O Cabeleira é uma das obras mais originais de quantas tenho lido do Romantismo. Digo original pois duas coisas chamaram minha atenção: em primeiro lugar, a narrativa nos é transmitida desde o ponto de vista do antagonista, isto é, O Cabeleira. Um dos grandes problemas do Romantismo é que os vilões acostumam a ser moldados de simplória maneira, o que acaba levando -ao menos para mim- a se ter um desinteresse quase absoluto para com os malvados da estória. Não é o caso do mítico personagem pernambucano que tão bem constituído está por Távora.
A segunda coisa que chamou minha atenção, foi a forma crua de tratar a crueldade dos bandidos nordestinos. É dizer, ao mesmo tempo em que a maioria das obras do Romantismo ilustram as mortes e cenas violentas das suas obras com um certo temor a "traumatizar", aqui a timidez obvia-se, dando lugar, assim, a momentos que impactam ao leitor por não escatimar em detalhes mórbidos e bizarros. Agradece-se a falta de pudor de Franklin Távora, pois desta forma consegue-se visualizar melhor os horrores acontecidos nas estepes pernambucanas do século XVII e XVIII.
Contudo, O Cabeleira não é uma obra redonda pela abrupta metamorfose do protagonista. É dizer, tudo bem que as personagens evoluam no decorrer da história, mas não foi bem elaborada pelo autor, pois ficou pouco acreditável que O Cabeleira sofresse tamanha transformação em tão pouco tempo cronológico. Isto acaba acarretando uma distância entre a ficção e a historicidade, isto é, acaba fazendo que o leitor perca um pouco a confiança na vericidade da obra.
Mas é romance, né?