Sabe quem eram os Bragas? Sabe que na rua a que legaram o nome, em Cedofeita, se esconde ainda hoje uma das mais notáveis e desconhecidas jóias da memória industrial do Porto? E que, a uma centenas de metros, a Rua do Breiner evoca um influente magistrado e político liberal que viria a morrer, em Lisboa, nos cárceres do absolutismo?
Se um dia descer, da Sé para a Ribeira, a estreita viela que dá pelo nome de Rua dos Mercadores, saberá que percorre o que foi, durante séculos, o lugar mais dinâmico do comércio citadino? E ao fundo, virando para a Rua do Infante D.Henrique, poderá recordar os marceneiros revoltados que, em pleno século XIX, ali se juntaram para destruir todo o mobiliário chegado do estrangeiro à alfândega portuense?
Imagina, ao olhar para as magníficas varandas de ferro forjado da Rua das Flores, que delas se assistia, antes do triunfo do liberalismo, ao cortejo dos condenados que iriam ser enforcados à beira-rio? E se daí subir à Vitória, e se deslocar em pensamento para os finais de Quinhentos, irá reconhecer, nessa figura esfumada com que poderá cruzar-se, um judeu que esconde a sua fé perseguida e se dirige à sinagoga clandestina que houve na Rua de S. Miguel?
São estas, e muitas outras, as memórias e segredos de que se faz a história do Porto contada através das suas ruas e praças, e dos nomes que a cidade lhes foi dando. O álbum "As ruas do Porto", que a Figueirinhas acaba de lançar, colige uma primeira selecção - referente ao centro tradicional da cidade - das crónicas que Luís Miguel Queirós dedicou ao tema durante alguns anos nas páginas do Público, e cuja divulgação em livro era há muito reclamada.
Trata-se de um volume profusamente ilustrado, em que os motivos e ângulos surpreendentes que se revelam nas fotografias de José Eduardo Reis valorizam a redescoberta de uma cidade que gosta de mostrar o que esconde aos olhos que a queiram ver. A edição contou com o apoio da Associação Comercial do Porto e do seu mensário O Tripeiro, no qual têm vindo a ser republicadas algumas das crónicas de Luís Miguel Queirós sobre as ruas do Porto e os seus nomes.