O candidato à presidência da República e o famoso professor de Harvard juntam aqui esforços no sentido de criar uma alternativa institucional para o país. Este livro é fundamental para se compreender o pensamento e as propostas políticas de Ciro Gomes
Quais eram as propostas do Ciro Gomes em 1996, quando ele lançou esse livro? Basicamente as mesmas de 2016:
1) Reforma tributária para transferir a incidência de impostos da produção para o consumo. Assim você cria (segundo ele) uma cultura de poupança no setor público e privado; 2) Mudar as relações entre governos e empresas (na base do famoso "Autonomia e Parceria" do Peter Evans - ele inclusive cita o Peter Evans); 3) Reforma na Educação - um pouco vago, mas algo relacionado com a valorização do professor e mudança no currículo; 4) Abertura comercial (sem submissão); 5) Valorização do salário mínimo - a única coisa que ele viu acontecer nos governos PT e, por coincidência, a maior conquista do Brasil nos últimos anos.
Enfim, o livro é um plano de governo travestido de ciência. Muito bom.
Escrito por Ciro Gomes, político brasileiro de longa data, e o cientista político Roberto Mangabeira Unger, único estrangeiro professor titular de uma cadeira em Harvard, o livro de 1996 continua muito atual. A premissa básica de "O Próximo Passo" era traçar as linhas gerais de um projeto político-econômico para o Brasil que viesse a desafiar o grande consenso tecnocrático que se formava em torno do neoliberalismo, durante muito tempo defendido e difundido pelas instituições de Bretton Woods, especialmente o Banco Mundial e o FMI, como a fórmula definitiva de desenvolvimento nacional. Já à época, Ciro e Mangabeira se posicionavam em forte oposição ao "consenso de Washington", indicando sua incapacidade de solucionar os problemas dos países subdesenvolvidos, em especial o Brasil, em sua desigualdade social desumana e seu conflito distributivo altamente acirrado. Mais recentemente, os próprios relatórios do FMI admitiram o fracasso das políticas neoliberais, reconhecendo que elas proporcionaram o alargamento da distância entre os super-ricos e os miseráveis. Em termos técnicos, a leitura é relativamente densa. Entretanto, os autores conseguem abordar as diversas etapas de uma diferente abordagem de economia política para o Brasil, que pudessem nos conduzir ao fim do "dualismo", como eles próprios se referem ao abismo da desigualdade brasileira, ao mesmo tempo que alçassem o país em trilhos verdadeiramente democratizantes, enfrentando os desafios e antecipando os inúmeros conflitos que certamente se seguiriam. Ciro muito provavelmente será candidato à presidência da república em 2018 e, muitas das ideias defendidas por ele hoje, constam no livro de mais de duas décadas atrás. Uma série de setores da esquerda brasileira olham com desconfiança para a candidatura de Ciro, muitas vezes o acusando de não pertencer ao campo progressista, outras tantas apontando as contradições de seu discurso, que admite, por exemplo, a importância de setores como o agronegócio para a balança comercial do país. "O Próximo Passo", porém, deveria ser utilizado com mais ênfase pela equipe de Ciro e pelo próprio para se defender das acusações muitas vezes infundadas que recebe. Enfrentamento das desigualdades, o reconhecimento do papel indispensável do Estado no direcionamento do projeto de desenvolvimento nacional e de enfrentamento dos conflitos distributivos, democratização dos meios de comunicação, pesados investimentos em educação e qualificação profissional são apenas algumas das várias pautas historicamente associadas à esquerda não apenas mencionadas, mas defendidas e desenvolvidas no livro. Mesmo questões outrora renegadas e agora em voga, como o racismo e o machismo intrínsecos à sociedade brasileira, são abordados no livro de 1996. Enfim, "O Próximo Passo" é o rabisco inicial de um projeto de desenvolvimento para o Brasil, que tanto precisa de um, e agora, mais de duas décadas depois, tem a oportunidade de testá-lo na prática.