Nesse livro, Antonio Candido desenvolve uma pequena crônica em que apanha os principais acontecimentos da vida do conselheiro Antonio Nicolau Tolentino, funcionário de carreira da administração pública imperial no século XIX.
Metodologicamente, esse livro traz uma abordagem da micro história para ilustrar algumas realidades do serviço público e caracterizar um dos tipos sociais daquele tempo: o alto funcionário que atravessa a burocracia sem chegar às lideranças (políticas). Para Candido, isso ajuda a esclarecer a relação entre o primeiro e o segundo escalão na administração do Império. Com esse ensaio, Candido também consegue demonstrar, através da história pessoal de Tolentino, alguns dos traços distintivos da vida pública brasileira (patrimonialismo, patronato etc., como apontado por Sérgio Buarque de Holanda).
Tolentino é exemplificativo da possibilidade de acessar a classe média e adotar um estilo de vida burguês a partir do ingresso no funcionalismo público. O acesso ao alto escalão, contudo, dependia de conexões pessoais com a aristocracia rural. Nem mesmo Tolentino, considerado por Candido um "self-made man" do Império, teria chegado às posições a que chegou não fossem por suas relações com o Barão de Mauá, o Visconde do Rio Branco (Paranhos), o Duque de Caxias e com o Marquês de Olinda.
Embora confesse ter feito um estudo despretensioso dessa personalidade - tanto que segurou a publicação por muito anos, acreditando ser necessário estudar a fundo a carreira do conselheiro no Tesouro Nacional - Candido acaba contando com muitos detalhes dois episódios que servem de radiografia da administração pública e da política do Império: a briga de Tolentino com a Assembleia Provincial do Rio de Janeiro e a guerra epistolar ao redor da sua condução de um processo de contrabando na Alfândega. Em ambos os casos, os adversários de Tolentino recorrem a argumentos ou condutas supostamente técnicas e moralistas para avançar pautas e interesses pessoais.
Sem dúvida, a crônica desses acontecimentos é o maior elemento literário desse livrinho que, na maior parte, é de leitura bastante árida e monótona. Primeiramente, servem de clímax do arco de crescimento de Tolentino na administração pública. Em segundo lugar, permitem que sejam tratados, em meio a detalhes engajantes, engraçados e curiosos, os principais vícios do Estado Imperial, de raiz ibérica, segundo a qual os cargos públicos sempre foram prebendas, brindes, a clientes fiéis. Na base do sistema, sempre esteve o clientelismo e a apropriação do Estado para fins particulares.
Antonio Candido, embora, como até nós leitores, estivesse intrigado com a possibilidade de um sujeito sem formação ou origem social avançar tão espetacularmente na hierarquia do Estado e ficar conhecido como alguém de encantadora competência técnica, cortesia e honestidade, não perde de vista que o conselheiro Tolentino, apesar disso tudo, não era um idealista ou reformador radical. Pelo contrário, apesar da ausência de perfomance política visível, era partidário do sistema e daqueles em favor da sua conservação.