Avisos: quem estiver apenas interessado nos contos é melhor saltar os próximos 4 parágrafos. Além disso, as opiniões contém alguns spoilers e alonguei-me um pouco mais nelas do que esperava.
O segundo trabalho da Editorial Divergente começa bem, com capa e contracapa muito mais apropriadas à antologia do que as usadas em “Na Sombra das Palavras”.
O mesmo não se pode dizer de insistirem em a aglutinar índice, apresentação da antologia (abusivamente generalista) e da editora numa única página, mesmo sob a égide de “cuidar do planeta”.
Ou da publicidade. Não me incomoda o uso de publicidade em livros, ainda para mais quando se tem o cuidado de a sincronizar com o tema da antologia (good job, btw), o meu problema é com a escolha do que se publicita. Simplificando: pedido de manuscritos para a editora em geral; indicar obras já lançadas ou anunciar as que serão em breve (data incluída), tudo bem, faz sentido. Pedidos para antologias específicas, algumas das quais cujo prazo acaba basicamente um mês depois do lançamento: nop. Faria sentido numa publicação periódica, não num livro. Por reduzido que na prática seja o tempo de prateleira médio de uma obra, um livro, ao contrário de a revista ou jornal, é feito com uma maior longevidade em mente. Que sentido fará para um leitor que o adquira daqui a 3 anos algo como “antologia X, tema Y, submissões até 31 de Outubro”?
Still, isto acaba por ser insignificante face ao que realmente interessa: os contos. Onde verão que as três estrelas na contracapa são mais que proféticas.
“Patriarca” escrito por Ricardo Dias e ilustrado por Rui Miguel Gomes (2,5 estrelas)
Quanto mais credível maior é o impacto de uma distopia no leitor. Nesse sentido o autor começa muito bem, pois os seus processadores metacognitivos de classe alfa e os nanochips de vigilância, que fazem dos olhos e ouvidos de cada cidadão parte do sistema de vigilância do Patriarca, estão próximos o suficiente da realidade possível para nos preocupar.
De facto, o mundo apresentado é-nos familiar, já vimos alguns dos seus elementos antes. Dirão que isso é natural, que a maioria das distopias são parecidas pois os autores bebem inspiração das mesmas fontes. Deixarei ao vosso critério se neste caso isso é um ponto positivo ou não.
A mim, por exemplo, as semelhanças entre os Sentinelas daqui e the Watchers de “Fringe” deixaram de pé atrás. Exemplo: “Hesita um breve momento, inclinando a cabeça para o lado quase imperceptivelmente, como se estivesse a escutar algo que eu não consigo ouvir”. Será um piscar de olhos propositado? Se sim, lamento, por mim não fez nada.
Como um todo, o conto não é mau, só gostava que o estilo narrativo tivesse mais show e menos tell. A distopia é-nos muito bem explicada intelectualmente, sem falhas de maior, mas quase nada a nível emotivo, o que é particularmente estranho tendo em conta que foi narrada na primeira pessoa. Isto acabou por tirar muito do impacto aos previsíveis twists.
No final, a cedência do protagonista é demasiado rápida e seca, tendo em conta as divagações na página 9 sobre o que diz ter sido a sua reacção a “1984” de Orwell (btw, caso não tenham lido, este conto contém alguns spoilers sobre o clássico).
No que diz respeito às ilustrações, não destoam do narrado, embora também não lhe acrescentem valor, sendo mais juvenis que o conto.
“Em Asas Vermelhas” escrito por Nuno Almeida e ilustrado por Ana Santos (3 Estrelas)
A versão ternurenta de uma revolução num mundo distópico. Sensação que a ilustradora captou na perfeição com um traço desprovido de subterfúgios, simples e eficaz, mais emotivo que visual.
Mais uma vez o mundo ardeu e a peça que saiu da grelha foi uma sociedade extremamente racista, que o autor soube explorar, embora, por incrível que pareça, sem eliminar o sabor a “distopia Disney”. Mesmo que isto não seja necessariamente mau, não deixa de ser estranho. Menos questionável é o excesso de exposição e a necessidade de uma série injecção de naturalidade em certos diálogos. O mundo em si é simples, sendo nessa simplicidade que devia buscar força, não em explicações desnecessárias.
