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Por Mundos Divergentes

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Num futuro por vezes próximo, por vezes distante, Portugal sucumbe dos mais variados estados ditatoriais. Aquele que pensa é um inimigo do Estado. Um inimigo da pátria que tem de ter cuidado… e os que não têm cura, devem ser sacrificados pelo bem maior. Por mundos divergentes conta com cinco contos distópicos escritos por Ana C. Nunes, Nuno Almeida, Pedro G. Martins, Ricardo Dias e Sara Farinha.

ebook

First published September 1, 2014

12 people want to read

About the author

Ana C. Nunes

21 books104 followers
Ana C. Nunes has been writing fiction novels and short-stories since she was fourteen years old, but only in 2008 did she really get into novel writing.
Born in Barcelos, Portugal, raised to love and respect all forms of art, she wrote and drew comics for a few years before realizing her true passion was fiction writing. Her preferred genres are fantasy, science fiction and graphic novels.
She speaks and writes English fairly well but Portuguese, her first language, is her favourite.

Her first novel, "Angel Gabriel - Blood Bound", was released in 2013 (in Portuguese) and will be published in english in 2014. She has also had short-stories published in Portuguese and Brazilian anthologies.

Ana is also the author, artist and colorist of several comics, including "Just My Luck" (published in 'Barcelos Popular' between 2006 and 2007) and "Someone once told him ..." (winner of the 3rd prize at Odemira's Comic Contest in 2010).

Ana C. Nunes still lives in Barcelos, with her family and dog.

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Profile Image for Vitor Frazão.
Author 39 books59 followers
October 24, 2014
Avisos: quem estiver apenas interessado nos contos é melhor saltar os próximos 4 parágrafos. Além disso, as opiniões contém alguns spoilers e alonguei-me um pouco mais nelas do que esperava.

O segundo trabalho da Editorial Divergente começa bem, com capa e contracapa muito mais apropriadas à antologia do que as usadas em “Na Sombra das Palavras”.

O mesmo não se pode dizer de insistirem em a aglutinar índice, apresentação da antologia (abusivamente generalista) e da editora numa única página, mesmo sob a égide de “cuidar do planeta”.

Ou da publicidade. Não me incomoda o uso de publicidade em livros, ainda para mais quando se tem o cuidado de a sincronizar com o tema da antologia (good job, btw), o meu problema é com a escolha do que se publicita. Simplificando: pedido de manuscritos para a editora em geral; indicar obras já lançadas ou anunciar as que serão em breve (data incluída), tudo bem, faz sentido. Pedidos para antologias específicas, algumas das quais cujo prazo acaba basicamente um mês depois do lançamento: nop. Faria sentido numa publicação periódica, não num livro. Por reduzido que na prática seja o tempo de prateleira médio de uma obra, um livro, ao contrário de a revista ou jornal, é feito com uma maior longevidade em mente. Que sentido fará para um leitor que o adquira daqui a 3 anos algo como “antologia X, tema Y, submissões até 31 de Outubro”?

Still, isto acaba por ser insignificante face ao que realmente interessa: os contos. Onde verão que as três estrelas na contracapa são mais que proféticas.

“Patriarca” escrito por Ricardo Dias e ilustrado por Rui Miguel Gomes (2,5 estrelas)
Quanto mais credível maior é o impacto de uma distopia no leitor. Nesse sentido o autor começa muito bem, pois os seus processadores metacognitivos de classe alfa e os nanochips de vigilância, que fazem dos olhos e ouvidos de cada cidadão parte do sistema de vigilância do Patriarca, estão próximos o suficiente da realidade possível para nos preocupar.
De facto, o mundo apresentado é-nos familiar, já vimos alguns dos seus elementos antes. Dirão que isso é natural, que a maioria das distopias são parecidas pois os autores bebem inspiração das mesmas fontes. Deixarei ao vosso critério se neste caso isso é um ponto positivo ou não.
A mim, por exemplo, as semelhanças entre os Sentinelas daqui e the Watchers de “Fringe” deixaram de pé atrás. Exemplo: “Hesita um breve momento, inclinando a cabeça para o lado quase imperceptivelmente, como se estivesse a escutar algo que eu não consigo ouvir”. Será um piscar de olhos propositado? Se sim, lamento, por mim não fez nada.
Como um todo, o conto não é mau, só gostava que o estilo narrativo tivesse mais show e menos tell. A distopia é-nos muito bem explicada intelectualmente, sem falhas de maior, mas quase nada a nível emotivo, o que é particularmente estranho tendo em conta que foi narrada na primeira pessoa. Isto acabou por tirar muito do impacto aos previsíveis twists.
No final, a cedência do protagonista é demasiado rápida e seca, tendo em conta as divagações na página 9 sobre o que diz ter sido a sua reacção a “1984” de Orwell (btw, caso não tenham lido, este conto contém alguns spoilers sobre o clássico).
No que diz respeito às ilustrações, não destoam do narrado, embora também não lhe acrescentem valor, sendo mais juvenis que o conto.

