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Escalpo

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Para narrar o emaranhado de situações paradoxais e convulsionadas sequências de fatos acumulados dos nossos tempos, Ronaldo Bressane constrói Escalpo com grande fôlego. E nesse tipo de apneia da escrita, prende a respiração e mergulha, nadando por baixo dos maneirismos de metalinguagem de superfície da literatura contemporânea, num universo que mescla o marginal e o pop numa prosa cheia de vigor. Ian Negromonte é um quadrinista gaúcho decadente, ainda que jovem. Na esteira de uma crise pós-separação e em meio às manifestações de 2013, somada aos perrengues financeiros, nosso herói vê sua história se cruzar com a de Miguel Ángel Flores, escritor chileno que chegou ao Brasil como um jovem fugitivo do regime de Pinochet. O velho, que precisa acertar contas com o passado, instiga Ian a encarar uma longa e inusitada jornada, que o leva - e nos leva junto - a diversos países da América do Sul, incluindo a nossa Paraty. Mesmo nesse lugar aparentemente paradisíaco, Ian investiga o que está por trás dos clichês cotidianos e dos sorrisos de turistas. Os buracos são muito mais embaixo, camaradas. Ronaldo Bressane conhece todas as armadilhas da escrita, seja para evitá-las, seja para lançar pistas ao leitor nas horas certas ao longo do romance. Por isso é que Escalpo, com suas cenas permeadas de crueldade e repleto de peripécias, é um thriller de ação irresistível.

256 pages, Paperback

Published January 1, 2017

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Ronaldo Bressane

20 books6 followers

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Profile Image for Carlos.
Author 15 books43 followers
February 2, 2018
À primeira vista, o começo do romance Escalpo, do escritor e jornalista Ronaldo Bressane, não é promissor. O protagonista Ian Negromonte é um artista, no caso um quadrinista gaúcho, em desgraça pessoal e profissional: seu mais recente trabalho foi rumorosamente apontado como um plágio e seu casamento acabou depois de uma sucessão de infidelidades da esposa, o que o faz bater perna por São Paulo procurando apartamento e remoendo suas insatisfações: com a inveja e deslealdade dos colegas artistas, com a mulher, etc.

Bressane escreve com uma técnica que não é certinha, e que consegue manter uma raiva e uma vitalidade essenciais a seu estilo, mas essa história é praticamente a de boa parte dos romances brasileiros recentes – com a possível ressalva de que o protagonista não é branco, e sim mestiço, mas isso não chega a fazer diferença alguma no texto.

Mas em determinado momento, após Ian participar de uma manifestação de rua e ser surrado pela polícia, a narrativa volta a um ponto que parecia ter ficado para trás. Ian é procurado por velho chileno chamado Miguel Ángel Flores, um dos donos de apartamento que havia visitado. Flores fugiu do Chile durante a ditadura de Pinochet, deixando para trás dois filhos que teve com duas mulheres diferentes e a quem nunca mais viu. Paraplégico após um acidente, o chileno está mal de saúde e quer encontrar os filhos, mas as pesquisas feitas com a ajuda de advogados e de comissões de direitos humanos deram em nada.

É aí que surge a proposta ao mesmo tempo óbvia e delirante: como em um romance policial clássico de Rex Stout, em que Archie Goodwin era "as pernas" de um gordíssimo e sedentário Nero Wolfe, Flores contrata Ian como um arremedo de detetive em busca de seus filhos, em uma viagem pela América Latina e pelo Brasil que o leva ao encontro de alfarrabistas cegos, militantes políticos e cantores gospels. E é aí que a mistura paradoxalmente desvairada e sóbria de elementos no romance começa a valer a pena.

Há algo de ficção pulp em Escalpo, mas há mais. Há quadrinhos, claro, e um olhar político, mas a referência mais à flor da pele, embora não necessariamente nomeada, é um eco menos radical da atmosfera delirante e suavemente paranoica que José Agrippino de Paula tornou única em sua epopeia PanAmérica. Delírios lisérgicos, mistérios e diálogos cortantes e absurdos fazem de Escalpo, no fim, um panorama bem-urdido em que o todo extrapola a soma das partes.
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