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O Outro Lado dos Livros - Memórias de um Editor

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Talvez um dia, nos manuais e tratados de história da cultura e da literatura portuguesas, exista um espaço consagrado aos editores - ou seja, aos que dedicaram a sua vida à vida dos livros e à sua relação com os autores. As suas memórias são raramente reunidas, mas, quando isso acontece, resultam num misterioso e fascinante encontro em que participam todos eles e se fazem revelações deliciosas que tanto divertem como comovem os amantes de livros.

Em textos curtos, de fácil leitura (publicados anteriormente no semanário Expresso), Manuel Alberto Valente fala desses encontros com livros e autores como John Le Carré e Lobo Antunes, Milan Kundera e Paul Auster, José Saramago e Isabel Allende, Alona Kimchi ou Manuel Vilas, Pérez-Reverte e Svetlana Aleksievitch, Lídia Jorge e Luis Sepúlveda, Luísa Costa Gomes, Lygia Fagundes Telles e Erik Orsenna, Maria Velho da Costa, Mário Cláudio, Mário de Carvalho ou Javier Cercas.

224 pages, Paperback

Published May 22, 2025

30 people want to read

About the author

Manuel Alberto Valente

9 books1 follower

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Displaying 1 - 6 of 6 reviews
Profile Image for Paula Mota.
1,691 reviews576 followers
August 18, 2025
Quando se leem memórias, há que ter em conta que o respetivo autor pode inconscientemente fantasiar sobre aquilo que recorda ou esquecer episódios que para outros foram determinantes. Felizmente, há um texto judaico que diz que “se não soubermos esquecer, nunca estaremos livres da tristeza”.

Manuel Alberto Valente, de quem já conhecia a poesia, foi editor em várias chancelas de renome, como Dom Quixote, Asa e Porto Editora, onde conheceu e, como ele próprio refere, lidou com o ego de muitos escritores portugueses e estrangeiros, alguns muito famosos, outros mais irreverentes, como Carmen Posadas que, para afugentar a exagerada atenção masculina nas Correntes d’Escritas avisou de imediato que não gostava de intelectuais e que preferia camionistas musculados, ou Marie Darrieussecq, que abandonou um jantar dado pelo embaixador francês em Lisboa porque estava mais interessada em conhecer o Bairro Alto.
“O Outro Lado dos Livros” surge como uma compilação de crónicas publicadas na “Revista do Expresso” durante quase dois anos, as quais, por uma lógica qualquer que me escapa, não são apresentadas por ordem cronológica, o que provoca absurdos temporais como, por exemplo, falar de Milan Kundera ora como autor morto, ora como candidato ao Prémio Nobel, sem sequer uma nota de contextualização. Com a excepção dessa pequena irritação, trata-se de uma leitura muito agradável para quem gosta de “fait divers” e bisbilhotices sobre escritores/escritoras, uma espécie de cedência possível à imprensa cor-de-rosa para snobs literárias como eu, ainda que contenha reflexões muito pertinentes sobre o mercado editorial ao longo das décadas.

Quando, nos anos 80, publicámos na Dom Quixote ‘A Insustentável Leveza do Ser', de Milan Kundera, decorreu uma eternidade entre o momento em que soubemos do livro e a assinatura do contrato que nos permitia a sua tradução. (…) Carta para lá, carta para cá, quase um mês depois chegou-nos a informação de que, em correio separado, o livro estava a caminho. Quando chegou, demo-nos o tempo necessário para uma leitura consistente (…). Carta para lá, carta para cá, o contrato foi assinado tinham decorrido praticamente seis meses. (…) A prática é hoje habitual: receber-se por e-mail um original e, meia dúzia de horas depois, chegar um novo e-mail a informar que já há uma oferta portuguesa.

Se esta situação aponta para os muitos tiros ao lado que surgem nas livrarias portuguesas, também a ausência de uma exigente caneta vermelha na mão dos editores explica a falta de filtros que noto em muita da má ficção nacional.

