"Limitar-me-ei a evocar brevemente o mais inquietante e poderoso dos poetas ibéricos do século passado, Antero de Quental. Polémico desde o princípio, intenso poeta de ideias, isto é, movido e comovido por elas, Antero de Quental, atraído pelo idealismo alemão, depois pelo socialismo proudhoniano, o pessimismo de Eduard von Hartmann, e depois pelo budismo, morre em 1891. Nascido numa ilha, como Joyce, acabava de partir do continente, e tinha regressado, por fim, às suas origens, a São Miguel, quando se suicida. Numa carta de 29 de Dezembro de 1885, resumira com umas poucas palavras precisas a sua crescente alienação perante a própria vida, como se ele não existisse realmente, no meio de uma sociedade da qual ele próprio se tinha excluído. «Recebi a tua melancólica carta», escreve a Eduardo de Almeida Andrade, «Eu, no meio desta sociedade, da qual por assim dizer me exilei voluntariamente, é quase como se não existisse». Esta consciência do exílio interior, em pleno Portugal, vincula-o, sabemo-lo hoje, a numerosos poetas solitários, erráticos, niilistas, expatriates, de outras latitudes. Mas muitos anos antes, quando era jovem em Coimbra – recém-chegado dos Açores, como noutro momento Garrett – e lutava corajosamente contra os positivistas reinantes, já Antero escrevia a um amigo, Flórido Teles de Meneses, a 7 de Agosto de 1861, comparando favoravelmente a sua «desdita» naquele meio universitário com a de Ovídio entre os bárbaros:
«Deponho por um pouco o sudário de sensaboria com que me amortalho neste túmulo do bom-senso, chamado Coimbra, para saudar-te, amigo incomparável, desejando-te melhor sorte do que à fatalidade aprouve dar-me aqui, nestas regiões inóspitas, aonde, sem encarecer meus males, me julgo muito superior em desdita ao bom do Ovídio no seu desterro do Ponto – aqui, como ele diz, sou eu o bárbaro, que não me entendem – e digo eu, superior em misérias a Ovídio, pois que o Sulmonense ainda achava entre os Sicambros, ou o que eram, a suficiente inspiração para escrever aquelas Tristes, capazes de arrancarem lágrimas ao mais faceto jornal desta nova corte dos milagres chamada Universidade…»"