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O século dos imbecis

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A hipótese de um homem morrer de burro não seria tão controversa se não fosse evidente o fascínio que multidões revelam pela ignorância, bem mais do que pela maravilha da sabedoria e sensatez.
Atravessamos o século da informação, mas parecemos resistir ao conhecimento. Como se o lúdico e o torpe definissem afinal o propósito dos colectivos que perdem a vergonha perante a folia de não saberem nada.
Agilulfo, um marquês em tempo de República, abrilhanta quando sobe a montanha e emburrece quando desce. Por sinal, a tentação de o descer é maior do que a de o subir. A pequena vila vive em torno do estranho homem que, sem fazer mais do que cuidar de sua grande casa, está no centro dos interesses de toda a gente.
Entre o riso e o espanto, o absurdo e a mais nítida representação da esperança e da falha humana, a vida passa inteira por aqui.

340 pages, Paperback

Published June 1, 2026

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About the author

Valter Hugo Mãe

72 books2,430 followers
valter hugo mãe é o nome artístico do escritor português Valter Hugo Lemos. Além de escritor é editor, artista plástico e cantor.
Nasceu em Saurimo, Angola em 1971. Passou a infância em Paços de Ferreira e, actualmente, vive em Vila do Conde.
É licenciado em Direito e pós-graduado em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea.
Vencedor do Prémio José Saramago no ano de 2007
É autor dos livros de poesia: Livro de Maldições (2006); O Resto da Minha Alegria Seguido de a Remoção das Almas e Útero (2003); A Cobrição das Filhas (2001); Estou Escondido na Cor Amarga do Fim da Tarde e Três Minutos Antes de a Maré Encher (2000); Egon Shiele Auto-Retrato de Dupla Encarnação, (Prémio de Poesia Almeida Garrett) e Entorno a Casa Sobre a Cabeça (1999); O Sol Pôs-se Calmo Sem Me Acordar (1997) e Silencioso Sorpo de Fuga (1996). Escreveu ainda o romance O Nosso Reino (2004).
Organizou as antologias: O Encantador de Palavras, poesia de Manoel de Barros; Série Poeta, em homenagem a Julio-Saúl Dias; Quem Quer Casar com a Poetisa, poesia de Adília Lopes; O Futuro em Anos Luz, por sugestão do Porto 2001; Desfocados pelo Vento, A Poesia dos Anos 80, Agora.

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Displaying 1 - 16 of 16 reviews
Profile Image for Maluquinha dos livros.
339 reviews148 followers
July 15, 2026
“Que mesquinha vontade tinham as pessoas quando escolhiam emburrar um homem, ao invés de o abrilhantar.”
Só a genialidade de VHM poderia criar esta ideia: uma pequena comunidade onde coexistem a mesquinhez, a ambição e a inveja, a par da generosidade, da empatia e da esperança. É nesta vila, com as suas personagens que tão bem retratam os mecanismos das relações humanas, que vive Agilulfo, o Marquês da Malandrinha.
A Casa da Malandrinha, aristocrática, cheia de tradições e carregada de passado, também é uma personagem do livro. É neste lugar que Agilulfo ( e, na conversa a que assisti entre VHM e Héctor Abad Faciolince , percebi a original escolha do nome) vive a sua vida tranquilamente, entre os retratos dos seus antepassados e os objetos que diariamente teima em contar e inventariar. Porque é nesta casa que Agilulfo se deixa existir, simplesmente, numa segurança que só a casa da Malandrinha lhe garante. Esta personagem (um imbecil, na verdade, podemos dizer) é tão improvável, tão peculiar e tão ao jeito de VHM! Tem a particularidade de “emburrecer” quando sai de casa e desce a montanha, mas, pelo contrário, quando mais sobe, mais inteligente fica. É precisamente esta ideia que VHM tão bem usa para satirizar a sociedade contemporânea. Perante a queda e o emburrecimento de Agilulfo, assistimos, de forma mesquinha, ao seu fracasso e rimos da sua perda de lucidez ou, pelo contrário, somos capazes de unir esforços para o amparar e ajudá-lo a subir a montanha em busca da razão?
Ouvi várias conversas com o autor e creio que a leitura mais importante deste livro reside precisamente nesta oposição entre informação/conhecimento. Como o autor refere, o facto de vivermos rodeados de informação não significa que sejamos mais sábios. A metáfora do emburrecimento de Agilulfo é, na minha opinião, uma crítica muito inteligente a uma sociedade que tende cada vez mais a desvalorizar o pensamento crítico, com todas as implicações que daí advêm.
Gosto da forma como o autor continua a atribuir às suas personagens femininas uma força e uma presença inquestionáveis. Embora neste livro nenhuma personagem feminina tenha nome próprio, cada uma, da Criada à Marquesa, passando pela Pessivista, acaba a ocupar o centro da narrativa, mais do que as personagens masculinas. Neste livro, em particular, com a improvável aliança e aproximação entre a Criada e a Marquesa, o autor reafirma a ideia de que a cumplicidade entre as mulheres é essencial, porque só essa sororidade e amparo podem fazer a vida continuar, mesmo perante as maiores adversidades.
Como é habitual nos livros de VHM, este também explora com grande sensibilidade as relações humanas, a nossa fragilidade e o poder dos afetos. De uma forma irónica e, muitas vezes, cómica, o autor leva-nos a perceber como é possível encontrar sentido e coerência até naquilo que parece absurdo. No final, apesar da crítica tão presente e de uma visão tão mordaz sobre a sociedade e as suas contradições, permanece uma ideia de esperança: a de que a nossa condição humana, apesar de todas as falhas e vulnerabilidades, nos dota de uma capacidade para reconstruir, cuidar e amparar o outro.
Profile Image for Rúben Meireles.
14 reviews1 follower
July 11, 2026
Primeira experiência de leitura do Valter Hugo Mãe. Uma sátira alegórica com muito humor, crítica social e até filosofia.
Livro importante para ler nos tempos que correm, com uma narrativa introspetiva (sem diálogos) e que me deixou com curiosidade para ler outros livros do VHM.
Profile Image for Nuno Mendonça.
86 reviews6 followers
July 1, 2026
“Cada pessimista sucumbirá à sua própria utopia, mas terá deixado sobre a terra um sem-fim de contributos que, por incapacidade de se deter favoreceram a vidinha amena dos demais.”