Tais provas [de Paul Auster] vinham anotadas a tinta vermelha pelo seu editor americano; e, quando digo anotadas, quero dizer com longos excertos cortados, pontos de interrogação por todo o lado e comentários que ajudariam o autor a resolver melhor certas passagens. Habituado à prática então vigente em Portugal de que não se podia mexer nos textos de um autor consagrado, nem sequer tive coragem de transmitir o meu espanto.

Estas memórias de um editor com forte sotaque do Norte - formado em Direito mas com o coração nos livros, que se desenvencilha melhor em francês do que inglês, que evita andar de avião até mesmo em trabalho e é casado com a também editora e poetisa Maria Rosário Pedreira, o que dá origem a uma casa forrada de livros muitas vezes em duplicado - estão recheadas de episódios divertidos, mas reflectem também o panorama social e cultural de Portugal nas últimas décadas.
Figuras recorrentes nestas crónicas, de quem fala com uma saudade imensa, são Rosinha (Rosa Lobato de Faria) e Lucho (Luis Sepúlveda), sendo os episódios mais caricatos aqueles que se relacionam com jantaradas, com destaque para as caras de bacalhau para Julian Barnes e o linguado grelhado para Paul Auster. Especialmente bonita é a passagem sobre a posição digna de Amos Oz, que vale a pena recordar agora, em pleno genocídio.

Amos Oz combateu na Guerra dos Seis Dias e na Guerra do Yom-Kippur e, talvez por isso, foi um dos fundadores do movimento Paz Agora, que defendia a solução de dois estados (israelita e palestiniano) convivendo pacificamente lado a lado. Ele sabia que não seria fácil: numa entrevista que deu, em 2014 (…) dizia: “A ansiada paz não deve ser entendida como uma lua-de-mel, mas como um divórcio justo, similar ao de checos e eslovacos.” Lutou por isso até ao fim da vida e morreu sem ver esse sonho concretizado.
Profile Image for Jose Garrido.
Author 2 books24 followers
August 26, 2025
O Outro Lado Dos Livros - memórias de um editor, de Manuel Alberto Valente (uma espécie de lince da Malcata literário), foi duplamente uma surpresa. Desde logo porque me apareceu em casa, presente de uma amiga, e depois, porque o desconhecia.
É um livro de crónicas, o segundo que leio este mês: um género que não aprecio.
Mas este O Outro Lado Dos Livros tem aquele super-poder que nos arrasta para a leitura, uma variação literária da síndrome de Estocolmo. Impossível suspender a leitura.
Impressionado, mas não surpreendido, como a leitura desta obra evidencia a correlação, evidente, entre a existência de editores deste jaez e a qualidade do que se edita.
Recordou-me o filme Genius (2016). A história de Max Perkins enquanto editor da Scribner, onde trabalhou com autores como:Thomas Wolfe, Hemingway e Scott Fitzgerald.
Um tempo de menos processos IA e tábus na revisão, menos automatismos na tradução e mais critério nas escolhas.
Do livro, de leitura fascinante, respigo esta frase:
"Quando os autores deixaram de ser o centro e esse centro foi ocupado pelo leitor, começou o declínio da edição literária."
Ressoa?
Magistral!
Profile Image for Ministério dos Livros.
120 reviews45 followers
November 12, 2025
Quem gosta de livros, normalmente, gosta de livros sobre livros. Não sou exceção.

“O Outro Lado dos Livros - Memórias de um Editor” de Manuel Alberto Valente é um menu de degustação para quem gosta do mundo dos livros dos escritores, das feiras e afins. É uma visita aberta a um arquivo gigante de informação.

As histórias são múltiplas e sempre interessantes, partilhadas com grande capacidade de escrita, o que só aumenta o interesse para a leitor.

O livro é o resultado das crónicas escritas pelo autor no Expresso que, lamento não ter lido em tempo útil. Li agora, e sinto-me muito satisfeito por isso.

Se puderem leiam e recomendem a que gosta de livros. Vale muito a pena.

Uma última nota: falei do livro com mais algum detalhe no novo “Podequéste dos Livros” que anunciei aqui esta semana, caso queiram ir espreitar.
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