Premiado romance de estreia de Ana Luisa Escorel, Anel de vidro é um livro sobre casamento e infidelidade, mas é também uma narrativa sobre classes sociais e suas implicações na vida amorosa. É, ainda, um romance que examina a dinâmica das relações, pondo em xeque a ideia da mulher como enigma. A narrativa se divide em quatro cada uma conta a história segundo a perspectiva de um personagem, de que, é preciso dizer, o narrador guarda distância irônica, qual um cronista privilegiado da vida alheia.
Achei a premissa super interessante e a forma como o livro contaria a história (cada capítulo com a perspectiva de um dos envolvidos mas tive muita dificuldade de me identificar com os personagens e com a sensação que não entendi nada. Ela tem uma escrita rebuscada, o que interessante, mas se torna muito cansativo ao longo do livro. O fato do mesmo acontecimento ser contado algumas vezes mas de perspectivas diferentes é uma ótima ideia. Porém, o livro num geral não funcionou pra mim.
Quando cheguei na metade de Anel de Vidro e encontrei a perspectiva da Mulher Traída, quarto membro de dois casais em crise matrimoniais, pensei que tinha, finalmente, vislumbrado um bom livro, depois de dois capítulos (A Amante e O Homem em Crise - nomeados por mim, porque não há título ou, até mesmo, o nome dos personagens) um tanto enfadonhos.
Bom, o que me incomodou nesta obra de Ana Luísa Escorel (filha de Antônio Cândido!) foi a falta de profundidade dos personagens. Os quatro, maridos e esposas, encontram-se num labirinto de casos e insatisfações matrimoniais. Gosto destes tipos de temáticas porque são muito humanas. Crise e casamento andam de mãos dadas, não é mesmo?
A complexidade que promete o esboço da narrativa, no entanto, nunca é encontrada. O livro tem um tom um pouco confuso em relação às tentativas (?) de discussão sobre nascer em um berço de ouro e sobre o caráter de famílias endinheiradas.
Muitas vezes, confesso que fiquei confusa: é para nós, leitores, sentirmos mais compaixão por algum personagem? Pergunto porque a burguesa Traidora, primeiro capítulo do livro, possui a profundidade de um pires. Senti por ela um desgostar desinteressado, distante, adjetivo esse que resume bem os protagonistas da obra.
Os homens também não se saem bem. O Homem em Crise é pedante. O Traído, último capítulo, é, talvez, um pouco mais interessante (graças à sua narrativa de jovem pobre que vai para a cidade). A que mais me atraiu foi a Mulher Traída, a única, acredito, que traz um pouco de humanidade para a obra, mesmo que ainda não tenha sido o suficiente para me conectar com estas pessoas e esta história.
O meu incomodo reside no caráter destes personagens. Deveria me importar com eles? Ou é apenas um livro um tanto distante, quase irônico, ao destino de homens e mulheres em crise? É para ser algo meio pós-moderno, de acordo com as referências ao livro de Marshall Berman?
Não consegui, por fim, sentir algo por esse livro. Esperei até o último minuto uma veia mais pungente, nem que seja algo atroz, para sentir as batidas do coração desta obra.