“Em Asas Vermelhas” escrito por Nuno Almeida e ilustrado por Ana Santos (3 Estrelas)
A versão ternurenta de uma revolução num mundo distópico. Sensação que a ilustradora captou na perfeição com um traço desprovido de subterfúgios, simples e eficaz, mais emotivo que visual.
Mais uma vez o mundo ardeu e a peça que saiu da grelha foi uma sociedade extremamente racista, que o autor soube explorar, embora, por incrível que pareça, sem eliminar o sabor a “distopia Disney”. Mesmo que isto não seja necessariamente mau, não deixa de ser estranho. Menos questionável é o excesso de exposição e a necessidade de uma série injecção de naturalidade em certos diálogos. O mundo em si é simples, sendo nessa simplicidade que devia buscar força, não em explicações desnecessárias.
É uma narrativa clara, com bom ritmo e excelente a nível de transmissão de emoções, embora muitas destas últimas sejam mais leves do que seria de esperar.

“Dispensáveis” escrito por Ana C. Nunes e ilustrado por Manuel Alves (3,5 Estrelas)
Novamente, quanto mais chegada à realidade é a distopia maior o impacto. Mais chegado que este universo de austeridade e pseudo-salazarismos, tão cheio de pormenores sociais e culturais portugueses, é difícil. Muito além de apenas credível, muita da sua inspiração é factual e historicamente próxima o suficiente para nos deixar desconfortáveis.
A autora, muito bem suportada pelo traço simples e acutilante das ilustrações, fez um excelente trabalho na ligação do leitor ao protagonista e na transmissão de uma ambientação opressiva, desesperante e cruel. Uma verdadeira distopia, em que os sinais de esperança são tão pequenos e sufocados pelos eventos que ao piscar os olhos arriscamos a perdê-los.
O únicos defeito que posso apontar ao estilo narrativo é o facto de por vezes, muito ocasionalmente, a autora abusar na purple prose e/ou ser demasiado formal para as situações específica que o narrador participante vive. Ninguém cai das escadas e pensa “fui incapaz de processar a miríade de sensações que me abalroaram”, e ao fazê-lo está a levantar uma barreira entre si e o leitor. Felizmente, como disse, estes casos são demasiado raros para estragar o conto.
Já agora, por falar em dispensáveis, os primeiros parágrafos do primeiro capítulo “Zero Esperança” são. Não me oponho ao uso da velha técnica de “começar pelo fim” (com todas as previsões que isso oferece), só não acho que fizesse falta toda aquela infodump sobre o world-building e o protagonista, tendo em conta o bom trabalho de exposição no resto do conto.

“Arrábida 8” escrito por Pedro G. P. Martins e ilustrado por Leonor Ferrão. (3,5 Estrelas)
Admito que no início não associei o nome ao autor, mas assim que começou a falar de fauna ribeirinha fez-se luz.
É uma narrativa circular numa distopia cyberpunk ribatejana com um world-building muito interessante.
Infelizmente o mesmo nível de informação complexa e pormenores técnicos que ajudam na ambientação também tornam o ritmo do texto mais lento, o que talvez desmotive alguns leitores. Independentemente desses blocos mais extensos de informação, existem mesmo nódulos de infodump.
Quanto às ilustrações, a uma tecnicamente boa mas demasiado generalista para ter grande impacto na memória, segue outra muito apelativa, com um excelente jogo de sombras, cujo único defeito será a sensação que o pescoço da personagem está demasiado longo. Em todo o caso, ambas encaixam na perfeição no conto.

“Somos Felizes” escrito por Sara Farinha e ilustrado por Magdie Matias (3 Estrelas)
Apesar dos habituais vícios narrativos da autora (purple prose, “palha”, etc), progressivamente menores ao longo do conto, conseguiu pegar num conceito tão simples e fazer a distopia mais creepy desta antologia. Um mundo em que a felicidade, mais que um direito, é uma obrigação quimicamente assistida e sujeita a forte monitorização. Onde a pressão para ser feliz (segundo os padrões aceites pela sociedade), é enfiada pela garganta a toda a hora.
Embora mais longo do que o necessário, este conto conseguiu algo que nenhum dos outros quatro foi capaz: mostrar-me um mundo em que o suicídio como meio de fuga (a clássica solução dos romances distópicos) não só é uma hipótese razoável como desejável. Dez segundos nesta distopia e eu encostava logo a caçadeira ao céu-da-boca.
Quanto às ilustrações, embora os cenários representados façam sentido em relação ao conto, o traço imaturo acabou por prejudicá-lo. Sem sombra de dúvida os piores desenhos de toda a antologia.




