Reunião, numa nova edição, das 58 crônicas consideradas como mais pessoais de Nelson Rodrigues, publicadas nos anos 60 e 70 do século passado, que versam acontecimentos e personagens que, com o autor, compartilharam a época de confronto, político e ideológico, no final dos anos 1960 e mesmo nos 1970.
Nelson Falcão Rodrigues (August 23, 1912 – December 21, 1980) was a Brazilian playwright, journalist and novelist. In 1943, he helped usher in a new era in Brazilian theater with his play Vestido de Noiva (The Wedding Dress), considered revolutionary for the complex exploration of its characters' psychology and its use of colloquial dialog. He went on to write many other seminal plays and today is widely regarded as Brazil's greatest playwright.
Nelson Rodrigues was born on August 23, 1912 in Recife, the capital of the Brazilian state of Pernambuco, to Mario Rodrigues, a journalist, and his wife, Maria Esther Falcão. In 1916, the family moved to Rio de Janeiro after Mario ran into trouble for criticizing a powerful local politician. In Rio, Mario rose through the ranks of one of the city's major newspaper and, in 1925, launched his own newspaper, a sensationalist daily. By fourteen Nelson was covering the police beat for his father; by fifteen he had dropped out of school; and by sixteen he was writing his own column. The family's economic situation improved steadily, allowing them to move from lower-middle class Zona Norte to what was then the exclusive neighborhood of Copacabana.
In less than two years the family's fortunes would be reversed spectacularly. In 1929, older brother Roberto, a talented graphic artist, was shot and killed at the newspaper offices by a society lady who objected to the salacious coverage of her divorce. Devastated by his son's death, Mario Rodrigues died a few months later of a stroke, and shortly after that the family newspaper was closed by military forces supporting the Revolution of 1930, which the newspaper had fiercely opposed in its editorials. The ensuing years were dark ones for the Rodrigues family, and Nelson and his brothers were forced to seek work at rival newspapers for low wages. To make matters worse, in 1934 Nelson was diagnosed with tuberculosis, a disease that plagued him, on an off, for the next ten years.
During this time Rodrigues held various jobs including comic strip editor, sports columnists and opera critic. In 1941, he wrote his first play A Mulher Sem Pecado (The Woman Without Sin), to mixed reviews. His following play, Vestido de Noiva (The Wedding Dress), was hailed as a watershed in Brazilian theater and is considered among his masterpieces. It began a fruitful collaboration with Polish émigré director Zbigniew Ziembinski, who is reported to have said on reading The Wedding Dress, "I am unaware of anything in world theater today that resembles this." In the play, set while the female chief character is hit by a car in the street and undergoes surgery, the stage is divided in three planes: one for real life action happening around the character, another for her memories, a third for her dying hallucinations. As the three planes overlap, actual reality melds with memory and delusion[1].
Rodrigues's next play, 1946 Álbum de família (Family Album)- the chronicle of a semi-mythical family living outside society and mired in incest, rape and murder - was so controversial that it was censored and only allowed to be staged 21 years later.
In all, Rodrigues wrote 17 full-length plays. They include Toda Nudez Será Castigada (All Nudity Shall Be Punished), Dorotéia, and Beijo no Asfalto (The Asphalt Kiss, or , better, The Kiss on Asphalt[2]), all considered classics of the Brazilian stage. His plays are frequently divided in three groups: Psychological, mythical and Carioca tragedies. In his Carioca tragedies Rodrigues explored the lives of Rio’s lower-middle class, a population never deemed worthy of the stage before Rodrigues. From the beginning his plays shocked audiences and attracted the attention of censors.
In spite of his success as a playwright, Rodrigues never dedicated himself exclusively to theater. In the 1950s, besides writing the hugely successful column A Vida Como Ela É (Life As It Is), he also wrote soap operas, movie scripts, a
Um livro cheio de personalidade! As crónicas de Nelson Rodrigues são tão bonitas… O autor revela-se e, talvez, o verbo correcto seja o «rebelar»] a cada crónica. Há crónicas doces, divertidas, críticas, fortes, intimistas, políticas, tristes…
Um grande escritor, sem dúvida; o mesmo que, de forma emblemática, deu um precioso conselho aos jovens: "Envelheçam!"
