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La historia del rey Gonzalo y de las doce princesas
Pierre Louÿs, l'un des meilleurs écrivains français, a non seulement publié, avec son roman Aphrodite, le plus éclatant manifeste pour la liberté amoureuse, mais il fut aussi, on le sait aujourd'hui, un des plus infatigables producteurs de textes licencieux qui soit. Retrouvés après sa mort, publiés clandestinement, devenus introuvables, ce sont autant de petits chefs-d'oeuvre dont notre collection s'efforcera de présenter, peu à peu, le premier ensemble au format de poche. Voici dans ce volume l'Histoire du roi Gonzalve et des douze princesses (petit roman dont c'est la première édition en librairie), les inénarrables quatrains de Pybrac (" je n'aime pas à voir... "), et pour terminer les magnifiques poèmes érotiques de La Femme (pour la première fois en format de poche), splendides et audacieuses évocations du corps féminin dans ses formes les plus resplendissantes et ses réduits les plus secrets.
112 pages, Paperback
First published January 1, 1927
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October 21, 2019
Contra os rótulos em Literatura
A censura é uma realidade demasiadas vezes presente na literatura ao longo da história. Particularmente danosa como um todo, foi, contudo, a censura por motivos morais aquela que mais atentou contra a liberdade criadora do homem. A lista é extensa e chega a incluir autores hoje consagrados como clássicos, como Flaubert, acusado de obscenidade devido a Madame Bovary. No mesmo ano, Baudelaire viu-se sujeito a uma multa considerável por conta da publicação de As Flores do Mal, e à exclusão de seis dos seus poemas. Um destino pior estaria reservado a Les Amies, de Verlaine, recolha de poesia sáfica apreendida e destruída por ordem do tribunal. Já quanto a Oscar Wilde, apesar de O Retrato de Dorian Gray não ter sido a causa da sua condenação, serviu como prova de comportamento homossexual. O próprio século XX não escapou a esta triste prática, com O Amante de Lady Chatterley (1928) a ser somente publicado, em versão integral, no Reino Unido em 1960, e isto após um processo por obscenidade contra o editor que a tal atentou.
Pese embora já não exista uma censura institucionalizada, pelo menos no Ocidente, a sua influência ainda se faz sentir, desta feita metamorfoseada no instinto ainda prevalecente, no leitor moderno, em classificar uma certa literatura como erótica, logo menor, de qualidade duvidosa, relegada para segundo plano, sempre lida mas nunca admitida. Tal como afirma Marthe Robert, “a literatura enquanto tal não suporta a qualificação”. Multidisciplinar e multifacetada, é essa particularidade que a torna o objecto perfeito de reflexão, logo classifica-la é matá-la porque “perde a sua única qualidade incontestável que é a recusa de se especificar” (PAUVERT, p. 7). Veja-se o caso de As Ligações Perigosas, de Choderlos de Laclos, recebido como escandaloso, libertino e imoral, classificado como uma perversão dos bons costumes; mantém-se, até hoje, uma das melhores descrições e análises da aristocracia francesa do final do século XVIII, cujo papel seria determinante para a eclosão da Revolução Francesa. Ou ainda o caso, talvez mais paradigmático, das obras do Marquês de Sade – menosprezado, e tantas vezes censurado, pensador e romancista iluminista – em cujos textos se entrevê já o gérmen do totalitarismo e do fascismo, também eles filhos do Iluminismo.