Já li todos os livros de valter hugo mãe e O século dos imbecis não escapa àquilo que mais reconheço no seu estilo: uma ternura muito própria, uma forma quase desarmante de olhar para as pessoas, mesmo quando elas falham, se enganam ou se deixam levar pela pequenez do mundo à sua volta.

Este é um livro castiço, no melhor sentido da palavra. Tem qualquer coisa de aldeia, de exagero, de absurdo humano, mas também de afeto e de uma delicadeza muito particular. Terminei-o com um quentinho no peito, como se, apesar de tudo, o livro insistisse na possibilidade de haver pertença, cuidado e algum tipo de bondade entre as pessoas.

Uma das grandes virtudes do romance está, para mim, na forma excecional como o autor continua a criar personagens femininas fortes, inteiras e cheias de presença. Em valter hugo mãe, as mulheres raramente existem apenas em função da dor que lhes acontece ou dos homens que as rodeiam. Elas ocupam espaço, decidem, cuidam, protegem, amparam-se, confrontam-se e, sobretudo, reconhecem-se umas nas outras.

Houve momentos que me fizeram lembrar a Isaura de O filho de mil homens, outros que me devolveram ecos de o remorso de baltazar serapião, não por repetição, mas por essa capacidade de construir mulheres que carregam o centro emocional da história sem nunca parecerem apenas símbolos. Neste livro, há uma força muito bonita nessa ideia de que as mulheres não se diminuem necessariamente entre si; pelo contrário, é muitas vezes na aproximação, na cumplicidade e na atenção entre elas que o mundo se torna menos bruto.

Senti este romance como uma carta de amor a A Casa. Mas não A Casa enquanto paredes, telhado ou propriedade. A Casa, aqui, parece ser sobretudo quem a habita, quem a merece, quem a protege, quem a transforma num lugar de pertença. Uma casa é feita das pessoas que dela fazem parte, e não necessariamente das paredes que a delimitam.

Há uma frase que me parece resumir muito do núcleo do livro: “Que mesquinha vontade tinham as pessoas quando escolhiam emburrar um homem, ao invés de o abrilhantar.” Achei-a uma metáfora perfeita para o mundo contemporâneo. Vivemos muitas vezes rodeados por essa vontade pequena de diminuir o outro, de o tornar menos luminoso, de o empurrar para dentro de si em vez de o ajudar a brilhar.

