Quero destacar para memória as ilações sobre a loucura que constam da abertura do conto "A porta"
Há um significado subtil nas coisas, uma analogia grotesca na dissemelhança das suas almas que assombra a nossa razão. Mas, nas faculdades mais elevadas do homem, o instinto ainda prevalece–elas são ainda como que instintos –e alguns dos homens que são chamados loucos, ou porventura maníacos e sonhadores, observam as coisas mais próximas do seu ser e por isso sofrem e são amaldiçoados. Quando um pobre maníaco tem medo de uma maçaneta de porta, quando outro desmaia perante certa palavra pronunciada, ou perante certa palavra escrita, ou perante certo odor, quem sabe se ele não vê mais do que os outros homens para dentro da alma dessas coisas? Quem pode dizer que na sua intuição suprema ele não encontra o âmago de todo o instinto? Como pode ele nada recear,nada mesmo? Como pode existir uma emoção sem objecto, ou um fenómeno existir sem causa?
Certamente que um puxador de porta, ou qualquer palavra pronunciada, ou qualquer palavra escrita, ou qualquer odor não é, como nós o vemos, algo que possa causar medo. Se um homem encontra nele algo a recear é óbvio que a vê diferentemente de nós. Respondeis que é nele que reside a diferença, que o objecto, como ele o vê, está nele? Eu respondo que assim é o objecto como nós o vemos em nós. Prova-o a ciência, prova-o a razão. Cor, peso, luz, som –são relativos. Forma, tempo, espaço –também são relativos. Não existem coisas, mas coisas sentidas. Dizeis que ele é um e que nós muitos? Mas ele pode estar mais desenvolvido do
que nós, talvez ele esteja à frente de nós no processo de evolução. O primeiro homem que se libertou, de uma forma obscura e débil, sem dúvida, da sina da bestialidade foi um, e os seus semelhantes macacos eram em grande número; era o Seu conceito do mundo inferior ou superior ao dos macacos do qual tinha saído e perante os quais não passava de mais um?
Pois as ideias normais dos homens diferem das dos loucos ou em natureza ou meramente em grau. Se diferem em natureza, como podemos dizer que são anormais? Por que experiência deles os podemos condenar? Além disso, como podemos estar seguros de que eles não são a primeira aparição de uma nova forma de vida intelectual? E, além disso, é esta hipótese sustentável de todo? Pode algum homem diferir de outro homem na natureza das suas faculdades? Não. E se a diferença for apenas de grau, uma vez que todas as nossas concepções e percepções das coisas diferem de homem para homem, poderemos dizer onde está um louco? Fosse todo o homem juiz, e todos os outros homens seriam loucos. E se se disser que entre os homens normais há pouca diferença, mas muita diferença entre um homem normal e um homem que enlouqueceu, tudo o que tenho a dizer é que onde há apenas graus não pode haver distinção. Este homem é normal, e este outro homem é também normal, pois difere dele em muito pouco; e este terceiro homem também, porque ele pouco difere do segundo homem, que é normal,e,sucessivamente,em graus imperceptíveis, sendo todo o homem normal, até que nós, comparando o último homem que achámos normal com o primeiro, aquele de que partimos, achamos que eles estão tão distanciados como o estão o “louco” e o "homem normal”. Que podemos então dizer acerca dos loucos? Podemos dizer, sem erro, que eles erraram? Podemos afirmar com toda a convicção que estes seres infelizes, pelos seus delírios e pelos seus medos, não estão mais próximos das mais que razões e mais do que causas enraizadas no espírito das coisas?
Uma esperança permanece, porém, à luz da evolução e do progresso, de que aquilo
que é instinto no animal se tornou em nós pensamento e consciência, o que agora é em nós instinto sofrerá uma similar transformação no sentido do ser ideal e mais elevado em que almejamos tornar-nos. A raça do amanhã compreenderá. O dia da compreensão ainda não chegou.