Pierre Louÿs, oficial e clandestino
Impermeável a classificações, Pierre Louÿs desenvolveu a sua obra num jogo constante de provocação contra a censura, fosse ela social, moral, ou estética. Não obstante ser seguidor do movimento simbolista, discípulo de Mallarmé e amigo pessoal de André Gide, Louÿs desenvolverá uma estética requintada e particular, profundamente influenciada pela Antiguidade clássica, misturando a sinestesia alegórica dos simbolistas com a correcção métrica greco-romana, que tanto admirará Oscar Wilde. Uma primeira publicação, Les Chansons de Bilitis (1894), hino ao lesbianismo numa época que criminalizava a homossexualidade, granjear-lhe-á o apreço dos críticos, devido ao pequeno embuste que foi a criação de uma suposta amante de Safo, Bilitis, habitante da ilha de Lesbos e poetisa de rara beleza estética. A obra seguinte, Afrodite, mais uma tentativa de captar a ambiência sensual da Antiguidade, diametralmente oposta à época vitoriana, fará de Louÿs o maior sucesso de vendas francês de todo o século XIX, com cerca de 350 mil cópias vendidas (consultar a crítica a Afrodite). Todavia, é hoje mais conhecido por La Femme et le Pantin, através da adaptação cinematográfica magistral de Luis Buñuel, Cet Obscur Objet du Désir, pequeno romance que relata a relação de amor/ódio entre um aristocrata espanhol e uma jovem andaluza de charme hipnotizador.
Paralelamente a esta obra oficial, será descoberta, após a sua morte (1925), uma outra, secreta e escrita apenas para a posteridade, para um tempo que lhe permitisse a publicação. Logo no ano seguinte surgem as duas principais obras clandestinas de Louÿs: Manual de Civilidade Para Meninas e Tal Mãe, Tais Filhas. O Manual de Civilidade é uma sátira obscena e bem-humorada ao, então canónico, Conseils et Instructions aux Demoiselles Pour se Conduire dans le Monde, de Madame de Maintenon. Por sua vez, Tal Mãe, Tais Filhas trata-se de um romance licencioso que desafia todas as concepções do social e da moral. Elogiado por Susan Sontag pela sua qualidade literária, e escrito num transe psicanalítico em apenas dois meses, é motivado pelo divórcio com a sua primeira mulher, Louise de Hérédia, e a misteriosa relação entre esta, a mãe e as irmãs. Destaca-se, ainda, Pybrac, conjunto de duzentas e sessenta e uma quadras humorísticas escabrosas, sátira das quadras moralistas do poeta do século XVI, Seigneur de Pibrac, dirigidas contra a censura da adaptação dramatúrgica de La Femme et le Pantin, no vanguardista Théâtre Antoine.
Rei Gonzalve e Joséphine
O livro publicado pela Teorema em 1996 – na sua colecção dedicada à literatura dita erótica, com o sugestivo nome, baseado em Os Lusíadas, “Canto Nono” – denominado História do Rei Gonzalve e das Suas Doze Princesas e As Memórias de Joséphine, é, na verdade, uma antologia de duas obras clandestinas de Pierre Louÿs, bastante díspares nas suas origens, estilo e conteúdo. A História do Rei Gonzalve, parte integrante dos manuscritos inéditos vendidos pela viúva de Louÿs ao livreiro Edmond Bernard, mais tarde revendidos a coleccionadores privados e editores clandestinos, apareceu publicado em Madrid, por um anónimo, com a indicação “aux dépens d’un bibliophile” (a expensas de um bibliófilo) em 1927. A sua concepção remonta, no entanto, a um período anterior a 20 de Março de 1900, data do início do lançamento em folhetim do romance Les Aventures du Roi Pausole, reformulação “oficial” e “séria” da História do Rei Gonzalve. Apesar de ter sido deixada inacabada, o estilo da obra evidencia um trabalho de apuramento estético marcado pela leveza e fluidez do discurso narrativo; denotando-se uma certa tendência cénica, com cada aparição de uma nova personagem a marcar um novo capítulo/cena, repleta de monólogos e interpelações subtis ao leitor.