Profile Image for Inês Montenegro.
Author 49 books147 followers
Read
November 8, 2021
“O Patriarca”, Ricardo Dias: Narrado em primeira pessoa, o conto apresenta uma boa estrutura e uma clara inspiração em Orwell. A maioria das personagens não apresenta complexidade, centrando-se a caracterização no protagonista – sendo esta bem doseada ao longo do conto. Apesar das limitações de um narrador autodiegético, o leitor não só compreende o que está a ocorrer, como o faz ainda antes da personagem – inclusive o final, que se torna evidente um pouco cedo demais.

“Em Asas Vermelhas”, Nuno Almeida: O wordbuilding fez-me considerar uma inspiração “ariana” como base: divisão da sociedade entre os loiros, de pele branca e olhos azuis/verdes a viverem no luxo tecnológico, e os morenos, vivendo na lixeira da cidade muralhada. O enredo centra-se na revolução que inevitavelmente advém, mais tarde ou mais cedo, de tal conceito, partindo dos pontos de vista – ainda que em terceira pessoa – de três personagens que, como se tornou bastante comum, são como que forçadas a assumir um papel na revolução. A estrutura está evidente: apresentação das personagens e worldbuilding, evento que despoleta os acontecimentos, clímax, e resolução. Fica, no entanto, a sensação de que seria uma história para um formato maior.

“Dispensáveis”, Ana Nunes: Recordam-se de ouvir sobre sociedades em que os filhos, chegada certa altura, abandonavam os pais numa montanha? É o ponto de partida para esta distopia, situada em Portugal, e com um travo de ditadura salazarista. Narrado em primeira pessoa, segue a visão parcial de um idoso que se tornou “dispensável” e deve, por isso, abandonar a sociedade: ou, mais correctamente, ser abandonado por esta. Uma premissa interessante, com um final ajustado ao que foi demonstrado sobre o wordbuilding. Apresentou, no entanto, algumas falhas e gralhas, como por exemplo uma troca de nomes, e a personagem do neto mais novo, cuja construção o faz parecer irreal.

“Arrábida8”, Pedro G. P. Martins: Apesar de ter sido o worldbuilding que mais me despertou o interesse, foi o conto que menos gostei. Julgo que ficou um grande potencial por desenvolver, não apenas no mundo criado, mas também no enredo. Não se percebe bem qual a importância do evento que se encontra no centro do enredo, nem o porquê de ser “ilegal”, algo a que o grande cariz científico não ajuda.

“Somos Felizes”, Sara Farinha: O meu conto favorito da antologia. A premissa é simples, mas poderosa: um mundo onde ser infeliz não é opção. Todos devem ser felizes. Tendo presenciado um momento marcante, o protagonista tem não só de lidar com uma depressão, como com a pressão de fingir tê-la ultrapassado. Uma situação pela qual bastantes pessoas passam na actualidade, e que está bem adaptada ao wordbuilding do conto. A autora consegue manter o interesse do leitor nesta “batalha” do protagonista, e do percurso que este percorre.
Profile Image for Ricardo Dias.
Author 25 books25 followers
Read
October 2, 2014
Tendo participado neste livro, abstenho-me de o classificar com um rating de estrelinhas...

Assim, deixo umas opiniões rápidas sobre os contos dos outros co-autores.

"Em Asas Vermelhas", de Nuno Almeida: como o próprio disse, é um conto de duas cidades. Explora o contraste entre os habitantes de uma cidade luxuosa (a cidade propriamente dita) e os habitantes da lixeira do exterior da cidade, que se revoltam. Faz lembrar vagamente os Morlocks e os Eloi d'A Máquina do Tempo, mas num texto mais orientado para a acção e, portanto, mais ligeiro.

"Dispensáveis", de Ana C. Nunes: dos quatro contos, o meu favorito. É o que tem o mundo mais desolador, e, assustadoramente, o mais provável. A primeira parte tem um componente emotivo mais forte que a segunda metade (que é mais gráfica) o que faz com que transmita o horror da realidade do protagonista de forma mais eficiente. O sistema de créditos para tratamentos, embora não na forma como a autora descreve, já se faz sentir um bocado na actualidade, de outras maneiras, o que é perturbador. E o ponto central da história, o descartar dos inválidos... bom, é melhor nem falar.