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«Como é antigo o passado recente.»
«Mas não importam os títulos do homem, nem suas funções. O entrevistado é sempre o mesmo, variando apenas de terno e de feitio de nariz. No mais, há uma semelhança espantosa. Nem importa o assunto. Seja batalha de confete, ou Hiroshima, um cano furado ou os Direitos do Homem. O que vale é o cinismo gigantesco. O sujeito não diz uma palavra do que pensa, ou sente. Ele se perfilava para falar, como se a sua palavra fosse o próprio Hino Nacional. Fiz outras entrevistas, centenas, dezenas de entrevistas. E todas me deixaram a mesma sensação de cinismo. No fim de alguns anos, eis a minha certeza definitiva, inapelável: — ninguém devia ser entrevistado, nem os santos. Até que, um dia, na crônica, ocorreu-me a idéia das “entrevistas imaginárias”. Aí estava a única maneira de arrancar do entrevistado as verdades que ele não diria ao padre, ao psicanalista, nem ao médium, depois de morto. »
Nelson Rodrigues foi um grandes cronistas brasileiros. Marcou época nos tempos em que a crônica era parte de qualquer jornal. Aqui, está uma seleta do que escreveu em O Globo, durante o ano de 1968. O que mais me espanta é sua capacidade de síntese. Em uma palavra ou em uma frase há uma síntese assombrosa. Pego ao acaso o livro para oferecer alguns exemplos: "Cada geração transmite à seguinte todas as suas frustrações e misérias"; "Quero crer que certas épocas são doentes mentais. Por exemplo: a nossa"; "Um nada pode mudar toda a história"; "ou o jovem é um Rimbaud ou uma besta". Há, ainda, as metáforas demolidoras ou os personagens caricaturais, caso do padre de passeata ou Palhares, o canalha. Por fim, ele pega no pé de amigos, conhecidos ou de figuras públicas. Às vezes até demonstra carinho, admiração e respeito por alguns. Por fim, recomendo para qualquer um a primeira crônica do livro - "O ex-covarde" -, que não é apenas uma expressão de convicções políticas. Parece-me algo mais profundo: quem quer escrever precisa sobretudo de coragem. Livraço.
“Nelson Rodrigues explica ontem o Brasil de hoje.”
Assim diz a capa do livro e, de fato, assim ocorre... Embora talvez não exatamente da forma pretendida.
Ler as crônicas de Nelson Rodrigues explica exatamente o que tornou o Brasil o que é hoje. Isto é: dar voz a homens medíocres e com complexo de superioridade é o que fez nosso país ser governado por tais criaturas (e que nos fez sofrer o martírio de conviver com tais criaturas).
Talvez não seja meu lugar atestar a mediocridade de Nelson Rodrigues. E, de fato, não posso assim chamar sua produção textual sabendo da importância de sua obra para o teatro e jornalismo brasileiro e, vá lá, até posso admirar algumas de suas frases de efeito. No entanto, me sinto totalmente no direito de chamar suas opiniões de medíocres — ou melhor, em sua grande maioria, infundadas.
Comecei a ler o livro com a mente aberta, sabendo que encontraria as opiniões de um apoiador da ditadura. Não imaginava que me depararia com tamanhos absurdos. Por exemplo, em determinada crônica, Rodrigues relata o caso de um Padre que foi torturado e morto pela ditadura militar... E usa isso para dizer que a esquerda quer semear o Brasil do ódio.
E não é esse um retrato perfeito da polarização direita x esquerda do Brasil atual? Nelson Rodrigues é um perfeito representante da direita brasileira — apoia o extremismo e acha que oposições ao extremismo é que são o problema... Até a bomba cair no próprio colo, é claro (Rodrigues teve o filho torturado durante o regime militar).
Isso sem falar no machismo explícito em um grande número de crônicas e o Jânio-Quadrismo de se preocupar com questões pequenas (como o uso de biquínis por mulheres) em meio a uma ditadura no país. Aliás, uma parte dos textos se assemelha à fala de um velho ranzinza reclamando sobre como “a juventude vai acabar com o país (com a moral, com os bons costumes, com a família...), e, de novo, esse comportamento não explica perfeitamente o que há de errado com o país?