O enredo gira em torno de um rei com desejos incestuosos em relação às doze filhas, cada uma com um nome baseado nos números ordinais latinos (Prima, Secunda…). Para a sua formação, o rei Gonzalve tinha escolhido como tutora a dama Chloris, uma das mulheres mais libertinas da Corte. Quando recebe a informação do confessor régio que as princesas viviam em constantes pensamentos pecaminosos, Gonzalve dá autorização à esposa para realizar a peregrinação monástica que tanto almejava e incumbe o clérigo de a acompanhar, para melhor colocar em prática os seus intentos criminosos. Convoca, então, as filhas, ao ritmo de uma por noite, com o intuito de as conspurcar, apenas para ficar surpreendido com o nível de depravação em que cada uma vivia. Não só não são meras donzelas inocentes, como não desconhecem nenhuma perversão, tendo cada uma o seu conjunto de taras. O rei Gonzalve, o grande devasso, acaba, por fim, catequizado pelas filhas que tanto desejava poluir, ao ponto de afirmar, num misto de espanto e fascínio, ”todas as minhas filhas são doidas” (LOUYS, p. 72).
Quanto a As Memórias de Joséphine, manteve-se inédita até 1984, altura em que apareceu em Paris, juntamente com outros dois textos, Fille de Femme e Paroles, com a falsa data de 1894, sem indicação do local de edição ou editor, num formato in-quarto e uma pequena tiragem de duzentos exemplares. Posteriormente foi apurado que proveio da colecção privada de Michel Simon, excêntrico actor cinematográfico suíço, possuidor de um grande espólio de produções eróticas, dispersas após a sua morte, em 1975. A obra está inacabada, e o seu carácter fragmentário e pouco cuidado, aliado ao pequeno formato, que não excede as vinte páginas, parecem indicar que a sua concepção data dos anos finais de Louÿs, passados em clausura no quarto, sem luz eléctrica, que nunca consentiu em casa, a compor incessantemente textos do mais diverso e delirante erotismo, já quase cego e em fase terminal de sífilis.
Tal como o próprio nome indica, o livro consiste numa colecção de memórias da cortesã Joséphine dirigidas à filha de doze anos, personagem ausente que constitui um mero leitmotiv da narrativa, com o intuito “edificante” de a preparar para uma vida de igual marginalidade. Joséphine, prostituta, filha de prostituta, nasce já marcada para a vida de devassidão, a meio de um encontro da mãe com um cliente. A educação de Joséphine ficará a cargo conjunto da mãe e de uma criada, Mimi, que tem tanto de magreza como a Mamã tem de opulência de carnes. Cada momento da sua vida, e cada veículo narrativo, será versado à sua instrução no mais variado leque de taras e perversões, que mais parecem uma sátira decalcada a papel químico da obra de psicopatologia de referência da primeira metade do século XX, Psychopathia Sexualis, do alemão Krafft-Ebing. Ademais, vários elementos da narrativa e da acção apresentam semelhanças com Tal Mãe, Tais Filhas parecendo apontar As Memórias de Joséphine como um pastiche, pelo menos parcial, deste romance.
Não obstante deveras diferentes quanto ao estilo, origem e conteúdo, ambas as obras contêm elementos comuns que as ligam, aliás, com a restante obra de Louÿs, tanto a oficial como a secreta. Em primeiro lugar, as mulheres apresentam-se como as verdadeiras protagonistas e motores da acção narrativa, por oposição aos homens, que ou são meros espectadores, ou, na melhor das hipóteses, participantes passivos. Em segundo lugar, perpassa pela produção literária de Pierre Louÿs, desde Les Chansons de Bilitis, uma aberta defesa da homossexualidade feminina como arquétipo do relacionamento humano. Esta defesa articula-se com uma reformulação do conceito do “eterno feminino” de Goethe, deixando a mulher de ser o centro das virtudes privadas da castidade, da afabilidade e da cortesia, entendidas por Louÿs como castradoras do Eu feminino, para ser um elemento verdadeiramente livre e transcendente da humanidade. Tal concepção filosófica encontra-se precisamente nos antípodas da concepção falocêntrica de D.H. Lawrence, para quem a homossexualidade feminina é vista como um erro, dado que a mulher só se concretiza a si própria na união com o homem. Em terceiro lugar, o incesto é a grande constante de toda a sua obra secreta, sendo explorado das mais variadas formas, com uma grande tendência, contudo, para o relacionamento entre mãe e filha.
