Este livro grande da memória é dedicado a todos os homens que foram ao bacalhau. Trata de uma saga fascinante que, de certo modo, simboliza o crepúsculo do "Portugal marítimo" – real ou imaginário. Dando continuidade a um esforço de pluralização das memórias da "grande pesca" no sentido de as tornar menos reprodutoras no plano social e mais abertas do ponto de vista cultural, o Museu Marítimo de Ílhavo tem construído diversos projectos no propósito de inscrever na memória pública rostos e nomes desta extraordinária aventura humana. O presente livro álbum pretende dar uma expressão territorial e aberta, visível e esteticamente exaltante, às memórias da pesca do bacalhau. Como escreveu Santos Graça, a pesca do bacalhau era "áspera, dura, tremenda, quase heróica", uma verdadeira “epopeia dos humildes”. Quem eram estes homens? Sobranceiros ao mito ou meros figurantes das narrativas oficiosas, entre 1935 e 1974, ao todo foram cerca de vinte mil os pescadores que se matricularam na pesca do bacalhau. Ano após ano, durante longos meses de trabalho e lonjura, ausentavam-se das suas terras e famílias para opor à contingência de rendimento das pescarias locais o salário mais certo da "pesca grande". Muitos deles estão ainda entre nós, de norte a sul do país, em todas as comunidades do litoral e em algumas do interior, dando rosto à maritimidade que por vezes se invoca quando se discorre sobre o destino e o ethos português.
ÁLVARO GARRIDO nasceu em Beduído, Estarreja, em 1968. É licenciado em História e Mestre em História Contemporânea de Portugal pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e doutorou-se em Economia (na especialidade de Estruturas Sociais da Economia e História Económica) na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, onde lecciona desde 1995 e, actualmente, é Professor Catedrático e Director dessa instituição. É investigador do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS 20-FL/UC), investigador colaborador do Instituto de História Contemporânea (IHC-FCSH/UNL) e consultor do Museu Marítimo de Ílhavo, do qual foi director. A sua área de estudos incide nas instituições do corporativismo salazarista e na história marítima e das pescas. Os seus últimos livros intitulam-se Henrique Tenreiro: uma Biografia Política (Círculo de Leitores/Temas & Debates, 2009); O Estado Novo e a Campanha do Bacalhau (Círculo de Leitores/Temas & Debates, 2010); Cooperação e solidariedade: uma história da economia social (Tinta-da-China, 2016), Queremos uma economia nova! (Círculo de Leitores/Temas & Debates, 2016) e As pescas em Portugal (FFMS, 2018). É ainda coordenador da colecção Novos Mares da Âncora Editora, uma colecção de estudos e ensaios de temas marítimos. É autor de dois documentários de longa-metragem produzidos pela RTP.