É uma narrativa clara, com bom ritmo e excelente a nível de transmissão de emoções, embora muitas destas últimas sejam mais leves do que seria de esperar.
“Dispensáveis” escrito por Ana C. Nunes e ilustrado por Manuel Alves (3,5 Estrelas)
Novamente, quanto mais chegada à realidade é a distopia maior o impacto. Mais chegado que este universo de austeridade e pseudo-salazarismos, tão cheio de pormenores sociais e culturais portugueses, é difícil. Muito além de apenas credível, muita da sua inspiração é factual e historicamente próxima o suficiente para nos deixar desconfortáveis.
A autora, muito bem suportada pelo traço simples e acutilante das ilustrações, fez um excelente trabalho na ligação do leitor ao protagonista e na transmissão de uma ambientação opressiva, desesperante e cruel. Uma verdadeira distopia, em que os sinais de esperança são tão pequenos e sufocados pelos eventos que ao piscar os olhos arriscamos a perdê-los.
O únicos defeito que posso apontar ao estilo narrativo é o facto de por vezes, muito ocasionalmente, a autora abusar na purple prose e/ou ser demasiado formal para as situações específica que o narrador participante vive. Ninguém cai das escadas e pensa “fui incapaz de processar a miríade de sensações que me abalroaram”, e ao fazê-lo está a levantar uma barreira entre si e o leitor. Felizmente, como disse, estes casos são demasiado raros para estragar o conto.
Já agora, por falar em dispensáveis, os primeiros parágrafos do primeiro capítulo “Zero Esperança” são. Não me oponho ao uso da velha técnica de “começar pelo fim” (com todas as previsões que isso oferece), só não acho que fizesse falta toda aquela infodump sobre o world-building e o protagonista, tendo em conta o bom trabalho de exposição no resto do conto.
“Arrábida 8” escrito por Pedro G. P. Martins e ilustrado por Leonor Ferrão. (3,5 Estrelas)
Admito que no início não associei o nome ao autor, mas assim que começou a falar de fauna ribeirinha fez-se luz.
É uma narrativa circular numa distopia cyberpunk ribatejana com um world-building muito interessante.
Infelizmente o mesmo nível de informação complexa e pormenores técnicos que ajudam na ambientação também tornam o ritmo do texto mais lento, o que talvez desmotive alguns leitores. Independentemente desses blocos mais extensos de informação, existem mesmo nódulos de infodump.
Quanto às ilustrações, a uma tecnicamente boa mas demasiado generalista para ter grande impacto na memória, segue outra muito apelativa, com um excelente jogo de sombras, cujo único defeito será a sensação que o pescoço da personagem está demasiado longo. Em todo o caso, ambas encaixam na perfeição no conto.
“Somos Felizes” escrito por Sara Farinha e ilustrado por Magdie Matias (3 Estrelas)
Apesar dos habituais vícios narrativos da autora (purple prose, “palha”, etc), progressivamente menores ao longo do conto, conseguiu pegar num conceito tão simples e fazer a distopia mais creepy desta antologia. Um mundo em que a felicidade, mais que um direito, é uma obrigação quimicamente assistida e sujeita a forte monitorização. Onde a pressão para ser feliz (segundo os padrões aceites pela sociedade), é enfiada pela garganta a toda a hora.
Embora mais longo do que o necessário, este conto conseguiu algo que nenhum dos outros quatro foi capaz: mostrar-me um mundo em que o suicídio como meio de fuga (a clássica solução dos romances distópicos) não só é uma hipótese razoável como desejável. Dez segundos nesta distopia e eu encostava logo a caçadeira ao céu-da-boca.
Quanto às ilustrações, embora os cenários representados façam sentido em relação ao conto, o traço imaturo acabou por prejudicá-lo. Sem sombra de dúvida os piores desenhos de toda a antologia.