...Turbas gemendo esfarrapadas Sem luz, sem pão e sem moradas;
Estes versos de Guerra Junqueiro retratam com violência o cenário em que se viveram os últimos anos do regime monárquico em Portugal. Fascinado pelo acontecimento histórico que foi a mudança de regime, questionei-me com que heroicidade se enfrentaria o quotidiano, quais seriam as aspirações do homem comum, do cidadão anónimo, daqueles a quem a vida mais parece enredar os dias do que oferecer oportunidades de gerir as escolhas. Como se associaram, agiram e traçaram as linhas que marcaram o seu tempo e a nossa história. A minha busca levou-me a este “Diário” esquecido. Em que um cidadão comum relata os acasos da sua vida e o seu testemunho e papel interventivo nesses anos tumultuosos. É o registo do quotidiano de uma cidade em convulsão, analisado pelo olhar limitado, mas curioso e quase espantado de um rapaz à procura de um caminho para o seu futuro, relatando os factos e os atos em que participou.
Aqui fica, passados mais de cem anos, o seu testemunho
Mário Silva Carvalho, 1948 (Pampilhosa - Mealhada). Licenciado em História pela Universidade de Coimbra. Iniciou as lides da escrita apenas depois de se aposentar da carreira de bancário. Em 2013 ganhou o Prémio Literário João Gaspar Simões com o romance Diário de um Carbonário, publicado em 2014. Recebeu também uma 1ª. menção honrosa nos Jogos Florais da Murtosa com o conto A Bicicleta do Juvenal. Em 2014 ganhou a 15ª Edição do concurso literário Prémio Dr. João Isabel com o conto O Regresso do Artur.
Foi-lhe igualmente atribuído o 1º. prémio da XIª. Edição do Concurso Literário Descobrir Vizela com o conto O Brasileiro de Vizella.
Mário Silva Carvalho traz-nos através do Diário de um Carbonário uma história detalhadamente contada e escrita de forma sublime, rigorosa e bem-humorada, que se inicia em 1907 e que nos transporta até à revolução do 05 de outubro de 1910. Um jovem provinciano vem para Lisboa em busca de uma vida melhor. Homem de boa índole e de bom coração, vai colecionando amigos. Inicia a sua vida profissional numa alfaiataria, passando depois a trabalhar numa movimentada taberna de Lisboa. Aos poucos vai-se envolvendo no seio de uma organização que deseja o fim da monarquia e que luta pelo sonho do ideal republicano. Os trabalhos que executa, as missões na Carbonária, os amores e os amigos que conhece levam a que tenhamos a possibilidade de conviver com um homem honesto, honrado e leal que todos desejaríamos ter conhecido e que, sem margem para dúvidas, desejaríamos que tivesse existido. O fim, ainda que o pudéssemos antever, não deixa de ser surpreendente, de nos abalar profundamente e de nos deixar sem respiração por alguns momentos. Uma obra maior e de leitura obrigatória!
Por mais que me esforce não tenho nenhuma lembrança de nas aulas de história ter falado deste período conturbado da nossa história. Passávamos do mapa cor-de-rosa e do ultimato inglês directamente para a Implantação da República. Do Rei D. Carlos I só interessava saber que tinha sido assassinado. De D. Manuel II e D.ª Amélia nem uma palavra. Se este período fazia parte do programa eu com certeza ou adormeci ou faltei às aulas.
Nunca tinha ouvido falar na Carbonária e era hora de saber o que era essa tal de sociedade sinistra e cruel para uns. Sonho de liberdade para outros.
Diário de um Carbonário é um romance de época que relata, de uma forma bem interessante, a mudança de regime em Portugal.
Constantino da Silva, nascido em Pampilhosa do Botão, desembarca em Lisboa no dia 6 de Junho de 1907 e logo nos primeiros dias decide que irá manter um diário com a sua rotina na capital. É através destas entradas, escritas com uma linguagem simples, que acompanhamos o seu modo de viver, toda a situação política e social que tem deixado Lisboa em ebulição e também as suas actividades carbonárias.
Embora as personagens sejam ficcionadas os acontecimentos são mesmo reais. O autor captou muito bem o estilo lisboeta de falar, há expressões que já não ouvia há uns bons anos e adorei percorrer as ruas da cidade baixa no início do século XX.
E afinal o que era essa tal de Carbonária?
Bandeira da Carbonária Portuguesa
Sociedade e Floresta Poderosa Venda Jovem Portugal CARBONÁRIA PORTUGUESA A Carbonária Portuguesa, sociedade secreta que empunhou a bandeira da liberdade, igualdade e fraternidade, ainda hoje continua a dividir os historiadores e estudiosos deste movimento. Criada antes de 1900, irrompeu do secretismo para ações de rua e movimentações populares sobretudo a partir de 1906, abrigando e organizando milhares de militantes. Muitos analistas advogam que a Carbonária não passou de uma milícia tenebrosa ao serviço dos interesses mais obscuros do então crescente Partido Republicano Português e da Maçonaria. Definida como fanática, sinistra e cruel. Precursora das atuais organizações terroristas. Outros defendem que a Sociedade e Floresta, como também se intitulava, o povo em armas, seria uma associação de homens livres, em luta pela emancipação, com ideais democráticos e republicanos. Concedem-lhe o epíteto de patriota e heroica. Em boa verdade, não se conhecem neste movimento quaisquer projetos de tomada do poder e ou planos de governação. Perseguiram obsessivamente um objetivo: O derrube da monarquia e a implantação da República. Com essa finalidade a Carbonária Portuguesa mostraria ser uma poderosa, temível, disciplinada e enérgica organização secreta. Milhares de portugueses, quase todos de condição humilde, juraram fidelidade à sua causa. (…) Facto indesmentível será o papel decisivo no desenrolar dos acontecimentos que culminaram com a Revolução de 5 de Outubro de 1910 e o advento da República. Depois da implantação republicana, a organização ainda cumpriria tarefas relevantes nos combates às incursões monárquicas de 1911 e 1912. A fragmentação do Partido Republicano Português em correntes e novas forças partidárias acabaria por causar cisões profundas na Carbonária Portuguesa. Em poucos anos assumiria papéis secundários. Espartilhada, transformar-se-ia em forças pretorianas a soldo dos novos movimentos políticos. Violentas associações, como as apelidadas Formiga Branca e Formiga Preta, serão sucedâneos lamentáveis do poderoso movimento que ajudou a rasgar séculos de poder monárquico em Portugal. Num balanço breve poderemos concluir que o grande objetivo perseguido com denodo, ousadia, valentia, oferecendo sem titubear, regatear, o sangue fremente, a força de ideais, a rouquidão dos gritos e o suor dos corpos continua nos nossos dias forte e segura: A República Portuguesa.
“Diário de um Carbonário” chega-nos uma vez mais pelas magistrais palavras de Mário Silva Carvalho, uma história escrita de forma transcendente e bem-humorada, que nos transporta até à revolução do dia, 05 de outubro de 1910. Ficamos a conhecer a existência da Carbonária. Para uns, uma Sociedade sinistra e cruel para outros a tão almejada libertação das suas próprias vidas. Deixando-nos a pensar onde se encontra o ponto de equilíbrio quando existem tantos segredos e sangue derramado. Retrata ainda a violência nos últimos anos da Monarquia em Portugal e a posterior mudança do regime. A história é-nos narrada por um jovem provinciano que chega a Lisboa à procura de trabalho. Um registo diário sob o seu olhar curioso, onde relata as situações nas quais participou activamente em prol da organização.