Nas palavras de Alexandrian, “Louÿs deleitava-se a sonhar com o impossível” (ALEXANDRIAN, p. 390), e a sua produção incessante, até ao fim dos seus dias, de textos de um erotismo subversivo devem ser entendidos à luz de um novo tipo de literatura, a literatura do inconfessável, tal como lhe chama o mesmo Alexandrian. Poder-lhe-ia ter chamado, também, literatura do inconsciente, pois toda a obra secreta de Louÿs se pode resumir como uma catalogação ininterrupta dos seus sonhos, obsessões e perversões. E, em boa verdade, quanto mais se deterioravam a saúde e a visão, os seus textos vão-se desprendendo do requinte estético de outrora, restando apenas a sua concepção filosófica da Mulher, e, sobretudo, as suas taras, exorcizadas directamente do seu subconsciente para o papel.
Referências
PAUVERT, Jean-Jacques (2001) – A Literatura Erótica. Lisboa: Editorial Teorema.
LOUYS, Pierre (1996) – História do Rei Gonzalve e das Suas Doze Princesas e As Memórias de Joséphine. Lisboa: Editorial Teorema.
ALEXANDRIAN, Sarane (1991) – História da Literatura Erótica. Lisboa: Livros do Brasil.
A censura é uma realidade demasiadas vezes presente na literatura ao longo da história. Particularmente danosa como um todo, foi, contudo, a censura por motivos morais aquela que mais atentou contra a liberdade criadora do homem. A lista é extensa e chega a incluir autores hoje consagrados como clássicos, como Flaubert, acusado de obscenidade devido a Madame Bovary. No mesmo ano, Baudelaire viu-se sujeito a uma multa considerável por conta da publicação de As Flores do Mal, e à exclusão de seis dos seus poemas. Um destino pior estaria reservado a Les Amies, de Verlaine, recolha de poesia sáfica apreendida e destruída por ordem do tribunal. Já quanto a Oscar Wilde, apesar de O Retrato de Dorian Gray não ter sido a causa da sua condenação, serviu como prova de comportamento homossexual. O próprio século XX não escapou a esta triste prática, com O Amante de Lady Chatterley (1928) a ser somente publicado, em versão integral, no Reino Unido em 1960, e isto após um processo por obscenidade contra o editor que a tal atentou.
Pese embora já não exista uma censura institucionalizada, pelo menos no Ocidente, a sua influência ainda se faz sentir, desta feita metamorfoseada no instinto ainda prevalecente, no leitor moderno, em classificar uma certa literatura como erótica, logo menor, de qualidade duvidosa, relegada para segundo plano, sempre lida mas nunca admitida. Tal como afirma Marthe Robert, “a literatura enquanto tal não suporta a qualificação”. Multidisciplinar e multifacetada, é essa particularidade que a torna o objecto perfeito de reflexão, logo classifica-la é matá-la porque “perde a sua única qualidade incontestável que é a recusa de se especificar” (PAUVERT, p. 7). Veja-se o caso de As Ligações Perigosas, de Choderlos de Laclos, recebido como escandaloso, libertino e imoral, classificado como uma perversão dos bons costumes; mantém-se, até hoje, uma das melhores descrições e análises da aristocracia francesa do final do século XVIII, cujo papel seria determinante para a eclosão da Revolução Francesa. Ou ainda o caso, talvez mais paradigmático, das obras do Marquês de Sade – menosprezado, e tantas vezes censurado, pensador e romancista iluminista – em cujos textos se entrevê já o gérmen do totalitarismo e do fascismo, também eles filhos do Iluminismo.