"Arrábida8", de Pedro Martins: é um conto onde transparece a área profissional do autor (Biologia) numa série de detalhes técnicos da história. O worldbuiling é eficiente, embora inicialmente um pouco confuso, mas rapidamente se define bem. O mesmo sucede com a história em si, custa um pouco a arrancar mas torna-se mais interessante no final. Gostei particularmente, mais até do que da história, de alguns dos detalhes científicos (talvez por também gostar de biologia) e tecnológicos, tais como a "zombificação" dos desligados do sistema.

"Somos Felizes", de Sara Farinha: o conto centra-se mais no mundo interior do protagonista e dos seus sentimentos (uma recusa literalmente criminosa em sentir uma felicidade artificial) do que na história propriamente dita; sinto que se perde qualquer coisa por causa disso, e gostaria de ter visto um pouco mais de desenvolvimento nessa vertente. De resto, o ambiente de "felicidade obrigatória" torna-se um pouco sufocante e até irritante, o que se coaduna bem com o mundo criado pela autora (e nos permite sentir um bocado mais de empatia pelo personagem).
Profile Image for Artur Coelho.
2,606 reviews74 followers
January 11, 2015
Depois do promissor Na Sombra das Palavras, a Editorial Divergência propõe-nos a antologia Por Mundos Divergentes, explorando distopias futuristas em diversas vertentes. Encontramos totalitarismos clássicos, mundos pós-apocalípticos, elitimos pós-escassez ou paraísos psicofarmacológicos. Sem ser uma excelente antologia, mantém um bom nível com contos interessantes que projectam em futuros anseios do presente, com a curiosa regra de se focarem no nosso país. Pode não ser excelente, mas note-se que é destas pedras que se vão construindo os caminhos de uma ficção especulativa portuguesa com cada vez mais qualidade e exigência com ela própria. Note-se que esta antologia, contrariando uma forte tendência entre os criadores portugueses de ficção fantástica, foge à fantasia e assume-se como de ficção científica.

Do livro ainda distinguiria o design de capa, a remeter para a iconografia propagandista dos totalitarismos do século XX. Infelizmente é um nível gráfico que não se mantém nas ilustrações do interior, excepção feita aos ilustradores dos contos Arrábida8, Dispensáveis e Em Asas Vermelhas. Neste, em particular, o toque de estética manga funcionou muito bem.

Patriarca, de Ricardo Dias, abre muito bem a antologia. O conto sublinha um totalitarismo opressivo baseado na hipervigilância automatizada por uma inteligência artificial consciente, num misto de opressão fabril dos primórdios da era industrial com o nosso corrente resvalar para uma sociedade panopticon. A história acompanha as desventuras de um inadaptado ao sistema, que apesar da sua rebeldia individual se descobre uma engrenganem de um diabólico sistema que reconhece a necessidade da dissidência para oprimir de forma mais eficaz. O patriarca do conto é uma entidade artificial, em constante evolução, com olhos em todas as câmaras e tentáculos globais em qualquer sensor. A prosa do autor é escorrida e a leitura rápida e agradável, apesar de se sentir o peso da omnipresença de Orwell, muito citado nestas curtas páginas.

Em Asas Vermelhas - outra boa surpresa, o conto de Nuno Almeida. A distopia parece-nos pós-apocalíptica, com humanos empobrecidos a viver uma existência miserável na terra doentia à volta das muralhas polidas de uma cidade futurista. Ao longo do conto vai-nos sendo mostrado que houve uma guerra, e que cada povo tem o seu mito. Os citadinos pensam que lá fora se arrastam mutantes radioactivos, enquanto que fora da cidade se imagina que os que se ocultam atrás das muralhas estão irremediavelmente doentes. Mas a cidade, uma Lisboa de arranha-céus e alta tecnologia, está rodeada de zonas radioactivas cheias barracas cujos habitantes sobrevivem nas lixeiras. Só a meio percebemos que a segregação é racial, a guerra antiga uma forma de separar brancos de tudo o resto. A metáfora com as cidades contemporâneas de centros luminosos rodeados por subúrbios problemáticos de cintura torna-se óbvia, apesar da solidez do mundo ficcional. O conto em si é uma história de dissidências e encontros, sob o pano de fundo de revoltas e de uma cidade que quase tem de ser arrasada para perceber a insustentabilidade da sua situação. A história é longa, mas a prosa escorreita do autor, temperada por infodumps bem colocados e momentos empolgantes, mal nos deixa dar pelo passar das páginas.

