"Como a obra do último Beethoven, também a obra do octogenário Goethe culmina em falésia. O Segundo Fausto, monumental enciclopédia poética barroquista, desafia a posteridade e intriga os intérpretes. Neste volume, Haroldo de Campos nos apresenta uma nova e fascinanteleitura do legado goethiano, do ponto de vista estético e ideológico, manipulando e discutindo conceitos de Bakhtin, de W. Benjamin, Adorno e de outros autores. Como figura nuclear do volume, a transcrição para o português ("transluciferação", como a chama HC) das Duas Cenas Finais do Segundo Fausto (a luta entre as hostes infernais e a milícia angélica pela alma do pactário e a ascensão de Fausto às "altas esferas", ao aceno do Eterno-Feminino). O original alemão do texto goethiano e numerosas ilustrações compõem ainda este livro."
Haroldo de Campos was a Brazilian poet, critic, and translator. He and his brother Augusto de Campos, together with Décio Pignatari, formed the poetic group Noigandres that published the experimental journal of the same name, which would launch the Brazilian movement of poesia concreta (concrete poetry). He translated some of the most important literature of the Western tradition into Portuguese, such as Homer's Iliad, prose by James Joyce and poetry by Mallarmé. When he died he left unfinished a translation of Dante's Comedia, a manuscript that Umberto Eco had a chance to read, which compelled him to say that "Haroldo de Campos is the best Dante translator in the world".
Esse livro são três. Primeiro, a tradução (que me pareceu muito boa) das duas cenas finais da Segunda Parte de Fausto. Segundo, um ensaio bastante sofisticado sobre o próprio Fausto, abordando as duas partes da obra. Terceiro, um ensaio mais curto sobre a tradução, comparando os problemas que existem na ‘transcriação’ para o português e comparando dificuldades e soluções que ele – Haroldo de Campos ¬– encontrou, com a de outros tradutores – a do português Agostinho D’Ornellas, feita no século XIX e a de Jenny Klabin Segall, da década de 1960. De qualquer modo, a parte que me interessou mais – até porque estou lendo o Fausto II (na tradução da Jenny Klabin) – foi a segunda parte. Fausto não é uma obra fácil ou simples, muito pelo contrário. Fruto de mais de sessenta anos de trabalho de Goethe, contém uma profusão inimaginável de simbolismos, alegorias e referências. Em certo ponto do ensaio, aliás, é feita uma referência a uma conversa do próprio Goethe, em que ele afirma “Estou convencido de que, quanto mais incomensurável e difícil de ser compreendida é uma obra poética, tanto melhor ela é”. Assim, o ensaio do Haroldo traz algumas luzes para uma obra tão complexa. Mas não nos enganemos. Haroldo de Campos – já falecido ¬– foi um intelectual bastante sofisticado e mesmo que ele ajude a iluminar Goethe e Fausto, o texto também traz os seus desafios. Porém, isso não é para desanimar. Duas observações, entre tantas, foram bem importantes para mim. A primeira diz respeito à diferença entre as duas partes de Fausto. Segundo o Haroldo – em explicação que me pareceu bastante convincente ¬– “No Segundo Fausto dá-se a passagem do ‘subjetivo’ para o ‘objetivo’, como o próprio Goethe o afirma em suas conversações com Eckermann. ‘Conteúdos gerais da humanidade’ constituem aqui o interesse objetivo, em lugar das paixões individuais de Fausto.” Mas o segundo ponto – e o mais relevante para mim, diz respeito à ideia de ‘carnavalização’ da obra – especialmente do Fausto II: “Uma chave preciosa para a melhor compreensão do Fausto goethiano será, sem dúvida, o fenômeno da ‘carnavalização’, estudado por Bakhtin”. Mas o que seria ‘carnavalização’, afinal de contas? Haroldo esclarece e aqui tomo a liberdade de copiar um trecho um pouco longo: (...) Bakhtin destaca as observações sobre os fenômenos de familiarização e desierarquização (suspensão provisória das diferenças hierárquicas, aproximação de superiores e subordinados); a atmosfera de liberdade; os torneios verbais jocosos; a interpenetração de vida e morte; a conversão de imprecações (‘Sai ammazzato!’) em gritos de júbilo; a ambiguidade generalizada das relações (‘coroação’/‘descoroação’); a impudência dessacralizadora dos gestos. Também em outras reflexões, citadas por Bakhtin, fica demonstrado como Goethe soubera ver a ‘dualidade da imagem corpórea’, através da penetração do sagrado pelo humano, do espiritual pelo sensual, e que sua concepção da natureza envolvia um ‘profundo espírito carnavalesco’ (ela é vista como uma ‘criatura contraditória, jocosa, imponderável’, pressuposta como base do mundo fenomênico, a seriedade e o medo não passam de consciência fraturada e resultariam da separação desse todo oni-abrangente; nisto se manifestaria ‘a natureza cósmica do corpo grotesco’, que o carnaval realisticamente simboliza).” Em outras palavras, no mundo de Mefisto, tudo é possível, a ordem pode ser rompida (ou corrompida) à vontade. As amarras do passado ficam para trás, sem não um custo bastante significativo. Enfim, um belo livro, que vale a pena ser lido e que ajuda – e muito – na leitura do Fausto.