"A escuridão é mais forte do que todas as hipóteses de luz."
Sofia é uma menina-tesoura que sobrevive a uma relação de violência e abuso e cresce com a convicção de que a maldade supera tudo.
Será possível atenuar a dor? Como se resiste ao fantasma real da infância? Que decisões partem dessa memória e podem limitar a vida?
Sofia abriga-se na amizade de três homens, Eduardo, Jaime e Lourenço. e vive sem desejo, sem vontade, de construção em construção, sendo o vazio o objectivo final.
Esta personagem surge pela primeira vez no livro "Por Este Mundo Acima" (2011) e faz parte do território ficcional da autora que, com "A Construção do Vazio", termina um ciclo de três narrativas independentes iniciado em 2008, com o romance "No Silêncio de Deus".
PATRÍCIA REIS nasceu em Lisboa, a 12 de Dezembro de 1970. Começou como jornalista n' O Independente aos dezassete anos. Passou pela revista Sábado, de que foi editora, fez um estágio em Nova Iorque na revista Time e, no regresso dos EUA, colaborou no Expresso, trabalhou nas revistas Marie Claire e Elle e nos «projectos especiais» do jornal Público. Em 1997 passou a colaborar com o atelier de Henrique Cayatte, na produção de conteúdos para a Expo' 98. Desta colaboração surgiu o Atelier 004 de que é directora e que, entre outros projectos, produz a Egoísta.
Escreveu a curta biografia de Vasco Santana e o romance fotográfico Beija-me (2006), em co-autoria com João Vilhena, a novela Cruz das Almas (2004) e os romances Amor em Segunda Mão (2006), Morder-te o Coração (2007), que integrou a lista de 50 livros finalistas do Prémio Portugal Telecom de Literatura, No Silêncio de Deus (2008), Antes de Ser Feliz (2009), Por este mundo acima (2011), Contracorpo (2013) e O que nos separa dos outros por causa de um copo de whisky (2014).
"S. Leio poesia. Há imensos livros cá em casa. leio como se não existisse amanhã. Pergunto-me se seria possível ter uma profissão onde ler fosse obrigatório oito horas por dia. A poesia é uma dor tremenda. Tudo é uma dor, Sara. Tudo. Compreendo que me digas que o que nos une são as mãos dadas no escuro. Mesmo aqui ainda consigo sentir os teus dedos magros. O teu anel no indicador. Talvez tivesse sido esperto fazer um pacto de sangue. Como acontecia antigamente entre os amigos que se queriam para a vida. Achas que importa? Sara, posso sentir a tua mão na minha, mas o silêncio contra os meus dias é diferente do nosso silêncio e eu fico cada vez mais triste."
A partir do momento em que peguei neste livro, não fui mais capaz de o pousar. Não o li: devorei cada palavra, ponderei sobre o enredo, procurei falhas, faltas e erros. Tudo para chegar à conclusão que sim, merece as 5 estrelas.
Acho que estou a precisar de fazer uma pausa nas letras de Patrícia Reis... Estava lá tudo para que eu adorasse a leitura, o tema (forte e pesado) como eu tanto gosto, a escrita muito limpa, poética de Patrícia Reis, a primazia dada ao conhecimento e desenvolvimento da personagem, não faltava nada... Mas nunca me senti dentro da narrativa, sempre me senti a pairar "por cima" dela e não fui capaz de romper esse distanciamento, o que me deixou muito triste, já que Patrícia Reis é uma das escritoras portuguesas que mais admiro. Como desta vez não funcionou, vou, como disse, tirar uma "licença sabática" e afastar-me... Acho que é a atitude mais adequada, pois não quero mais desilusões...
Poucos são os livros que me proporcionam uma total queda na história. Habitualmente os meus sentidos estão atentos a várias coisas, como o vocabulário, figuras de estilo, ritmo e encadeamento da narrativa, construção de personagens. Contudo, neste caso, alheei-me dessas observações. Bebi a história de Sofia em choque, aterrada e completamente envolvida nas poderosas descrições. Todas essas coisas que aprecio durante uma leitura foram de certa forma esquecidas aqui, não que não existam ou não mereçam o meu escrutínio (ao contrário), mas porque dei a tal queda (ou salto sem rede ou bungee jumping) em cheio na vida de Sofia, a menina-tesoura que me fez esquecer que estava a ler um livro. Vivi a história sem relativizar e sem questionar, aceitando a crueldade descrita e sofrendo (muito) com ela. Parando muitas vezes para respirar. A análise ficou para depois. Depois de fechar a última página, mas ainda com a voz de Sofia na cabeça. Senti-me tão atordoada pela história que tive de a viver de modo intenso. Demasiado intenso talvez, pois vi-me completamente enredada nas dores da personagem e, principalmente, na sua infância aterradora, que a condicionou à total descrença na sua própria felicidade. Como é viver com a certeza de não ser merecedora daquilo a que todos aspiram? É essa a dura viagem que este livro oferece. Meditando um pouco sobre tudo isto, dado que já li o livro há algum tempo, e esperando que este modo de “cair” não signifique um retrocesso no meu sentido crítico, e sabendo (tendo a certeza, vá) que a escrita da Patrícia Reis continua irrepreensível (acho que até melhorou), A Construção do Vazio só pode significar um outro patamar. Para a autora sem dúvida. Para mim, como leitora, de certeza. Uma experiência inesquecível. Talvez o meu livro preferido de Patrícia Reis. Uma chapada na cara (várias na verdade). http://planetamarcia.blogs.sapo.pt/a-...
