O autor não se limita a contar a vida da famosa Chica da Silva. Partindo do momento histórico em que a mulher de um humilde garimpeiro teria descoberto, no Ribeirão de Macedo, o primeiro diamante do Brasil, o autor retrata, com vigor reservado àqueles que dominam não só o assunto, mas também a língua, os épicos deslocamentos de massas de ambiciosos, ao sabor dos boatos, depois as levas de retirantes expulsos da Demarcação Diamantina, e as inquietações de um período em que até a delação menos fundamentada era motivo suficiente pra que suspeitos fossem encarcerados, sem direito de defesa, e até levados à morte por torturas. Mais que um romance biográfico, Chica que Manda vale por um completo estudo da vida, dos costumes e da política de sua época.
Sempre ouvi falar da obra de Agripa Vasconcelos, um médico e escritor de romances históricos sobre a era colonial de Minas Gerais. Considerado um autor mais acessível e, talvez por isso, meio deixado de lado pela crítica literária, Agripa Vasconcelos ainda tem uma grande fama entre os leitores mais velhos, pelo mebos entre os que conheço aqui em Belzonte.
E dá para entender essa fama popular. "Chica que Manda", minha primeira leitura da obra de Vasconcelos, é um romance histórico absolutamente mineiro, escrito com uma mistura de um estilo clássico, com narrador onisciente que tece comentários e tangentes hisroricas, com um certo humor mordaz e um clima de causo e crônica mineira.
E muito saboroso de ler, mesmo com tantos termos diferentes, pois a linguagem emula o português colonial, mas se ficar carregada demais.
A pesquisa histórica é impressionante, a recriação do mundo da exploração de diamantes mineiros durante o final do período colonial é um primor. É muita informação, causos, histórias e eventos peculiares da região, entrelaçados com a história de Chica da Silva.
Mesmo com as distorções históricas, pois Agripa recriou e dramatizou a história de Chica com base na tradição narrativa do mito, que recente tem sido contestada por vários historiadores (ocorreu muita romantização e defamação por conta de preconceito e machismo), o romance é muito imersivo, e dá uma noção clara da brutalidade e complexidade de interesses do período colonial.
Chica da Silva é descrita de uma maneira bem ambígua, usando os tropos tradicionais do mito (sedutora, etc) mas ganhando uma frieza de um Don Corleone em relação aos seus inimigos, e um ciúme doentio em relação ao seu amante. É uma imagem contestada atualmente, (a Chica histórica oarece ter sido uma mulher empreendedora, de grande habilidade política, e muito mais inteligente do que a imagem que ficou no imaginário popular ) , mas que a transforma em uma protagonista fascinante no romance, principalmente ao mostrar uma mulher de cor se impondo frente a uma sociedade branca escravocrata, sendo bajulada, respeitada e temida.
Tudo é bem descrito, os horrores incomensuráveis da escravidão, a hipocrisia generalizada de portugueses e brasileiros, a sanha exploratória dos colonizadores, etc.
Os personagens são mais superfíciais, sem muitas explorações psicológicas, mas o foco da narrativa é na trama histórica. E que trama! Cheia de reviravoltas, dramas, paixões, cenas épicas e dramáticas, et.
Recomendo para quem curte romances históricos, é como um Game of Thrones mineiro!
Mais um excelente romance histórico de Agripa Vasconcelos, que retrata com grande intensidade e riqueza de detalhes a vida, os costumes, o ambiente e a história do Brasil no antigo Distrito Diamantino, sobretudo no Arraial do Tijuco (Diamantina), tendo por fio condutor a vida de Chica da Silva e do contratador João Fernandes, mesclando fatos históricos de grandes e polêmicos personagens e os mitos populares, o que parece ser sua marca.