No mais, concedo que, embora o conteúdo não seja a meu gosto, as crônicas são bem escritas e admiro alguns recursos estilísticos e até retóricos do autor.
Não me arrependo de ter lido, mas não necessariamente recomendaria a alguém.
NITROLEITURAS | A Cabra Vadia: Novas Confissões - Nelson Rodrigues | Ed. Companhia das Letras, 1995, 300 pgs | Lido de 22.12.15 a 23.12.15
Devorei esse livro de uma só vez, lendo uma crônica após outra do Nelson Rodrigues. Já conhecia a obra de um dos nossos maiores dramaturgos, mas nunca tinha lido suas fantásticas crônicas jornalísticas.
Cabra Vadia traz diversas crônicas onde o Nelson senta o cacete com opiniões muitas vezes contraditórias, mas sempre mirando a hipocrisia que o assolava, seja na chamada "esquerda festiva" do período quanto na tradicional sociedade carioca com suas madames e senhores. Concordando ou não com suas opiniões (eu acho as críticas que ele faz da superficialidade generalizante dos ditos "engajados" extremamente atuais, válidas até mais para os dias de hoje do que na época), o cara manda muito bem, nuca li crônicas tão saborosas e tão engraçadas.
Isso foi o que me chamou atenção, o senso de humor do Nelso é sensacional, o tom crítico e irônico das crônicas faz a gente ler uma atrás da outra. Adorei as "entrevistas imaginárias", principalmente as com o Dom Élder Câmara!
Vale muito pela visão crítica, mesmo que seu ponto de vista seja do conservador assumido (mas não o conservadoriso idiota, sem cultura e débil mental tão comum hoje em dia). Um conservadorismo elegante, chiquérrimo, culto pra caramba, com um senso de autocrítica violento também, sinto, pelas crônicas, que o Nelson era até mais duro consigo mesmo do que era com os alvos de suas críticas de lúcidez assombrosa. Um intelectual da moda antiga, daqueles que liam toneladas, e que sabiam sobre o que estavam falando.
Seleção de crônicas do autor que recebeu a alcunha de anjo pornográfico. Mas por quê tal nome?
Nelson Rodrigues foi um dos maiores dramaturgos brasileiros que igualmente se aventurava pelo jornalismo e pela política - em suas próprias palavras, ele deixou de ser um covarde.
Nessa compilação temos seus textos críticos voltados para tudo que ele julgava relevante. Impedido pelo governo de publicar suas histórias, Nelson avacalha com a Esquerda brasileira das décadas de 60 e 70, chamando a atenção para a irregularidade de seu apoio voltado apenas a partidários e para sua constituição de jovens ricos. Toda e qualquer semelhança com a crítica atual não é mera coincidência.
Outros desafetos, ou nem tanto, são chamados por nome em suas crônicas onde D. Helder é figura constante. Da mesma forma, Caetano, Tom Jobim, Érico Veríssimo e qualquer um cuja conduta indicasse hipocrisia ou canalhice, nomes e fatos são dados.
Quando terminei essa obra fiquei com a impressão que a crítica de fato não sabia o que fazer com ele...
Nelson era um capitalista que escrevia ferozmente contra o socialismo russo-cubano, mas aplaudia o socialismo sueco. Um pequeno burguês que se satisfazia dilacerando e expondo as entranhas da pequena burguesia. Um pernambucano radicado no Rio que passava seus dias criticando os paulistas que eram justamente seu maior público.
Genialidade do polêmico, irreverente e genial Nelson Rodrigues é inegável nesse livro. Em colunas de jornal ele escreveu textos que vou carregar para a vida toda. O livro não só oferece a possibilidade de entrar na mente do maior nome do teatro brasileiro, mas oferece uma maravilhosa viagem no tempo para o Rio de Janeiro (e o mundo) dos anos 60.
Aqui estão algumas das coisas mais divertidas e originais que já se escreveu em português. Entrevistas imaginárias, personagens caricatos e sacadas extraordinárias aplicadas nas suas principais argumentações dos anos 60.
Já havia lido algumas peças, agora conheci algumas crônicas. Muito boas de ler. Alguns tipos e expressões criadas por ele e presentes nas crônicas: o padre de passeata, a grã-fina das narinas de cadáver, o óbvio ululante, o idiota da objetividade.