“Quanto pesa a esperança. Que forma tem o futuro. Analisam-se estatísticas, denunciam-se armamentos, contrapõem-se directrizes internacionais, a necessidade de uma política externa coincidente com quem deixámos de ser: alinhados com quem nos parece mais forte, infelizes por não sermos nada, nós, portugueses, em tempos donos do mundo. De metade do mundo. Estamos encolhidos, a assumir de uma forma quase infantil a dimensão pequena do país, cada vez mais pequenos. Não somos capazes de muito.”
Somos resultado do nosso passado – de uma infância feliz, medíocre ou extrema. Cada um é o resultado da educação dos nossos progenitores, quer sejam felizes na sua união e no seu dia-a-dia quer sejam miseráveis. É esse passado que dá forma ao que somos actualmente. É suficiente para justificar atitudes prejudiciais ao decorrer do dia-a-dia? Há quem diga que sim, há quem diga que não. Com excepções à regra, de pessoas que nascem em ambientes rígidos e violentos e desbravam caminho por um futuro promissor, todas as hipóteses ficam em cima da mesa discussões filosóficas e, de outro modo, filosóficas. Depois há tantos outros que se deixam levar pela miséria do ambiente à sua volta: é esse o caso de Sofia, nesta Construção do Vazio. Os resultados estão à vista de qualquer curioso: basta abrir os comentários de qualquer artigo online de um jornal ou as redes sociais para ter acesso a um jorrar de ódio gratuito, de narrativas não desejadas e miseráveis – provenientes, na maioria, de um passado obscuro.
Como é que a violência molda o nosso carácter, é a questão que ressalta logo nas primeiras páginas deste novo livro de Patrícia Reis. Quando a normalidade do dia-a-dia de uma criança embate em todas as definições de abuso e violência – pelo simples estalo da mãe à mais pequena opinião lançada –, não há forma de escapar a uma vida melodramática. Com uma família abusadora a tomar conta de si, as decisões tomadas por Sofia em A Construção do Vazio (Dom Quixote, 2017) levam-na sempre para o limbo do desastre, com a esperança a desvanecer-se de ano para ano. As definições de violência ganham vida no casamento dos pais, em que a mãe, tão bela quanto submissa, decide fazer um aborto sem esconde-lo de Sofia («O meu irmão, ou a minha irmã, estava dentro da barriga da minha mãe e ela não o queria, como não me queria. Estava verdade não contribuiu para a economia emocional») e o pai, rígido e frio como resultado de uma carreira como militar, a abusar sexualmente de Sofia e a alimentar um ambiente de medo na sua própria casa, nos momentos me que estavam debaixo do mesmo tecto.
Sofia é, aparentemente, um caso sem salvação: em que as suas escolhas e comportamentos são questionáveis, mesmo perante os seus amigos, mesmo quando a “luz ao fundo do túnel” se torna quase impossível de ver. De tão actual, esta Construção do Vazio é recomendado a qualquer pessoa, de qualquer geração. Afinal, a violência está em qualquer lugar, mesmo nos mas improváveis. Quanto ao livro em si aponto um único defeito: em algumas partes, a história corre. Vai demasiado depressa, quando o leitor quer, a meu ver, explorar um pouco mais as personagens.
“As imagens de violência tornam-se banais. Não há memória de dias assim. Nas redes sociais servem-se frases chavão, aquelas que todos lemos e ignoramos. Multiplicam-se mensagens de amor. Outras de incentivo ao ódio. Guardo a minha preferida num magnético que coloquei no frigorífico. Diz: Não gostas onde estás? Mexe-te. Não és uma pedra.”
Não me lembro o que me levou a escolher este livro, mas decididamente foi um tiro ao lado. Quase me custa dar só uma estrela porque a leitura não é propriamente penosa, mas não clicou comigo, nem personagens nem o enredo. Não encontrei ponta por onde lhe pegar. A intenção era boa, conhecer novos autores portugueses, mas não foi com esta obra que Patrícia Reis me conquistou. Aparentemente estas personagens já tinham sido utilizadas num romance anterior, será que me escapou algo por causa disso?! Fica a questão, mas não a vontade de reler.
