"Chamam ao vinho do Porto sol engarrafado. Fazer um astro com as mãos é tarefa de gigantes". Vindima de Sangue (1953) encerra a vasta trilogia Port Wine dedicada ao Douro. Horizonte Cerrado (1949), Prémio Ricardo Malheiros da Academia de Ciências de Lisboa, e Os Homens e as Sombras (1951) constituem o primeiro e segundo volumes desta saga trágica sobre todos os aspetos da sociedade duriense no período entre 1907 e 1915, dos finais da monarquia a meados da República. Obra monumental que termina com o relato verífico do massacre da população vinhateira em Lamego. A trilogia debruça-se sobre a dureza do quotidiano rural de uma família de pequenos viticultores apelidada de “Teimas” por se recusar, apesar das adversidades, a abandonar as suas terras. No centro da ação, uma intensa história de amor e adultério liga Francisco, o filho da família, à cunhada Gracinda. Ao nível do melhor Redol, esta obra de referência alia, de forma inovadora, qualidade literária e rigor antropológico e etnográfico.
Cedo começou a trabalhar dada a natureza modesta da sua família. Parte para Angola, aos 16 anos, procurando melhores condições de vida, regressando a Portugal três anos depois. Junta-se ao Movimento de Unidade Democrática (MUD), que se opunha ao regime do Estado Novo, e filia-se no Partido Comunista, escrevendo artigos no jornal O Diabo.
Introduziu o neo-realismo em Portugal com o romance Gaibéus (1939), nome dado aos camponeses da Beira que iam fazer a ceifa do arroz ao Ribatejo, em meados do século XX. Daí em diante sua obra revela uma grande preocupação social, velada ainda assim, dada a censura e à perseguição política movida pelo regime de Salazar aos oposicionistas, e mormente aos simpatizantes do PCP, como era o caso. Chegou mesmo a sofrer prisão política tendo sido torturado.
Seu último romance, Barranco de Cegos, de 1962, é considerado sua obra-prima e afirma sua nova fase, em que a intervenção política e social é posta em segundo plano, dando lugar a um centramento nas personagens e na sua evolução psicológica, de cariz existencial.