No dia 26 de março de 1487, o Sol apaga-se subitamente no reino de Portugal. Sem explicação para tão súbitas trevas – que uns atribuem à maldade castelhana e outros à heresia dos judeus –, D. João II envia dois espiões em demanda da solução que restitua a luz ao País e evite o seu definhamento. Com Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva irá também, guardado num estojo, um par de olhos de diamante que outrora pertenceram a um menino chamado Mil-Sóis, cujo olhar cegava quem o encarasse, e que são a peça fundamental desta missão.
Enquanto Pêro da Covilhã narra o seu périplo de Lisboa à Etiópia, das Índias ao reino do Monomotapa, de Meca a Sofala, quase sempre disfarçado de mouro e constantemente perdido em bordéis, Salvador – um embalsamador albino com um estranho passado – ficará de guarda à mulher do espião, por quem nutre há muito um amor secreto, e não cessará de procurar os olhos que possam devolver a luz ao seu irmão Mil-Sóis.
O Dia em que o Sol Se Apagou, finalista do Prémio LeYa em 2014, é uma obra fascinante que inventa um cataclismo improvável para reescrever o período áureo da História de Portugal. Um romance de luz e sombra, de avanços e recuos, que cruza fantasia com rigor histórico. E que, no final, responderá a duas questões essenciais: irá o Sol regressar a Portugal? É a Europa o lugar certo para que Portugal continue a existir?
Autor de: "Zalatune" (Manuscrito, 2021) "O Homem Domesticado" (Casa das Letras, 2017) "O Dia em Que o Sol Se Apagou" (Casa das Letras, 2015): finalista do Prémio Leya "O Soldado Sabino" (Visgarolho Editora, 2023 e Bloco Editora, 2012).
Obras traduzidas para francês: "La Domestication" (iXe, 2022, tradução de Clara Domingues). "Sabino, ou les tribulations d’un soldat portugais dans la Grande Guerre" (Éditions Petra, 2018, tradução de Dominique Stoenesco).
Nuno Gomes Garcia nasceu em Matosinhos em 1978. Estudou História e Arqueologia nas Faculdades de Letras do Porto e de Lisboa, centrando-se na História Medieval, do Renascimento e da Expansão Europeia. Arqueólogo durante doze anos, especialista em Arqueologia Urbana, dedica-se atualmente à escrita de ficção, à consulta editorial e à divulgação da literatura lusófona na rádio e na imprensa escrita. É cofundador do projeto coletivo "Mapas do Confinamento". Em 2022, foi laureado com a bolsa de criação literária e a Residência literária Jean Monnet atribuídas no âmbito do LEC - Littératures Européennes Cognac. Vive em Paris.
Nuno Gomes Garcia oferece-nos uma obra de grande profundidade e sensibilidade, aliando o questionamento histórico ao questionamento existencial dos seus personagens, o que a torna algo de universal e intemporal. O autor é generoso com os seus leitores e, sendo ele um perito do efeito surpresa, o enredo é dinâmico da primeira à última linha do livro, tornando-se a sua leitura num imparável “virar de página”; um page-turner, portanto. A sua escrita é livre, sem tabus – o que fará corar esta ou aquela alma mais pudica – mas fá-lo com um imenso respeito pelos seus personagens, que ele acarinha enquanto os descreve sem concessões, conseguindo captar o lado mais obscuro das suas psychés. O apreço pelos personagens denota-se igualmente na intensidade com que apresenta esses “seres” dotados de grande força de caráter e de impulso de vida, assim como de vontade de decidir o seu próprio destino, lutas internas com as quais o leitor se identifica de maneira emocionante. Estamos diante de uma escrita moderna, mas com um conteúdo maduro, onde Nuno Gomes Garcia confirma o seu estilo, inaugurado no seu excelente primeiro romance «O Soldado Sabino». O autor revela uma música própria na sua escrita feita de segundo grau, de um humor que lhe é próprio e, ao mesmo tempo, de gravidade e de tragicidade. Nuno Gomes Garcia tem uma formação de historiador, e isso sente-se no rigor e na mestria com que «brinca» com a História, isto para além dos verdadeiros questionamentos que deixa antever nas entrelinhas: como o lugar de Portugal na Europa (ou fora dela?); e a própria existência do país, simbolizada pela busca da luz como condição de possibilidade de vida. Nuno Gomes Garcia ocupa-se igualmente de problemáticas universais, próprias das grandes obras, tais como a mortalidade, o amor, a culpa, o desejo, a diferença ou a vingança que conferem a esta obra uma densidade particular e que nos fazem refletir muito para além da sua leitura. Nuno Gomes Garcia faz parte de uma nova geração de autores, símbolo de uma literatura portuguesa pós-Saramago, que assume e reivindica a herança, mas que incorpora na sua escrita uma modernidade tanto na estrutura narrativa como na originalidade das temáticas, utilizando, no seu caso, o passado para inquirir de forma original sobre o futuro. Nuno Gomes Garcia consegue, assim, o desafio de nos oferecer uma obra de grande qualidade, com uma escrita profunda e genuína, longe dos livros descartáveis que pululam nas estantes das livrarias e dos supermercados. A cultura sólida e o imaginário desbordante deste jovem autor fazem antever e ansiar por novas criações, confirmando-se aqui um nome com o qual a literatura lusófona poderá contar nas próximas décadas.