Sem entrar em spoilers, gostei muito da forma como o livro trabalha a ideia de que até as boas intenções podem magoar. E que ter boas intenções não nos desculpa automaticamente; pelo contrário, aumenta a nossa responsabilidade sobre o que fazemos em nome delas. Como se lê no livro: “Querer encarar apenas a beleza da intenção inicial é não atribuir à beleza o seu preço, e o preço por cada gesto é o seu mais contingente significado.”

Não foi o meu valter hugo mãe favorito, mas é um romance muito bonito, ternurento e cheio de humanidade. Um livro sobre A Casa, pertença, comunidade, falha e cuidado. E, acima de tudo, sobre a possibilidade de abrilhantar alguém em vez de o emburrar.
Profile Image for Delfina Velez.
107 reviews2 followers
July 3, 2026
Uma narrativa alegórica que utiliza personagens e situações insólitas para refletir sobre a sociedade contemporânea.
A personagem do Marquês representa uma figura de poder marcada pela contradição, tornando-se, assim, uma metáfora de uma sociedade que oscila entre a razão e a irracionalidade.
A Criada desempenha um papel essencial ao representar a simplicidade, a dedicação e o bom senso. Embora ocupe uma posição social inferior, revela frequentemente uma compreensão da realidade mais profunda do que a das personagens privilegiadas. Evidencia que a verdadeira sabedoria não depende do estatuto social nem da instrução formal, mas da capacidade de observar, cuidar e agir com humanidade.
O cofre assume um forte valor simbólico, representando aquilo que as pessoas mais valorizam e procuram proteger, funcionando como uma crítica à tendência humana para atribuir maior importância aos bens materiais do que aos valores éticos e ao conhecimento.Estes três elementos articulam-se para reforçar a mensagem central do romance: uma sociedade que despreza o pensamento crítico e privilegia a aparência, o poder e a riqueza, corre o risco de se tornar cada vez mais vulnerável à ignorância.
100 reviews
July 15, 2026
Uma capa lindíssima, para um conteúdo excelente. Na habitual linguagem ao mesmo tempo poética, inovadora e carregada de ironia, acompanhamos a história de uma povoação, com todos os seus conflitos e jogos de interesses, história que é também uma parábola dos nossos tempos, em que preferimos a superficialidade e rirmo-nos dos outros, ao invés de procurarmos elevá-los através do conhecimento. Poucos autores sabem contar histórias de uma forma tão bela.
Profile Image for Sofia Dias.
63 reviews4 followers
July 15, 2026
devia começar a ser dado na escola. brilhante.

é, curiosamente, o livro menos VHM que li! a crítica social é muito saramaguiana, mas depois lembras-te de que a personagem principal se chama “Agiulfo” e que vai acima de um monte para se tornar sapiente e falar com Deus e, de repente, as palavras já pertencem a quem as escreve.
23 reviews1 follower
July 3, 2026
Livro maravilhoso, com uma linguagem simultaneamente poética e humorísticas. Lembra-nos que a verdadeira imbecilidade não está em saber pouco, está em recusar pensar.
Profile Image for Leandra.
550 reviews17 followers
July 12, 2026
Neste magnífico livro de Valter Hugo Mãe somos convidados a refletir acerca de diversas situações da contemporaneidade através de metáforas geniais.
Agilulfo, o Marquês da Malandrinha, influencia a vida de todos o que o rodeiam. Este Marquês tem uma condição especial: ganha inteligência e abrilhanta quando sobe a montanha e emburrece quando a desce.
Partindo deste pressuposto VHM leva-nos a reconhecer o quanto estás movimentações alteram toda a história.
Há uma crítica à sociedade atual, ao modo de vida e à importância que se dá às coisas.
Há um claro contraste entre a importância dos bens materiais e das vivências de cada um.
Neste livro, há um enfoque nas personagens femininas que me agradou muito. Aqui elas são fundamentais para que a história exista. São elas que fazem o mundo girar.
A Criada é a minha personagem preferida em todos os momentos. Na sua simplicidade mostra a garra de que são feitas todas da mulheres.
O que menos gostei no livro foi de alguns detalhes de realismo mágico.

Fazendo este livro parte de uma tetralogia, aguardo que personagens aqui presentes transitem para outras histórias.

"O poder dos homens era invariavelmente para transpor o que o corpo não podia. O poder das mulheres estava muito mais interessado em superar solidões."

"Senhoras e senhores, não nos falta informação, falta-nos a felicidade. Aliás, ainda que sejamos do século da informação, não somos sequer do século do conhecimento."

