Uma obra pode ser medida, como já mostrou Paul Valéry, pela soma ou pelo rigor de suas recusas. E a palavra “recusa”, aqui, não designa apenas o ato de “não aceitar” ou “rejeitar” alguma coisa, mas também o de “não se subjugar”, de “não fazer concessões”. Em um tempo em que o exercício do óbvio, a repetição de fórmulas e a sujeição às conveniências do mercado tornaram-se os dispositivos por excelência de boa parte da narrativa contemporânea, A um passo, de Elvira Vigna, destaca-se como um dos raros livros de hoje a fazer da recusa nos vários sentidos e rigores da palavra uma de suas linhas de força. Mesmo ao privilegiar como matéria-prima o prosaico e o banal, enfocando o aqui-agora do mundo e da realidade brasileira, a violência do cotidiano e a hipocrisia das relações sociais, o romance mina (recusa), através dos “ácidos, gumes e ângulos agudos” da linguagem, toda a previsibilidade que subjaz a essa mesma matéria. Sem deixar de contar uma história (no caso, uma história de vingança), recusase às facilidades da lógica linear e da referencialidade, optando por um enfoque elíptico e fragmentário das coisas; e sem se furtar ao coloquialismo, não se presta à mera reprodução espontânea do falar diário, mas deste ousa extrair, pelo trabalho da escrita, uma sintaxe inusitada, uma dicção babélica, uma articulação de viés experimental. A um passo recusa-se, ainda, ao que comumente se espera de um romance: ele pode ser lido tanto como uma narrativa seqüencial, composta de capítulos curtos e concentrados, quanto como um conjunto de contos avulsos que se articulam num jogo entre o sucessivo e o simultâneo, onde cada peça se basta e se encadeia às demais, abrindo várias entradas e saídas no texto. Para não mencionar o poema do final que, a título de posfácio, faz uma espécie de “desleitura” do próprio livro.
Nascida no Rio de Janeiro em 1947, é diplomada em literatura pela Universidade de Nancy, França, e mestre em comunicação pela UFRJ. Escreve sobre arte contemporânea no site Aguarrás.
Fiquei impressionada por nunca ter escutado falar em Elvira Vigna antes. Não é um livro simples de ler, tem uma estrutura narrativa diferente, com cortes no tempo, narrativas misturadas em 1ª e 3ª pessoa, mas que livro bom!
Um dos melhores romances da literatura brasileira contemporânea, escrito por Elvira, que prova ter sido uma das melhores escritoras recentes de nossa ficção. A fluidez narrativa é divertida, o estilo é próprio, daquele jeito dela mesmo, e a trama é bem resolvida, cheia de metáforas e referências estimulantes. Alguns dirão que a leitura é difícil, e realmente não é um livro óbvio, mas de obviedades estamos todos fartos.
Amo a Elvira Vigna e sei que ela considerava este livro o seu preferido, mas não bateu bem em mim. Eu achei dificílima a leitura - estrutura em recortes, com uma dinâmica de jogo (de xadrez), com versões distintas sobre um mesmo fato/ou uma ideia, tudo com um crime no meio. Cheio de ironias, claro.
A nota não tão alta eu atribuo à minha limitação rs para acompanhar a gigante Elvira.
Uma vingança contada sob alegorias, subjetividades e (não) fatos, sem seguir uma lógica de linearidade, que confude, encanta e desafia o leitor a solucionar a narrativa, como o xadrez que é peça elementar do livro.
meu romance menos favorito de Elvira. publicado em 89, dá pistas de que ela seria brilhante — mas é, ainda, excessivamente hermético e desnecessariamente intrincado.
longe de ser ruim, mas ainda mais longe de ser um Como se estivéssemos em palimpsesto de putas.