"A Construção do Vazio" é um livro difícil de ler. É um livro que, mais uma vez, devido à qualidade da escrita de Patrícia Reis, nos faz sentir muito próximos do que se está a contar e, quando o que se conta é doloroso, difícil e triste, a leitura pode ser, por vezes, incómoda.
Sofia é uma menina que cresce sem amor, numa família onde os abusos são constantes, tanto por parte do pai como da mãe. Cresce, por isso, com a certeza de que não merece ser amada, e de forma quase consciente, afasta tudo o que possa apaziguar a sua dor. Não acredita que algo de bom lhe possa estar reservado e acaba por se autossabotar, optando por caminhos que só validam a opinião que tem sobre si própria.
Até que ponto aquilo que nos acontece enquanto crescemos, nos limita na vida adulta? Temos consciência dessa limitações e do impacto que têm na nossa vida? Como é que ultrapassamos essas limitações?
"A Construção do Vazio" põe-nos a pensar, entre outras coisas, sobre estas questões. Sobre não julgarmos sem conhecer a história das pessoas e o seu percurso.
Não acredito que o passado sirva de justificação para todas as nossas atitudes no presente, no entanto, acredito que o que fazemos com o que nos acontece, a forma como lidamos com o que nos acontece, de bom e de mau, molda a nossa forma de ser, de viver, de pensar. Conhecer de onde vimos é fundamental para sabermos quem somos, para onde queremos ir e com quem queremos ir.
Patrícia Reis é uma autora que fazia parte da minha lista de autoras portuguesas que queria conhecer, por isso adquiri este livro, não sabendo que a personagem de A Construção do Vazio surgiu noutro livro da autora e faz parte de um universo ficcional já existente. Mas isto não me impediu de ficar apaixonada pela escrita da autora e de gostar da história, visto que é uma narrativa independente.
Receei pegar neste A Construção do Vazio como minha primeira leitura da escritora portuguesa Patrícia Reis, por saber da existência neste livro de personagens recorrentes na obra anterior da autora, dentro de um universo ficcional já existente. Ainda assim, quis arriscar porque já há algum tempo que ouço e leio coisas muito boas sobre a obra de Patrícia Reis da parte de pessoas cuja opinião prezo bastante.
A Construção do Vazio tem um início avassalador. Não só porque os acontecimentos relatados são terríveis, mas pela forma como Patrícia Reis os coloca em palavras, com uma brutal sensibilidade. Sofia, a menina filha de uma mãe de aparências e pouco amor, é vítima de abuso da parte do pai. Sem nunca cair na banalidade, a autora mostra-nos a forma inocente como esta criança aceita com relativa normalidade o que lhe acontece.
O resto do livro relata a construção da vida de Sofia sobre o vazio que o abuso deixou na sua vida. Por mais que tente, tudo o que vive e sente é influenciado por essas marcas indeléveis, que a transformaram numa mulher constantemente à procura de si e de um sentido para a sua vida. Amores, desamores, amizades… tudo é uma constante na vida de Sofia, cujos silêncios teimam em não ser preenchidos pela verdade.
Como já referi, o início deste livro impressionou-me bastante, mas tenho de confessar que o meu interesse se foi dispersando com o avançar da história. A leitura é relativamente rápida e as personagens e acontecimentos cobertos são bastantes, por isso fiquei com a sensação que poderia ter havido mais espaço para explorar quem eram aquelas pessoas e os relacionamentos entre elas. Não sei se ter lido os outros livros dentro deste universo ficcional teria ajudado, mas para ser muito sincera soube-me a pouco em termos de enredo. Quanto à escrita, essa achei irrepreensível e muito acima da média.
Em jeito de resumo, talvez tenha partido para A Construção do Vazio com as expectativas talvez demasiado elevadas. Não posso negar que é uma livro muito bem escrito, com um início muito forte, mas esperava algo mais a nível do enredo que lhe seguiu. Apesar disso, quero sem dúvida ler mais da autora – talvez não fosse má ideia pegar n’A Gramática do Medo, que Patrícia Reis escreveu a meias com Maria Manuel Viana, e que tenho em casa por ler 🙂
Grande livro, chocante e extremamente violento psicologicamente. Sobre a violência sexual e doméstica. Muito bem escrito. Uma obra a não perder para quem aguenta bem encarar o sofrimento e o vazio de certas vidas.
Neste título a autora explora o luto, a solidão e a busca de sentido para a vida . A protagonista mergulha na dor e na memória, enfrentando o vazio deixado pela perda. É um retrato íntimo da fragilidade humana e da tentativa de reconstrução interior.