Há um padeiro desterrado em Timor no início da ditadura militar. E dois filhos apanhados ainda pequenos pela II Grande Guerra, resgatados por australianos e recolhidos pela Casa Pia de Lisboa. Há um serrador que cumpriu ordem para combater em Moçambique. E um operário que desertou e fugiu para França. E há uma encruzilhada de outras vidas que as circunstâncias empurram para dentro ou para fora do país. São ecos dos últimos cem anos de migrações portuguesas.
Ana Cristina Pereira é repórter do Público desde 1999. Fez reportagem sobre tráfico de órgãos humanos em Moçambique, prostituição infantil na África do Sul, lutas políticas na Venezuela, crise migratória em Lampedusa, movimento Occupy Central em Hong Kong, refugiados da República Centro-Africana nos Camarões e outros temas internacionais, mas é em Portugal que costuma trabalhar. Dedica-se sobretudo a assuntos de direitos humanos e exclusão social. É autora dos livros Meninos de Ninguém (2009), Viagens Brancas (2011), Movimento Perpétuo (2016) e coautora dos livros Desafios – Direitos das Mulheres na Guiné-Bissau (2012), Todas as Vozes/All the Voices (2014) e Mulheres de São Tomé e Príncipe (2018). O teatro-documental é outra forma que encontrou de dar voz aos grupos silenciados. Escreveu as peças Onde o Frio se Demora (2016) e Agora é Diferente (2019).
Um livro pequeno mas provido de grandes histórias. Histórias de muitos, que por motivos de sobrevivência, foram forçados a sair do país que os viu nascer. Histórias de outros tantos que por ambicionarem mais e melhores oportunidades , viram como única opção rumar a outros países. Cada uma destas histórias me comoveu e me fez pensar naquilo a que (caso acreditemos), chamamos de "destino". Pessoas que não se conformam com a sua "sorte" (outro conceito que dá muito o que pensar) e por isso lutam por um lugar (já que o emigrante não se deve sentir nunca "100% de lá", mas também "já não totalmente de cá"); pessoas que pela sua ambivalência geográfica e acredito, sentimental; pela sua coragem, têm o meu respeito. Uma leitura que aconselho a todos os que como eu, se sensibizem com este tema (até porque as saudades apertam).