“O Dia em Que o Sol Se Apagou” recordou-me que os livros se devem apreciar devagar. Que a leitura lenta é um prazer. Que a releitura de algumas passagens é uma nova descoberta. De tudo isto me tinha esquecido há anos, deixando-me pressionar pelo interesse nos livros por ler, deixando-me levar pelo desejo de saber o final, querendo simplesmente ler rápida e sofregamente, para ler sempre mais e mais livros. Possivelmente é chegada a hora de deixar de coleccionar leituras. É talvez a hora de aprender realmente a ler. Como quando se aprende a apreciar vinho, e se percebe, com o tempo, o que se ganha em esperar. Como um bom vinho, este Sol que Se Apaga, tem o seu tempo de degustação. Degustei o primeiro capítulo várias vezes. E a habilidade da escrita permitiu-me lê-lo de várias formas diferentes, conforme avançava na leitura. Desde a primeira vez, achando que não fazia sentido, a segunda tendo claramente encontrado um erro cronológico grave, e tantas vezes lá voltei para confirmar, certificar, apurar, e concluir que tudo bate certo, não há erros, há sim um romance desafiador, construído de forma brilhante, e que, para minha sorte, tem algumas das coisas que eu mais gosto num livro: História, viagens, muito mistério e alguma fantasia. Esta última, na verdade, não sabia que gostava. Possivelmente, neste caso, gostei por ser dada em doses controladas e cuidadas, quase parecendo realidade. O poder de um livro pode medir-se pela forma como o impossível, ou pouco provável, é um dado adquirido de realidade para quem lê. Como um menino a quem roubaram os olhos existir, depois de ter cegado gente com o brilho do olhar. Este é um romance que se apoia em factos históricos de forma rigorosa, revelando um cuidado na linguagem, adequada à época. Viajei com Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva descobrindo locais exóticos onde o prazer nunca é excessivo, mas ao mesmo tempo fiquei num Portugal tacanho e sombrio, país de alma doente e fechada. Uma narrativa que, ao mesmo tempo que segue a linha esperada, se desvia do que é espectável, em saltos de espaço e tempo, obrigando a uma atenção, a uma participação activa para seguir os acontecimentos. Parece algo complexo e difícil. Mas não. É fácil. Torna-se um projecto, uma vontade, um tem de ser porque se lê com tanto gosto. Um prazer desafiante, muito mais profundo do que parece à partida, e com uma actualidade surpreendente. Um livro que, estou certa, ninguém lerá da mesma forma. Por permitir criar tantos cenários de possibilidade, por oferecer várias interpretações, por não se esgotar. Excelente. Recomendo sem reservas. “- O mundo apequena-se a cada expiração que damos ou a cada passo que percorremos – expliquei-lhe. – E novas terras são descobertas todos os dias.” (Pág. 225). Sinopse “No dia 26 de março de 1487 o sol apaga-se subitamente no reino de Portugal. Sem explicação para tão súbitas trevas - que uns atribuem à maldade castelhana e outros à heresia dos judeus -, D. João II envia dois espiões em demanda da solução que restitua a luz ao País e evite o seu definhamento. Com Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva irá também, guardado num estojo, um par de olhos de diamante que outrora pertenceram a um menino chamado Mil-Sóis, cujo olhar cegava quem o encarasse, e que são a peça fundamental desta missão. Enquanto Pêro da Covilhã narra o seu périplo de Lisboa à Etiópia, das Índias ao reino do Monomotapa, de Meca a Sofala, quase sempre disfarçado de mouro e constantemente perdido em bordéis, Salvador - um embalsamador albino com um estranho passado - ficará de guarda à mulher do espião, por quem nutre há muito um amor secreto, e não cessará de procurar os olhos que possam devolver a luz ao seu irmão Mil-Sóis. É uma obra fascinante que inventa um cataclismo improvável para reescrever o período áureo da História de Portugal. Um romance de luz e sombra, de avanços e recuos, que cruza fantasia com rigor histórico. E que, no final, responderá a duas questões essenciais: irá o Sol regressar a Portugal? É a Europa o lugar certo para que Portugal continue a existir?” Casa das Letras, 2015
Este livro foi uma óptima surpresa, Nuno Gomes Garcia é um autor que manterei debaixo de olho. A história deste livro é contada a "duas mãos", saltando para trás e para a frente no tempo, o que eu julgo ter sido muito bem conseguido. Os personagens são muito ricos, ficam-nos na cabeça e as páginas deste livro têm muito ritmo e acção. Uma leitura que nos prende, a partir de certa altura é muito difícil parar. Embora a história tenha muito do chamado realismo mágico (Portugal, a partir de um certo dia, fica completamente às escuras, com todas as catástrofes que daí advém), a sua impossibilidade não retira nunca o prazer da leitura e por baixo dela, podemos intuir muitas outras coisas. Um livro que recomendo sem hesitações.
