La historia de esta banda de músicos que ensayan desde hace 30 años en el sótano de una sastrería y que nunca han actuado en directo constituye una invitación para entrar en un mundo irreal, pero que tantas semejanzas guarda con nuestro mundo cotidiano. Los destinos cruzados de varios personajes nos ofrecen una visión de la geografía de esta ciudad cuyas calles tienen nombres de una sonoridad que evoca la Europa del Este y en la que existen todo tipo de profesiones inverosímiles (dentadores de sellos, coleccionistas de turnos de espera, redactores de notas de suicidio...), personajes que sufren de “irrealidad crónica” o que quieren soñar los sueños de otros. Éste es el segundo y último volumen de la serie más premiada de la historieta portuguesa. Recopila La gran enciclopedia del conocimiento obsoleto, El depósito de residuos postales y Los Archivos de lo Prodigioso y lo Paranormal. El primer tomo de La peor banda del mundo (Astiberri, 2013) incluye los títulos El quiosco de la utopía, Museo Nacional de lo Accesorio y de lo Irrelevante y Las ruinas de Babel.
José Carlos Fernandes was born in 1964 at Loulé, Southern Portugal. He has no artistic training (he has a degree in environmental engineering, which is not of great help in this area) and started drawing when he was already 25. Before that his memories are kind of fuzzy, the fragments of his pre-comics life including things as weird as teaching botanics at the university and being a researcher in estuarine heavy metal contamination. The heavy metal studies weren't a complete waste of time, since he later applied some of the knowledge in his 6 or 7 years as a drummer in obscure garage bands. Except for some rip-offs from Ray Bradbury and Gabriel García Márquez, in the beginning of his career, and two collaborations with the scriptwriters João Miguel Lameiras and João Ramalho Santos, the stories of his comics come out of his twisted mind (prolonged exposure to toxic metals may be responsible for this). The series A Pior Banda do Mundo (The Worst Band in the World), with six volumes issued until now, is his best known work and is translated in French, Spanish, Polish and Basque. Some Portuguese would like to have it translated in Portuguese, because they complain that the author resorts systematically to antediluvian vocabulary, intricate syntax, and a Gongoresque tone. The series Black Box Stories and Terra Incognita and O que está escrito nas estrelas (What is written in the stars) combine the texts of JCF with the artwork of Luís Henriques, Roberto Gomes and Manuel García Iglesias. JCF wrote more than one hundred stories for Black Box Stories and Terra Incognita, therefore the artists will be busy during the next decades.
«A Pior Banda do Mundo» é um agregado em dois volumes de narrativas curtas com um par de páginas cada. Parece fragmentário e avulso - e é - mas condensa-se também num universo próprio que compõe um todo de particular sentido, pejada de surpresas alojadas em detalhes entregues vastos segmentos adiante, à boa maneira que os pós-modernistas de grandes tomos tão bem nos habituaram. Se fosse estrangeiro ou da dupla que é o eucalipto referencial para todos os entusiastas de novelas gráficas que em toda a sua vida leram menos de meia dúzia de títulos, recém deslumbrados prontinhos para, da incomensurável altura da sua ignorância, destratar obras-primas por coisas como «não gostei dos desenhos» ou «não concordo que seja assim actua uma pessoa naquela circunstância» [estou a reinar, estes iluminados escrevem «atua», que em vez de agira parece só a referência a coisa alheia], se fosse algo naquelas condições, dizia, seria a oitava a maravilha. Assim, afianço eu que vale muito a pena. É, aliás, o rasgo de genialidade que eu não me importaria nadinha de ter criado. [Mas ainda bem que não o fiz, pois a jactância de um tal feito entumescer-me-ia o ego de tal forma que deixaria de caber entre as aduelas das portas, e já bem me basta o alargamento emergente das gorduras pós-pandémicas.] . Uma última nota para a inaceitável lacuna spotifyniana que é continuarem por criar listas de reprodução com os temas elencados em cada capítulo.
O segundo volume da “Pior banda do mundo” é igualmente hilariante. As personagens, cada uma mais insólita que a outra, têm os hobbies mais absurdos ou vêem-se enredadas nas histórias mais mirabolantes! Tudo numa BD de traço rigoroso, de forma despretensiosa mas pontuada de referências musicais, artísticas e literárias que torna a leitura deliciosa!
Coup-de-foudre. Esta obra (o conjunto dos 2 volumes, claro) é magnífica. Tudo é muito bom, a arte, os textos, mas sobretudo o próprio universo que a BD cria, um mundo no qual mergulhamos e que é de uma coerência admirável. Admito que a princípio se possa estranhar um pouco, é de facto um mundo diferente, parecido com o nosso mas ligeiramente distorcido. Mas aos pouco, e à medida que vamos entrando e tornando-nos familiares com esse universo, a coisa torna-se quase hipnótica, lemos cada nova pequena história, por vezes mesmo cada tira ou cada desenho, com um misto de surpresa e reconhecimento, como se já nada nos surpreendesse mas de facto tudo nos surpreende.
A grande protagonista de A Pior Banda do Mundo é a própria cidade onde se desencadeiam os acontecimentos, e que permanece sempre inominável. Mas se a cidade não tem nome, tudo o resto tem, e os nomes são a primeira coisa fundamental nesta BD. Os nomes das ruas, das lojas, das fábricas, das instituições, dos museus, dos ministérios. E dos seus habitantes, sempre nomes estranhos mas vagamente familiares, que protagonizam aventuras que quase sempre não acontecem, que têm eles próprios universos interiores que perseguem de forma obsessiva e insana mas tão tranquila que chega a ser um bocadinho perturbante.
Cada livro, e são seis, reunidos em dois volumes de capas duras, é composto por mais de duas dezenas de pequenas histórias divididas em duas páginas, com títulos que são verdadeiros programas. O tom é culto, nalguns pontos mesmo erudito, mas ao mesmo tempo de uma simplicidade quotidiana. O tom é de absurdo, por vezes delirante, quase sempre rasgado de melancolia, e que funciona como um comentário, umas vezes mais sarcástico outras apenas irónico, aos nossos tiques civilizacionais, às nossas manias sociais e ao nossos hábitos culturais, à nossa maneira de viver e ao modo como vivemos, todos nós de facto, vidas em que o absurdo está presente de maneira tão dominante quanto subtil.
Cada livro tem uma banda sonora (que são os samples dos temas tocados pela Pior Banda do Mundo), e para além dos nomes, há personagens que vão aparecendo de forma recorrente e que se parecem espantosamente com pessoas do nosso mundo. O diretor do museu do irrisório e do irrelevante por vezes parece-se com Jorge Luís Borges. Há um homem, com uma barba freudiana, que de vez em quando aparece a despertar de um estranho sonho no qual o mundo era governado por um idiota. E os exemplos não parariam, de tal modo esta BD tem aspectos irresistíveis.
Cuando crees que las cosas no pueden ir más lejos el autor se saca de la manga otro concepto que es capaz de arrancarte una risa y volarte la cabeza, a la vez. Imprescindible.