Pierre Louÿs, oficial e clandestino
Impermeável a classificações, Pierre Louÿs desenvolveu a sua obra num jogo constante de provocação contra a censura, fosse ela social, moral, ou estética. Não obstante ser seguidor do movimento simbolista, discípulo de Mallarmé e amigo pessoal de André Gide, Louÿs desenvolverá uma estética requintada e particular, profundamente influenciada pela Antiguidade clássica, misturando a sinestesia alegórica dos simbolistas com a correcção métrica greco-romana, que tanto admirará Oscar Wilde. Uma primeira publicação, Les Chansons de Bilitis (1894), hino ao lesbianismo numa época que criminalizava a homossexualidade, granjear-lhe-á o apreço dos críticos, devido ao pequeno embuste que foi a criação de uma suposta amante de Safo, Bilitis, habitante da ilha de Lesbos e poetisa de rara beleza estética. A obra seguinte, Afrodite, mais uma tentativa de captar a ambiência sensual da Antiguidade, diametralmente oposta à época vitoriana, fará de Louÿs o maior sucesso de vendas francês de todo o século XIX, com cerca de 350 mil cópias vendidas (consultar a crítica a Afrodite). Todavia, é hoje mais conhecido por La Femme et le Pantin, através da adaptação cinematográfica magistral de Luis Buñuel, Cet Obscur Objet du Désir, pequeno romance que relata a relação de amor/ódio entre um aristocrata espanhol e uma jovem andaluza de charme hipnotizador.
Paralelamente a esta obra oficial, será descoberta, após a sua morte (1925), uma outra, secreta e escrita apenas para a posteridade, para um tempo que lhe permitisse a publicação. Logo no ano seguinte surgem as duas principais obras clandestinas de Louÿs: Manual de Civilidade Para Meninas e Tal Mãe, Tais Filhas. O Manual de Civilidade é uma sátira obscena e bem-humorada ao, então canónico, Conseils et Instructions aux Demoiselles Pour se Conduire dans le Monde, de Madame de Maintenon. Por sua vez, Tal Mãe, Tais Filhas trata-se de um romance licencioso que desafia todas as concepções do social e da moral. Elogiado por Susan Sontag pela sua qualidade literária, e escrito num transe psicanalítico em apenas dois meses, é motivado pelo divórcio com a sua primeira mulher, Louise de Hérédia, e a misteriosa relação entre esta, a mãe e as irmãs. Destaca-se, ainda, Pybrac, conjunto de duzentas e sessenta e uma quadras humorísticas escabrosas, sátira das quadras moralistas do poeta do século XVI, Seigneur de Pibrac, dirigidas contra a censura da adaptação dramatúrgica de La Femme et le Pantin, no vanguardista Théâtre Antoine.
Rei Gonzalve e Joséphine
O livro publicado pela Teorema em 1996 – na sua colecção dedicada à literatura dita erótica, com o sugestivo nome, baseado em Os Lusíadas, “Canto Nono” – denominado História do Rei Gonzalve e das Suas Doze Princesas e As Memórias de Joséphine, é, na verdade, uma antologia de duas obras clandestinas de Pierre Louÿs, bastante díspares nas suas origens, estilo e conteúdo. A História do Rei Gonzalve, parte integrante dos manuscritos inéditos vendidos pela viúva de Louÿs ao livreiro Edmond Bernard, mais tarde revendidos a coleccionadores privados e editores clandestinos, apareceu publicado em Madrid, por um anónimo, com a indicação “aux dépens d’un bibliophile” (a expensas de um bibliófilo) em 1927. A sua concepção remonta, no entanto, a um período anterior a 20 de Março de 1900, data do início do lançamento em folhetim do romance Les Aventures du Roi Pausole, reformulação “oficial” e “séria” da História do Rei Gonzalve. Apesar de ter sido deixada inacabada, o estilo da obra evidencia um trabalho de apuramento estético marcado pela leveza e fluidez do discurso narrativo; denotando-se uma certa tendência cénica, com cada aparição de uma nova personagem a marcar um novo capítulo/cena, repleta de monólogos e interpelações subtis ao leitor.