Aqueles que em instinto ultrapassam sua escala de evolução, aqueles cuja revolta forçada contra a normalidade tocaram intimamente e sem conhecimento o mistério do universo, porque é que não podem eles saber mais do que isto –que eles sentem e que por esse motivo estão amaldiçoados. Se um cão pensasse como nós (hipótese impossível), não o considerariam os seus irmãos uma companhia doente, não o afastariam por acaso, possivelmente não o matariam? Fá-lo-iam(quem duvida de que eles o fariam?),porém,a sua vítima estaria mais próxima da verdade. O mesmo se passa connosco. E certamente como o animal que imagino mergulharia interiormente em mil complicações e horrores perante a presença de um novo elemento em si, para além da sua natureza, aqueles que sabem mais do que os seus irmãos humanos são dilacerados por medos invulgares, assombrados por fantasmas e por sonhos. E, tal como o cão,pela sua baixa condição em relação ao seu instinto humano, pensando, não saberia que pensava, apenas sentiria que pensava, mesmo assim, eles, os loucos, sabendo algo mais do que os outros sentem que sabem apenas por horrores que não podem ser ditos, por medos que não podem ser nomeados.
Um homem que tem medo, tem medo de alguma coisa; um homem que deseja, deseja alguma coisa, por muito obscura que seja a sua compreensão do seu medo ou do seu desejo. Quando o que um homem receia, odeia, deseja é uma coisa que podemos compreender como um objecto ou como uma causa desses sentimentos, algo que podemos recear, odiar, desejar, nada mais dizemos desse homem senão que ele tem medo, odeia, deseja. Mas quando o que um homem receia, ou deseja, ou odeia, é uma coisa que não podemos compreender como um
estimulante da emoção, ou que deveríamos ser incapazes de recear, de desejar ou odiar, declaramos esse homem louco. Como tudo isto é falacioso e falso! Que raciocínio de perfeitas bestas! Imaginem um homem amável e bem educado, que é conhecido como tal, eeu, que o conheço melhor, estou consciente de que ele é mau, assim sendo sem dúvida o seu carácter. Quando eu vos digo que ele é mau, eu parecerei um louco, e isto porque eu vejo mais longe do que
vós.No entanto, eu não compreendo mais do que a verdade, mas são vocês que compreendeis menos. Persuadi um homem saudável que não tenha conhecimentos de química de que a água é composta por dois gases. Convencei um negro inteligente de que o sol não
se move na abóboda celeste. Não conseguis. O que um homem vê, tanto física como mentalmente, acredita e o que não vê não acredita. Um homem acredita na medida em que vê e nada mais. No mundo físico há decerto telescópios e microscópios que ajudam qualquer um, que dão os meios para se ser convencido. No mundo moral não há nem telescópio nem microscópio nem arte de espécie alguma para ajudar aquele que não vê suficientemente. Os olhos do intelecto –infelizmente para eles! –não têm oculista. Eles vêem como foram feitos para ver.
Não digais então que alguém que se arrepia perante uma unha, alguém que se perturba perante um sapato, alguém que tem horror a espaços vazio,é louco. Não digais que o místico delira, nem que nada segue o homem que diz ser perseguido. Não digais nada, porque, em primeiro lugar, não sabeis –porque ninguém pode dizer –o que é ser louco, e, em segundo lugar, os estados de alma desses homens estão à nossa frente e porque vocês são relativamente cegos, relativamente com falta de sentido. Nem digais sequer que as fantasias mais selvagens, que os sonhos mais extravagantes são falsos. Não, porque eles são verdadeiros, verdadeiros como o sol e as estrelas, verdadeiros como o mundo que conhecemos e que é nosso amo.
Porque nós não sabemos quem sonha, nem como ele sonha, nem que sonhos são ou o que significa sonhar. Alguns parecem sonhar mais do que do que nós, e são chamados loucos; no entanto, nós mesmos sonhamos, e eles, sonhando mais, sonha menos quem se esforça por apagar de todas as coisas a mácula da sua concepção.