“Se eu deixo de sentir, como serei capaz de escutar a narrativa do humano na minha frente, que na maior parte das vezes não expressa uma palavra sequer nas línguas que posso entender? Quando me perguntam como fiz determinado atendimento nestes locais tão distantes da minha cultura e me perguntam a técnica utilizada, eu tenho dito: "Técnica? Certamente a técnica é importante, mas, quando estou na frente de um humano nas condições de tortura recente, só dou conta de me conectar com a humanidade que emana do cheiro dele, da forma de olhar, da forma de amarrar seus panos, trançar seu cabelo, do cheiro do sangue seco ou do relevo das cicatrizes que marcam seu corpo".
Levei seis anos para me autodenominar psicóloga, mais dois anos me especializando e muitas noites em claro estudando técnicas de atendimento. Mas, na hora do cuidado face a face, acredito que não exista nada mais importante que sentir a pessoa com os cinco sentidos, deixando que a técnica se expresse através deles. Afinal, do contrário, serei um processador de palavras. A entrega de uma escuta com cinco sentidos, acredito eu, é percebida pela pessoa que está junto a mim. Então é isto, acho que uso a técnica mais utilizada na humanidade, a técnica dos cinco sentidos: escutar, ver, sentir o cheiro, tocar quando lhe é permitido, sentindo o gosto da humanidade.”