Dispensáveis - O conto de Ana Nunes é daqueles que já se sabe que caminhos irá percorrer mal se lê os primeiros parágrafos. Um futuro de economias de escassez após o colapso financeiro da União Europeia, caciquismos fascistas, ruína e pobreza generalizada, e uma nova ordem social em que aqueles tidos como inúteis à sociedade são obrigados por lei a ser dispensados, largados para morrer na natureza inclemente. O conto ganha pontos pela coragem da autora em não mostrar a sociedade espontânea dos inúteis e ineptos como algum farol de esperança, seguindo o caminho do desespero completo. A sociedade do fundo é tão ou mais violenta e inclemente do que a do topo. Não há redenções, e os desprezados não hesitam em recorrer ao canibalismo para poder conseguir mais um dia. A reflexão político-social sobre os tempos que correm é bem visível.

Arrábida8 de Pedro Martins é um conto curioso. Arrepiante, a visão de um futuro euroasiático sujeito a ideais de conformidade perante o sistema, punível com um reiniciar de personalidades que elimina as memórias que fazem o ser. Intrigante, o conceito de uma espécie primitiva que sobreviveu nos fundos oceânicos e graças a um cataclismo vulcânico colonizou o estuário do Sado. E muito interessante o imaginar de uma Setúbal e Tróia futuras, mesclando as memórias visuais do presente com um futurismo de sabor asiático. No entanto o conto é pouco coerente. O mergulho no jargão futurista é prematuro, feito antes de termos uma indicação de como está estruturado o mundo ficcional, e o conto intui mais do que revela, ficando algo fragmentado.

Somos Felizes, por Sara Farinha, tem o seu quê de dualismo adolescente em extremos. Num futuro demasiado próximo do presente a obrigatoriedade da felicidade é absoluta. Emoções negativas são consideradas doenças, e aqueles que persistem em sentir tristezas acabam como cobaias de neurocirurgiões que querem perceber o porquê das resistências à felicidade induzida por terapias e químicos. É refrescante ler algo cujo ideário é tão a preto e branco, cheio de absolutas certezas que se esquivam às necessárias gradações conceptuais. Um conto simples e eficaz, que vai sempre muito direito ao assunto e não se desvia um milímetro do seu fio condutor.
Profile Image for Alexandra Rolo.
Author 18 books45 followers
January 3, 2015
Por Mundos Divergentes é uma das antologias da Divergência.

A sua capa é interessante, no entanto, na minha opinião tem demasiadas letras tornando-a algo confusa à primeira vista. A impressão prejudicou também as poucas fotografias existentes tornando-as demasiado escuras sendo quase impossível reconhecer alguns dos participantes. Apesar de interessante, a nota sobre a antologia é totalmente desnecessária no livro, podendo estar apenas no site da editora.

A idea da publicidade, no interior, é interessante mas o facto de parte ter deadlines faz com que se torne pouco prático caso alguém compre um exemplar após o término das submissões.

As ilustrações de cada conto têm níveis de qualidade muito muito distintos uns dos outros sendo que, quando comparados, alguns têm um traço demasiado amador.

Relativamente aos contos a qualidade é bastante semelhante entre eles, sendo que apenas o da Ana C. Nunes (Dispensáveis) se destaca dos restantes.

Esta antologia é uma leitura leve e um trabalho interessante da Divergência, que está ainda a dar os primeiros passos.

in: http://folhaembranco.blogs.sapo.pt/po...
Profile Image for Ana.
Author 21 books104 followers
December 13, 2021
Podem ler a opinião completa no blog: http://florestadelivros.blogspot.pt/2...

Esta antologia reúne uma série de contos distópicos (futuros em que a humanidade não está no seu melhor, o oposto de utopia, embora um dos contos seja, em essência, utópico), passados no nosso Portugal.
A premissa chamou-me logo a atenção (e refiro-me a antes de eu própria submeter um conto à antologia, claro).
Ora, como sempre, vou dar a minha opinião conto a conto, em baixo, mas no geral foi uma leitura muito interessante. Diferentes visões do que poderá ser o futuro do país e da humanidade. Uns mais tecnológicos, outros mais rurais, mas todos com boas histórias.
A nível de design, devo dizer que gosto bastante da capa, em contraste com a contra-capa que desgosto por ser praticamente ilegível. O interior do livro está muito comprimido e poderia estar mais bem organizado, de forma a ser mais apelativo. Quanto às ilustrações interiores, mencionarei cada um dos trabalhos juntamente com os contos (de forma individual), visto que cada história foi interpretada por um ilustrador diferente.
No geral recomendo pois as histórias são bastante boas e acho que quem tem curiosidade sobre o tema, e as raízes portuguesas que este contém, irá ser agradavelmente surpreendido.
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