"À bondade exige-se responsabilidade. O que haveremos de fazer no dia em que os bondosos puderem ser torpes. Em que nem nos bondosos pudermos confiar."
Profile Image for Rita Carmelo.
70 reviews1 follower
July 5, 2026
Nestes dias de estio, acompanhei a história de Agilulfo, o Marquês que se abrilhanta e emburrece consoante sobe e desce as montanhas em redor da sua propriedade, com vida própria, a Malandrinha. Adorei as fortes personagens femininas, sendo que a minha favorita foi, sem dúvida, a própria casa. Adoro também a escrita de VHM e esta exploração de realismo mágico que acaba por ser uma metáfora para os nossos dias.
Profile Image for Ana Francisco.
10 reviews
June 27, 2026
Sempre estivemos rodeados de imbecis e isso é se não somos, tbm nós, imbecis. É preciso MT tempo e MTA sabedoria para se escapar à imbecilidade. Sabedoria q n vem nos livros nem se aprende na escola.
É mais um livro que nos faz refletir sobre o q realmente é importante.
Profile Image for José Duarte Branco.
17 reviews
July 6, 2026
Este foi o primeiro livro que li do escritor Valter Hugo Mãe e a principal razão pelo qual o mesmo me interessou foi a crítica à sedução pela ignorância, ainda que tenhamos cada vez mais, especialmente na nossa sociedade, meios para nos dotarmos de conhecimento e do exercício da razão.

Agilulfo, o marquês da Malandrinha, é uma ou a personagem central desta narrativa, com uma característica no domínio do fantástico: sempre que sobe, abrilhanta, que é como quem diz ganha inteligência; sempre que desce, emburrece, o que leva a que todos em seu redor se aproveitem, em certa medida, dessa mesma condição para retirar algum proveito disso, seja ele material ou meramente satisfatório… É uma crítica à sedução que temos pela burrice, por ver os outros emburrecer, mesmo que não sejamos muito diferentes dos Algilulfos desta vida.

Além desta dicotomia ignorância VS. conhecimento, que é o principal detonador de toda a narrativa, há um outro aspeto que corre em paralelo, a decadência da Malandrinha, a propriedade de Agilulfo e dos seus ancestrais, e a luta pela posse, mesmo que não se tenha a capacidade de contrariar esse mesmo Destino.

Valter Hugo Mãe oferece-nos um conjunto de personagem muito peculiares, interessantes, com características no domínio do fantástico, mas que tão bem retratam os muitos aspetos intemporais da nossa sociedade.

Destaco este trecho:

“Claro que trocamos o conhecimento pelo riso, porque queremos muito mais a felicidade do que a informação. Somos do século da informação, mas não somos do século da felicidade. Senhoras e senhores, não nos falta informação, falta-nos a felicidade. Aliás, ainda que sejamos do século da informação, não somos sequer do século do conhecimento. Porque mantemos o que há a saber fora de nossa cabeça e, pior, fora de nossa conduta. Para o conhecimento, continuamos à míngua do que nos ensine, porque não queremos ser ensinados.”
Profile Image for josé almeida.
384 reviews23 followers
June 29, 2026
uma agradável surpresa. nunca gostei do que escreveu anteriormente (recordo dois livros, de leitura inacabada) mas esta novela é diferente: história da vida e morte de um marquês que emburrece quando desce o monte (e ganha lucidez e inteligência quando o sobe) e de como isso condiciona a vida de todos os que o rodeiam, numa prosa propositadamente algo arcaica, mas com ironia, graça e imaginação.
Profile Image for Mar.
7 reviews
July 17, 2026
Gostei bastante do livro. Nunca tinha lido nenhum dos livros de Valter Hugo Mãe e agora irei provavelmente ler mais.

Apesar de os personagens e momentos serem claramente exagerados e fantásticos, é muito interessante ver o quanto de absurdo existe no nosso dia a dia que assim, quando exposto num livro, é tão mais notório.

Profile Image for João Duarte.
144 reviews4 followers
July 17, 2026
"Somos do século da informação, mas não somos do século da felicidade. Senhoras e senhores, não nos falta a informação, falta-nos a felicidade. Aliás, ainda que sejamos do século da informação, não somos sequer do século do conhecimento. Porque mantemos o que há a saber fora de nossa cabeça e, pior, fora de nossa conduta."
(Página 234)
Profile Image for Beatriz.
2 reviews
July 16, 2026
Que livro! Um retrato exímio da sociedade… Convoca o pensamento, a reflexão, a nossa conduta. Um livro atual, que toda a gente deveria perder, no fundo (ganhar) o seu tempo, para o ler.
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