O número 10 da revista Granta Portugal é a última edição da revista que leva este título. A partir da próxima, a primeira de 2018, vai passar a chamar-se Granta Portugal | Brasil, agregando numa única as duas edições em língua portuguesa.
Ainda não sei qual é a ideia dos editores da futura revista para o seu conteúdo, mas há uma coisa que me preocupa: tenho receio de que se perca a oportunidade de se conhecerem alguns dos textos que a Granta tem publicado e que são traduções de textos já anteriormente publicados noutras edições da revista, e que, de uma forma geral, são sempre os mais interessantes de ler.
Por outro lado, e como os textos de autores portugueses nem sempre são muito entusiasmantes (são, na maior parte das vezes, demasiado curtos, e o seu valor ou interesse literário e narrativo nem sempre corresponde à expectativa), confesso que tenho uma certa curiosidade em aceder aos textos originais de escritores brasileiros. Tenho uma ideia em geral muito favorável da literatura brasileira, e vai ser uma boa oportunidade de conhecer uma maneira tão diversa de trabalhar e contar em prosa histórias na língua portuguesa.
Admito que quando recebi o meu exemplar desta edição da Granta dedicada ao tema Revolução, folheei, lí o índice, a biografia dos autores, e não fiquei muito entusiasmado. Mas ao dar delas, há textos magníficos, que me arrebataram completamente, e é para esses que vão as 5 estrelas da classificação.
Desde logo um conto da Isabela Figueiredo, intitulado Beleza Infinita. Mal vi o texto, fiquei a salivar, e a sua leitura ultrapassou a expectativa. A Isabela é uma escritora fantástica, e este conto, tão bem pensado e concretizado, tem aquele golpe de asa (habitual nos textos da autora) de estar a contar uma narrativa em particular, mas ao mesmo tempo de estar a falar de nós todos, daquilo que somos enquanto seres sociais, da nossa portugalidade, da nossa maneira de viver e da nossa mentalidade. E depois escreve de maneira magnífica, com um asseio e uma simplicidade poderosas, com um sentido de humor que consegue ser simultaneamente mordaz e carinhoso.
Para além deste, adorei dois outros textos, um do escritor russo Andrei Platónov, um conto ( ou será já uma novela?) escrito em 1937, sobre um soldado que regressa a casa depois da guerra, e que é uma jóia, uma verdadeira obra-prima. É espantosa e comovente a sua capacidade de falar das coisas mais delicadas e subtis num ambiente de extrema pobreza, aliás miséria, em que as pessoas passam por dificuldades inimagináveis, a um nível quase infra-humano, mas que mantêm a delicadeza e fragilidade do espírito humano.
O outro texto que adorei é de Milan Kundera, Um Ocidente Raptado, ou a Tragédia da Europa Central. Trata-se de um texto já antigo, publicado originalmente em inícios da década de 80, quando a geografia da Europa era completamente outra, tendo o texto de Kundera um propósito assumidamente militante, concretamente o de resgatar os países da Europa Central (República Checa, Hungria e Polónia) do seu alinhamento a Leste, sob o domínio da Rússia na sua vertente soviética, responsabilizando o Ocidente, no entendimento político da expressão, de estar a alienar uma parte importante da sua essência, da sua identidade. O que é muito interessante é que este texto de Kundera, que de facto se refere a outro mundo muito diferente daqueles em que vivemos, um mundo que deixou de existir (mas que foi o meu, e que de certa forma continua a ser, dado o papel determinante que têm, na nossa cosmogonia, os anos de formação pessoal), mantém uma actualidade e um interesse absolutos.
Por um lado, a sua análise veio a mostrar-se de uma clarividência cristalina pela própria evolução da Europa após a década de 80 e o desabar da União Soviética e do seu bloco, quer no que que toca à União Europeia, quer no que diz respeito à Europa de Leste. Por outro lado, o texto de Kundera ajuda a perceber e a explicar a actual geo-política europeia, e a fragilidade, ainda que esforçada, da União Europeia, sobretudo da Alemanha, no modo de enfrentar o gigante russo. Além disso, e num tempo tão marcado, e dominado, pela economia e pelas suas transacções e preocupações, não deixa de constituir uma enorme chamada de atenção o ênfase que o texto de Kundera põe na componente cultural como o factor decisivo da construção de uma identidade europeia, em que a diversidade cultural, ao invés de constituir um factor desagregador, é antes o cimento que nos chama uns aos outros e nos mantém juntos. Uma lição que, de resto, podemos aproveitar para outros dilemas identitários que, de forma mais ou menos regular, vão surgindo em diversas regiões europeias, como é o caso, actualmente, na nossa Península Ibérica.
Não tenho aqui o texto para o citar com rigor, mas há uma frase do texto de Kundera, que, recordo, foi escrita em inícios da década de 80, que é, simultaneamente, de uma beleza imponente e de uma esclarecedora, e até radical, precisão. Diz ele que uma das diferenças entre a Europa Central e a Rússia, é que na Europa valoriza-se a maior diversidade cultural possível no mínimo espaço territorial possível, enquanto na Rússia, pelo contrário, procura-se a menor diversidade cultural no maior espaço possível. Acho que, no fundo, é isto que diferencia a vocação da democracia da vocação imperial.