Um livro que se lê bem, de aventuras, seguindo Pêro da Covilhã pela África e pelas Índias, à procura do reino do Preste João. Tem igualmente uma forte componente de fantasia, já que, a 26 de Março de 1487, o sol apaga-se subitamente no reino de Portugal. É isso mesmo! O nosso país, tão conhecido pelo sol, fica sem ele. E D. João II envia dois espiões em demanda da solução que restitua a luz ao país.
Paralelamente, temos a história de Salvador, um embalsamador albino com um estranho passado, que procura também uma luz, ou melhor, procura olhos que possam devolver a luz ao seu irmão Mil-Sóis.
O cruzamento de fantasia com rigor histórico levanta, contudo, alguns problemas. Há certas coisas que me soaram anacrónicas, coisas que acho que não se podem relegar para o plano do fantástico. Temos, por exemplo, o nascimento de Mil-Sóis com uns olhos tão brilhantes, que cegam quem os vê. Apelidam-no de “criança com olhos de diamante”. Ora, Mil-Sóis nasce no seio de uma comunidade de gente ignorante isolada nas montanhas. Saberia gente dessa, no final da Idade Média, o que eram diamantes? Duvido muito. Embora na Índia os diamantes já fossem conhecidos há dois ou três mil anos, eles eram raríssimos e, na Europa, só se tornam mais frequentes a partir do século XVIII. Imperadores, reis e nobres já conheciam os diamantes na Idade Média, mas duvido que o povo comum alguma vez tivesse ouvido falar de tal, ou, nesse caso, fizesse ideia do que se tratava.
Cito agora uma passagem da página 181, referente à Índia: «À sua passagem, as castas inferiores inclinavam-se respeitosamente ou, então, atiravam bosta de vaca sagrada para debaixo dos pés desses homens superiores. Nas Índias, pavimentava-se com merda os caminhos que os reis ou os nobres percorriam para assim homenagear o seu poder. As vacas eram, em boa verdade, mais bem tratadas e alimentadas que os sem-dita que pertenciam às castas menores. Além de maltratada e desprezada, a ralé não tinha qualquer esperança de fugir à sua triste condição, estando a sua linhagem condenada a permanecer naquela ignomínia».
Ora bem, que Pêro da Covilhã se admire de que nas Índias se pavimentasse «com merda os caminhos que os reis ou os nobres percorriam», tudo bem. Já o seu julgamento em relação às castas me parece mais de homem do século XX ou XXI. A Europa cristã de Pêro da Covilhã era um mundo em que certa gente (na verdade, a esmagadora maioria da população) era «maltratada e desprezada», sem «qualquer esperança de fugir à sua triste condição». Também não devia ser motivo de espanto para ele que (certos) animais fossem mais bem tratados e alimentados do que os homens e mulheres pertencentes à arraia-miúda. Além disso, na Cristandade (leia-se Europa) da altura, duvidava-se que os pretos tivessem alma (algo aliás referido no romance), por isso, era justificável que se tratassem esses seres como animais, ou pior ainda. Este anacronismo não se pode com certeza arrumar para o reino da fantasia…
Também não compreendi, nem achei necessidade de, que a história de Pêro da Covilhã fosse contada na primeira pessoa e a de Salvador na terceira. Dá a impressão de que Pêro da Covilhã seria o contador de tudo o que se passa neste livro, mas ele não tinha hipótese de conhecer a história de Salvador.
Dir-me-ão que são pormenores sem importância para a maioria dos leitores. Pode ser. Mas este romance foi finalista do Prémio LeYa em 2014, razão suficiente para sermos exigentes. Reitero, contudo, que a leitura é agradável. E a descrição dos países visitados por Pêro da Covilhã, assim como as suas aventuras, estão bem conseguidas.
Prestei menos atenção, na descrição da capa do livro à palavra “Fantasia” que é género que eu não aprecio. E quando Salvador começa por lavar os olhos da mulher morta para os por nos do filho comecei a desconfiar. Chegado na Nenhures, resisti até à pág. 30. Depois, desisti e abandonei o livro. Admito facilmente que o facto de não ter gostado e, coisa muito rara, deixar o livro no início, se deve apenas ao meu fraco conhecimento do que é a literatura, porque não posso esquecer que este livro, está anunciado como romance finalista do prémio Leya.