Gostei muito, mas tive o azar de lhe pegar depois de ler “Se Deus me Chamar Não Vou”, de Mariana Carrara. São ambos livros sobre o olhar de crianças sobre a sua vida, com a diferença de que no de Carrara a criança (Maria Carmen) relata o seu presente, e aqui, na “Filha”, de Manoela Sawitzki, o olhar é sobre a infância, adolescência, e vida adulta de Manu. Devia ter lido este primeiro porque leva com a injustiça de ser considerado menos bonito, apenas e só porque o outro é prosa poética, e este é mais cru (não deixando de ser excelente, até porque não há embelezamento, apenas a sobriedade de uma descrição “real” dos factos).
A vida de Manu, uma de 7 irmãos, é sufocante e muitas vezes hostil. O pai é um bêbado, violento, que não se ensaia nada em dar grandes sovas em toda a família (“bater é, afinal, poder”).
A cidade onde Manu vive é um lugar do qual ela quer fugir mal possa (um sítio pequeno, machista, patriarcal, sem perspectivas de futuro), e é isso que ela faz assim que pode. O seu crescimento é feito contra o que viveu, mas sob o trauma do passado. Inclusive, repete relacionamentos que perpetuam a subjugação de que foi alvo, mas vai-se conseguindo, apesar de tudo, libertar.
Quando o pai adoece, muda. Começa a dizer coisas que nunca disse, a preocupar-se como nunca pareceu preocupar-se. E é então que surge a ambivalência: sentir amor por alguém que foi violento, inimigo, até. Como é possível? Será que é “só” por ser pai? Será que a nossa memória nos atraiçoa e as coisas, afinal, não foram como nos lembramos? Afinal, “enquanto houver vida, haverá versões”.
Gostei muitíssimo e achei uma reflexão forte, esta do amor pelos pais, mesmo quando toda a vida foram opressores. Aquela velha ideia de que pai é pai (mesmo quando é uma bela merda). Quando fica sem ele, Manu diz: “a ausência definitiva, mais do que tudo, produz uma presença excessiva, insidiosa, que não se deixa coagular.” Se recomendo? Absolutamente.