A Roménia, sob o jugo do ditador Nicolae Ceausescu, atravessa um dos piores períodos da sua história, com a população a enfrentar a fome e dominada pelo terror. Seguindo as orientações do Presidente para a criação de um exército do povo no qual os soldados seriam treinados desde crianças, Paul, um ambicioso funcionário do partido, decide levar de casa o filho de três anos e entregá-lo aos cuidados do Estado. Quando a mãe se apercebe do desaparecimento do pequeno Drago, o desespero já não a abandonará, bem como o firme desejo de acabar com a vida do marido. Correndo riscos tremendos, Nadia não desistirá, porém, de procurar o menino, ainda que para isso tenha de forjar uma nova identidade, de fazer falsas denúncias, de correr os orfanatos cujas imagens terríveis chocaram o mundo e até de integrar uma rede que transporta clandestinamente crianças romenas seropositivas para o Ocidente. Mas será que o seu sofrimento pode ser apaziguado enquanto Paul for vivo? Enquanto o ditador for vivo?
ANA CRISTINA SILVA nasceu em Vila Franca de Xira, a 11 de Novembro de 1964. Professora no ISPA [Instituto Superior de Psicologia Aplicada] desde 1992, concluiu o doutoramento em Psicologia, na Especialidade de Psicologia da Educação pela Universidade do Minho em 2001, desenvolvendo investigação neste domínio. Tem artigos científicos publicados em revistas e obras colectivas portuguesas e estrangeiras. A sua estreia literária ocorreu em 2002 com a publicação do romance Mariana, Todas as Cartas. Em 2012, o seu romance Cartas Vermelhas foi seleccionado para a short list do Prémio Fernando Namora, facto que se repetiu em 2013, com a obra O Rei do Monte Brasil.
Livro que retrata o medo e a coragem, o frio do corpo e o frio deixado pelos buracos na alma, aqueles com que se sobrevive apesar de tudo, apesar da sua fundura e do esqueleto ambulante em que alguém se torna quando a sua perda é maior do que a capacidade humana. E, ainda assim, um livro sobre a sobrevivência e a capacidade de se reconstruir. Em muitos momentos poético, um livro que se entranha em nós.
Uma grande surpresa. Nunca tinha lido nada da autora apesar de a seguir na sua intervenção cidadã, nomeadamente nas redes sociais. Esta é uma história de amor, dor e vingança numa sociedade ditatorial em fim de vida. Uma escorreita leitura de uma história que provoca alguns nós na garganta.
É ao encontro duma Roménia imune aos ventos da Perestroika que Ana Cristina Silva nos leva no seu livro “A Noite não é Eterna”. Nadia, uma jovem mulher, vem de perder o filho em circunstâncias particularmente dramáticas e obstina-se na sua sede de vingança, tendo como alvo o próprio marido, Paul. Do descontrolo inicial à racionalidade dos momentos seguintes, a mulher vê-se dividida entre a raiva e a impotência, tendo como pano de fundo o regime sanguinário e totalitarista do ditador Nicolae Ceauşescu.
“A Noite não é Eterna” é um romance negro, tanto na sua aproximação literária ao sub-género do suspense, como nas emoções que o percorrem, pontuadas pela dor e pelo luto. Personificando em Nadia o vazio de todos quantos se viram despojados daquilo que tinham de mais íntimo e querido, Ana Cristina Silva leva mais longe o romance, ampliando essa sensação de angústia e sofrimento ao enumerar as arbitrariedades dum regime cujas elites tinham acesso a bens importados e viviam em edifícios de grande ostentação e onde a população sobrevivia em miséria evidente e as crianças eram abandonadas à sua sorte em orfanatos, antecâmaras de doença e morte.
Desta abordagem da situação social e política da Roménia da era Ceauşescu, retira o livro uma das suas maiores forças. O lado documental, porém, é claramente secundário num romance que se foca quase por inteiro na mulher e em cuja figura a escritora refina laboriosamente o arquétipo da “mãe-coragem”, capaz de levar os seus propósitos até às últimas consequências. Para tanto, Nadia aceita correr os mais terríveis riscos, enquanto na sua boca se repete até à exaustão a palavra “filho”. E contudo...
Não querendo desvendar a trama – sobretudo porque penso que este livro merece ser lido -, diria apenas que gostaria de ver certas ideias desenvolvidas de forma mais consistente. Que preferiria perceber na íntegra o percurso de personagens deveras importantes em determinados momentos da acção e que acabam por desaparecer sem deixar rasto. E que gostaria de entender melhor as motivações de Nadia ao travestir-se duma certa moralidade, recuando a memórias do tempo da infância e dispondo-se a perdoar o imperdoável.
Livro muito interessante que tem como fundo a ditadura na Roménia já no seu final. Esta não é uma estória bonita, é uma estória pesada e triste, que apesar de ser ficção, pode muito bem ter sido a realidade de milhares de pessoas que viveram este período negro da história. A autora consegue transmitir bem o desespero e miséria da protagonista Nádia através de uma escrita crua e mordaz, uma estória de miséria e busca de vingança num país sem futuro e numa sociedade opressiva. Gostei muito e quero descobrir mais romances desta autora.
Mais uma grande escritora portuguesa, que nos traz uma história sobre a Roménia e o grande sofrimento de quem vivia da altura de Ceausescu. A não perder.
Um livro pequeno, mas que nos leva numa viagem pelo lado negro do ser humano. Na Roménia de Ceausescu, Nadia vive uma existência banal ao lado de Paul, um ambicioso funcionário do partido. Quando o ditador decide criar um exército, onde as crianças seriam treinadas desde novas, Paul não hesita e entrega o filho a esta causa, sem o consentimento de Nadia. Desesperada por encontrar o filho, Nadia vasculha os vários orfanatos da região, onde encontra instalações sem condições e crianças famintas, de comida e carinho. Quando começa a pensar que está perante uma causa perdida, a esperança surge pelas mãos de um inspetor da polícia secreta – mas o preço a pagar é a traição.
Ana Cristina Silva ilustra, com uma escrita clara e muita fluida, o dia-a-dia de terror na ditadura de Ceausescu – o medo, a corrupção, a desconfiança de todos, numa existência em que a escassez de bens essenciais e o desprezo pela vida humana são a norma. A autora guia-nos, com mestria, pela alma dos vários personagens (algumas, muito “podres”) e é difícil sentirmo-nos indiferentes perante as ações que nos são apresentadas. Ao ler este livro senti revolta, nojo, vontade de esbofetear alguém, mas também esperança. É disto que gosto num bom livro – que “mexa” comigo, que me emocione, que me envolva no enredo. E tudo isto com pouquíssimo diálogo, o que é difícil de fazer!
Gostaria que o livro fosse mais comprido, que o final fosse “desembrulhado” com mais vagar. Mas a minha opinião continua a ser 5 estrelas!
Ana Cristina Silva deu corpo à repressão imposta pelo regime de Ceausescu, uma noite quase eterna a que condenou a Roménia enquanto permaneceu no poder.
Nas páginas deste romance respira-se de forma palpável a falta de esperança, o medo permanente do vizinho que pode ser um informador e do colega vigilante de uma palavra que se solte de forma imprudente. Somos condenados a um monólogo que, por receio, se transforma num sussurro interior.