi mais ou menos isto, excepto quando não o foi😁 Como quando daquela vez em que, por exemplo, tão distraída e impreparada, botei os olhos no texto da Inês Bernando. Ai, caramba, que não estava pronta. Ai, que não estava à espera.
Sabem, vem aí um livro dela. E eu aguardo em ânsias, porque do lado da minha cabeça que não cresceu nem em idade nem em maturidade, concretizou-se o meu desejo formulado enquanto lia o texto: quero ler mais coisas da Inês! Quero muito! E, portanto, o Pai Natal também existe fora de tempo. Tenho dito. Aguardo, não pacientemente, pela revelação da sua nova janela literária.
“Como Desenhar o Corpo Humano” (Companhia das Letras, 2018). O título é sugestivo e abre a porta para uma colectânea que celebra 21 anos do prémio Jovens Criadores e da literatura portuguesa que este promove. Vinte e um textos de vinte e um autores, reunidos numa só obra, que promete ser uma mostra da qualidade e da criatividade de uma nova geração.
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Ao dar palco ao que diz ser as melhores vozes da literatura portuguesa contemporânea, “Como Desenhar o Corpo Humano” apresenta-se como uma ‘lufada de ar fresco’ no panorama literário, repleto de diferentes estilos, narrativas e linguagens que convidam à leitura de outras obras dos referidos autores. A coletânea funciona como um primeiro contacto com os escritores, alguns desconhecidos do grande público, que assim têm a oportunidade de cativar novos leitores.
Da prosa à poesia, há aqui textos para todos os gostos, capazes de desafiar as fronteiras entre géneros e romper com convenções literárias. Estruturas inovadoras que acompanham temas diversos, dos quais sobressai a imaginação. Desde o diário de viagem ao drama, da saga infantil ao humor, até mesmo ao “prontuário existencial”, a leitura é uma viagem pela criatividade, numa celebração da inovação da juventude e da ideia de literatura enquanto exercício de liberdade. Acabada a leitura, fica a certeza de que aqui há talento e vale a pena continuar a apostar na revelação de novos autores, num concurso a que acorreram alguns dos, hoje, mais destacados escritores nacionais.
O livro reúne textos, conto e poesia, de 21 autores, que durante 21 anos, desde 1996 até 2017, foram distinguidos pelo prémio Jovens Criadores, iniciativa da Secretaria de Estado da Juventude e Desporto, e que tem sido concretizada por uma parceria entre o Instituto Português do Desporto e Juventude e o Clube Português de Artes e Ideias. A colectânea é bem o testemunho do início criativo de muitos autores que fazem hoje parte do panorama literário nacional (Ondjaki, José Luís Peixoto, Valério Romão, Margarida Vale de Gato, Ana Pessoa ou Joana Bértholo, são alguns dos nomes antologiados). Em alguns destes textos, uns com carácter mais irreverente e/ou experimental, o leitor pode já delinear marcas de estilo que se irá descobrir mais tarde na obra editada destes escritores.
CDU: 821.134.3-34
Livro recomendado PNL2027 - 2018 2.º Sem. - Poesia - Literatura - dos 12-14 anos - dos 15-18 anos - maiores 18 anos - Mediana - Fluente
Textos muito variados, em estilo e temática. Uns muito bons, outros que gostei menos. No global, uma obra muito interessante. Boa para descobrir alguns autores e textos de autores que já admiro.