O enredo gira em torno de um rei com desejos incestuosos em relação às doze filhas, cada uma com um nome baseado nos números ordinais latinos (Prima, Secunda…). Para a sua formação, o rei Gonzalve tinha escolhido como tutora a dama Chloris, uma das mulheres mais libertinas da Corte. Quando recebe a informação do confessor régio que as princesas viviam em constantes pensamentos pecaminosos, Gonzalve dá autorização à esposa para realizar a peregrinação monástica que tanto almejava e incumbe o clérigo de a acompanhar, para melhor colocar em prática os seus intentos criminosos. Convoca, então, as filhas, ao ritmo de uma por noite, com o intuito de as conspurcar, apenas para ficar surpreendido com o nível de depravação em que cada uma vivia. Não só não são meras donzelas inocentes, como não desconhecem nenhuma perversão, tendo cada uma o seu conjunto de taras. O rei Gonzalve, o grande devasso, acaba, por fim, catequizado pelas filhas que tanto desejava poluir, ao ponto de afirmar, num misto de espanto e fascínio, ”todas as minhas filhas são doidas” (LOUYS, p. 72).
Quanto a As Memórias de Joséphine, manteve-se inédita até 1984, altura em que apareceu em Paris, juntamente com outros dois textos, Fille de Femme e Paroles, com a falsa data de 1894, sem indicação do local de edição ou editor, num formato in-quarto e uma pequena tiragem de duzentos exemplares. Posteriormente foi apurado que proveio da colecção privada de Michel Simon, excêntrico actor cinematográfico suíço, possuidor de um grande espólio de produções eróticas, dispersas após a sua morte, em 1975. A obra está inacabada, e o seu carácter fragmentário e pouco cuidado, aliado ao pequeno formato, que não excede as vinte páginas, parecem indicar que a sua concepção data dos anos finais de Louÿs, passados em clausura no quarto, sem luz eléctrica, que nunca consentiu em casa, a compor incessantemente textos do mais diverso e delirante erotismo, já quase cego e em fase terminal de sífilis.
Tal como o próprio nome indica, o livro consiste numa colecção de memórias da cortesã Joséphine dirigidas à filha de doze anos, personagem ausente que constitui um mero leitmotiv da narrativa, com o intuito “edificante” de a preparar para uma vida de igual marginalidade. Joséphine, prostituta, filha de prostituta, nasce já marcada para a vida de devassidão, a meio de um encontro da mãe com um cliente. A educação de Joséphine ficará a cargo conjunto da mãe e de uma criada, Mimi, que tem tanto de magreza como a Mamã tem de opulência de carnes. Cada momento da sua vida, e cada veículo narrativo, será versado à sua instrução no mais variado leque de taras e perversões, que mais parecem uma sátira decalcada a papel químico da obra de psicopatologia de referência da primeira metade do século XX, Psychopathia Sexualis, do alemão Krafft-Ebing. Ademais, vários elementos da narrativa e da acção apresentam semelhanças com Tal Mãe, Tais Filhas parecendo apontar As Memórias de Joséphine como um pastiche, pelo menos parcial, deste romance.
Não obstante deveras diferentes quanto ao estilo, origem e conteúdo, ambas as obras contêm elementos comuns que as ligam, aliás, com a restante obra de Louÿs, tanto a oficial como a secreta. Em primeiro lugar, as mulheres apresentam-se como as verdadeiras protagonistas e motores da acção narrativa, por oposição aos homens, que ou são meros espectadores, ou, na melhor das hipóteses, participantes passivos. Em segundo lugar, perpassa pela produção literária de Pierre Louÿs, desde Les Chansons de Bilitis, uma aberta defesa da homossexualidade feminina como arquétipo do relacionamento humano. Esta defesa articula-se com uma reformulação do conceito do “eterno feminino” de Goethe, deixando a mulher de ser o centro das virtudes privadas da castidade, da afabilidade e da cortesia, entendidas por Louÿs como castradoras do Eu feminino, para ser um elemento verdadeiramente livre e transcendente da humanidade. Tal concepção filosófica encontra-se precisamente nos antípodas da concepção falocêntrica de D.H. Lawrence, para quem a homossexualidade feminina é vista como um erro, dado que a mulher só se concretiza a si própria na união com o homem. Em terceiro lugar, o incesto é a grande constante de toda a sua obra secreta, sendo explorado das mais variadas formas, com uma grande tendência, contudo, para o relacionamento entre mãe e filha.
