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Poesia Crítica 1930-62

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O livro Poesia (1930-62) reúne os dez primeiros títulos da obra poética de Carlos Drummond de Andrade. No arco que vai de Alguma poesia (1930) a Lição de coisas (1962), consensualmente a parte mais importante da sua obra, o poeta mineiro afirmou uma voz própria, tornando-se um paradigma na literatura brasileira.

Esta edição parte do pressuposto de que a obra do Drummond merece o tratamento reservado aos clássicos. Apresenta o resultado de cerca de dez anos de trabalho da equipe de pesquisadores coordenada por Júlio Castañon Guimarães, da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, instituição que abriga o arquivo do poeta. Este trabalho teve como objetivo o estabelecimento fiel dos textos dos poemas, com base no cotejo exaustivo de originais preservados, da localização de versões publicadas em 80 jornais e revistas de época em 15 cidades brasileiras, bem como das sucessivas reedições da obra de Drummond.

Poesia 1930-62 constitui o que se chama de “edição crítica”, do interesse de todos os que desejam se aprofundar na obra do poeta, sem deixar de ser útil ao leitor comum. Através do levantamento das variantes, organizadas nas notas de rodapé, é possível reconstituir elementos do processo criativo que levou às versões finais de cada poema. Outros dados levantados pela pesquisa nos arquivos, tais como local, data, tipo de publicação, assinaturas sob pseudônimo, permitem reconstituir, com riqueza de detalhes, o contexto em que os textos vieram à luz. Como complemento, a edição traz reproduções de originais e de versões corrigidas pelo autor além de dez resenhas de época. Na literatura brasileira, até o momento, apenas a obra de Machado de Assis tinha sido objeto de cuidados filológicos como os desta edição.

Títulos reunidos: Alguma poesia (1930) Brejo das almas (1934) Sentimento do mundo (1940) José (1942) A rosa do povo (1945) Novos poemas (1948) Claro enigma (1951) Fazendeiro do ar (1954) A vida passada a limpo (1959) Lição de coisas (1962).

1056 pages, Hardcover

First published January 1, 2012

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About the author

Carlos Drummond de Andrade

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Carlos Drummond de Andrade foi um poeta, contista e cronista brasileiro. Formou-se em Farmácia, em 1925; no mesmo ano, fundava, com Emílio Moura e outros escritores mineiros, o periódico modernista "A Revista". Em 1934 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu o cargo de chefe de gabinete de Gustavo Capanema, Ministro da Educação e Saúde, que ocuparia até 1945. Durante esse período, colaborou, como jornalista literário, para vários periódicos, principalmente o Correio da Manhã. Nos anos de 1950, passaria a dedicar-se cada vez mais integralmente à produção literária, publicando poesia, contos, crônicas, literatura infantil e traduções. Entre suas principais obras poéticas estão os livros Alguma Poesia (1930), Sentimento do Mundo (1940), A Rosa do Povo (1945), Claro Enigma (1951), Poemas (1959), Lição de Coisas (1962), Boitempo (1968), Corpo (1984), além dos póstumos Poesia Errante (1988), Poesia e Prosa (1992) e Farewell (1996). Drummond produziu uma das obras mais significativas da poesia brasileira do século XX. Forte criador de imagens, sua obra tematiza a vida e os acontecimentos do mundo a partir dos problemas pessoais, em versos que ora focalizam o indivíduo, a terra natal, a família e os amigos, ora os embates sociais, o questionamento da existência, e a própria poesia.

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Profile Image for Márcio.
684 reviews1 follower
July 25, 2021
O volume alcança os 10 primeiros livros de poesia publicados por Carlos Drummond de Andrade entre 1930, com o seu primeiro livro, Alguma poesia a Lição de coisas de 1962, e como obra crítica apresenta uma interessante introdução, além de um um ótimo texto final, esclarecendo a complexidade de se apresentar uma edição crítica drummondiana, pois a maioria de suas fontes são compostas por publicações feitas pelo poeta em periódicos, os quais poderiam (e assim ocorria) passar por alterações posteriores. Raros são os manuscritos deixados. Essa compilação crítica por si só já valeria todos os aplausos, visto que a produção editorial brasileira aparentemente não preza tanto por tais estudos.

A escrita da poesia, diferentemente do que pode parecer, é mais no que apenas sugere do que exatamente o que se escreve. As palavras alçam voo, representam um sentido mais vasto do que a palavra em si. Não é apenas o seu efeito lírico ou estético. Métrica ou livre, a poesia transcende.

E transcende a poesia de Drummond, que por si é um espanto, do modernista em Alguma poesia, poeta voltado para si, itabirano, do mundo de ferro, do humor, da sensualidade, da ironia

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história


para uma evolução constante, de um poeta já voltado para o mundo, embora por vezes volte a si mesmo, também por vezes deprimido, amargo, mas sempre nesse voo à procura da poesia, do fazer poético. Já em seu terceiro livro, Sentimento do mundo

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo (...)


De José, do livro de mesmo nome, pleno de solidão, de desalento

(...)
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?


Ao Amar de Claro enigma, em um embate entre o instante e a eternidade

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o amar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.



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