«Acabo de chegar à ilha onde vivi durante a minha infância, à procura de uma pessoa.»
O regresso a Ataúro, terra da infância, «terra do nunca», é o início desta nova viagem ao revés, de Luís Cardoso, um romance veloz, poético e emotivo, que percorre a infância e a idade de formação do narrador, a diáspora, as lutas, as desilusões, as traições, as perdas, o regresso, cruzando-o com uma plêiade de personagens extraordinárias. Uma viagem que, naturalmente, corre ao lado da história de Timor Leste, com a fantasia e a ironia que marcam desde sempre a voz do autor e nos fazem suspirar por essas terras misteriosas e de aterradora beleza.
Luís Cardoso nasceu no Timor-Leste. Formou-se em silvicultura pelo Instituto Superior de Agronomia de Lisboa e fez pós-graduação em Direito e Política do Ambiente pela Universidade Lusófona. Foi representante do Conselho Nacional da Resistência Maubere em Lisboa. É autor de Crónica de uma travessia (1997), Olhos de coruja, olhos de gato bravo (2002) e A última morte do coronel Santiago (2003). Requiem para o navegador solitário (2007) é seu primeiro livro publicado no Brasil. Suas obras já foram traduzidas para vários idiomas, como o alemão, francês, holandês, inglês e sueco.
COMENTÁRIO ⭐⭐⭐⭐ “Para Onde vão os Gatos Quando Morrem?” Luís Cardoso
Luís Cardoso será provavelmente o mais destacado escritor timorense vivo. Recentemente foi notícia devido ao seu último romance "O Plantador de Abóboras", editado em Portugal pela Abysmo, vencer o prémio Oceanos. Por mim a leitura de “Para Onde vão os Gatos Quando Morrem?” foi uma estreia pessoal bastante auspiciosa na obra deste autor. Este livro é um livro sobre os desenganos e desencontros da cultura e da sociedade timorense, um livro sobre a procura de um sentido para uma estória pessoal – a de Ernesto – mas também parta a História de um novo país. Por isso mesmo um dos detalhes deste livro que mais me encantou foi a importância dos territórios, em especial da pequeno ilha do Ataúro, local onde se passa grande parte da trama inicial do Livro. É nessa pequena ilha, rodeada de tubarões, que o pequeno Ernesto começa a entender o mundo que o rodeia. É a partir desse território pequeno e perdido no meio do mar que ele se pensa como criança. Da sua família sabemos da ausência da mãe, e do seu pai cuja origem algo mítica num território de um Portugal longínquo se torna componente fundamental do livro. Por isso a constante presença de “A criação do mundo” de Miguel Torga, livro autobiográfico onde o autor nos conta a sua infância e juventude. É assim que Luís Cardoso nos faz também viajar pelos tempos de parte do século XX e pelas desventuras da construção da ideia de Timor enquanto nação, criando uma personagem que na sua descoberta pessoal, na sua mobilidade por diferentes territórios do mundo se vai descobrindo – num continuo processo de regresso ao passado – como constituinte dessa cultura sentido em determinado momento que assim deixa de se sentir estrangeiro na sua própria terra. Uma nota pessoal. Adorei ler este livro. Descubram este autor!
Há qualquer coisa de mágico quando lemos um livro no lugar em que a história acontece. Foi o que aconteceu com este livro, cuja leitura iniciei na ilha de Ataúro. Existem lugares que já foram cenário de vários livros e filmes, e é fácil para o leitor visualizá-los, mas há outros que só raramente são mencionados ou usados como pano de fundo de uma história. Nestes casos lê-los, enquanto sentimos o vento e vemos a paisagem que é descrita, ou ouvimos algumas palavras em tétum que são ditas, torna a leitura especial (até a menção repetida aos tokés, que ouvíamos diariamente, sendo que no glossário é referido que se trata de um Lagarto Pactydatilus gottutus que emite um som que se assemelha a toké). Trata-se do primeiro livro que leio deste autor. O livro está dividido por dias e vai, de forma sequencial, até ao vigésimo dia. Como refere Frei Bento Domingues no Prefácio, este romance é escrito como uma parábola bíblica. Acompanha-o A Criação do Mundo, de Miguel Torga, outra parábola bíblica quase laicizada. Tal como na Bíblia, os parágrafos (versículos) são numerados. A impressão que tive quando acabei de o ler foi que se tratava de dois livros distintos, porém, sequenciais.Apesar dos ritmos distintos, gostei muito de ler este livro e da mistura entre realidade, tradição e imaginação, como se a vida precisasse destes ingredientes para ser contada. https://leiturasemclube.blogspot.com/