Nas palavras de Alexandrian, “Louÿs deleitava-se a sonhar com o impossível” (ALEXANDRIAN, p. 390), e a sua produção incessante, até ao fim dos seus dias, de textos de um erotismo subversivo devem ser entendidos à luz de um novo tipo de literatura, a literatura do inconfessável, tal como lhe chama o mesmo Alexandrian. Poder-lhe-ia ter chamado, também, literatura do inconsciente, pois toda a obra secreta de Louÿs se pode resumir como uma catalogação ininterrupta dos seus sonhos, obsessões e perversões. E, em boa verdade, quanto mais se deterioravam a saúde e a visão, os seus textos vão-se desprendendo do requinte estético de outrora, restando apenas a sua concepção filosófica da Mulher, e, sobretudo, as suas taras, exorcizadas directamente do seu subconsciente para o papel.
Referências
PAUVERT, Jean-Jacques (2001) – A Literatura Erótica. Lisboa: Editorial Teorema.
LOUYS, Pierre (1996) – História do Rei Gonzalve e das Suas Doze Princesas e As Memórias de Joséphine. Lisboa: Editorial Teorema.
ALEXANDRIAN, Sarane (1991) – História da Literatura Erótica. Lisboa: Livros do Brasil.
February 18, 2017
La belleza se muestra siempre desnuda. La belleza se muestra a quien la ama.
Anoche, luego de leer a Freud por horas, me pasé a Louÿs.
Desde Venus in Furs no leía tanto femdom (...), aunque este es un librito minúsculo en tamaño y pretensiones. Todo se construye a partir del diálogo y no de descripciones del narrador. Es decir: es la lógica de la confesión forzada o simulada y del diálogo casi filosófico en tono lúdico/paradójico. La figura del rey es una excusa para que todas las mujeres hagan, hablen y discutan entre ellas sobre el amor, las virginidades, etc. También me reí bastante, todavía no descubro en qué radica la comicidad de los personajes de Louÿs. Aspecto que tendré particularmente en cuenta cuando lea más cosas suyas.
*Mi edición pirata tiene por lo menos una errata por página. Lo cual no hizo sino aumentar mi feliz impresión de estar leyendo un librito minúsculo, bastardo, que no debe ser leído, etc. Bastardo, digo bien, ya que es una reversión de un libro anterior suyo: Les aventures du roi Pausole (1901).
Anoche, luego de leer a Freud por horas, me pasé a Louÿs.
Desde Venus in Furs no leía tanto femdom (...), aunque este es un librito minúsculo en tamaño y pretensiones. Todo se construye a partir del diálogo y no de descripciones del narrador. Es decir: es la lógica de la confesión forzada o simulada y del diálogo casi filosófico en tono lúdico/paradójico. La figura del rey es una excusa para que todas las mujeres hagan, hablen y discutan entre ellas sobre el amor, las virginidades, etc. También me reí bastante, todavía no descubro en qué radica la comicidad de los personajes de Louÿs. Aspecto que tendré particularmente en cuenta cuando lea más cosas suyas.
*Mi edición pirata tiene por lo menos una errata por página. Lo cual no hizo sino aumentar mi feliz impresión de estar leyendo un librito minúsculo, bastardo, que no debe ser leído, etc. Bastardo, digo bien, ya que es una reversión de un libro anterior suyo: Les aventures du roi Pausole (1901).
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