Algo tenebroso se move por baixo do bosque. E no coração de todos os habitantes de uma estranha vila.
1888. Alfreda, uma jovem de vinte e três anos, abandona a sua cidade natal depois de terminar abruptamente a relação com aquele que seria o grande amor da sua vida. O escândalo é enorme, e os seus pais, preocupados com a reputação e o futuro da filha, desaprovam seriamente essa decisão. Alfreda acredita poder encontrar o refúgio e a paz de que necessita em Fim da Caixa, uma vila remota, onde se acomoda na casa de uns tios, donos do único matadouro da região.
Mas logo no primeiro dia da sua estadia, coisas estranhas começam a acontecer na vila. Até os habitantes, num momento simpáticos e solícitos, podem tornar-se repentinamente hostis e furtivos. Quando, certa noite, Alfreda sofre um misterioso ataque do qual mal sobrevive, percebe que Fim da Caixa esconde algo sombrio. Hesitante entre regressar à casa dos pais, ou permanecer para desvendar os mistérios do passado da vila, a jovem opta pela decisão mais arriscada. O que descobre é algo tenebroso e, agora, talvez seja demasiado tarde para salvar a sua vida… ou sequer a sua alma.
“A Lenda das Quimeras” é daqueles livros que te agarram do início ao fim. Patrícia Fernandes constrói uma história cheia de mistério e suspense que nos faz questionar cada personagem e situação. A trama desenrola-se de uma maneira imprevisível e há sempre aquela sensação de que algo muito mais sombrio está por trás de tudo!
Este é mais do que um simples livro de terror; é uma história que nos faz pensar sobre como o medo pode realmente destruir uma comunidade, e como a desconfiança muda as pessoas. É uma leitura ótima para quem gosta de um bom susto e de uma reflexão sobre os tempos que vivemos. Recomendo vivamente!
A minha parte favorita da história foram as investigações da Alfreda com o Gustavo. A parte onde ainda praticamente nada se sabia, onde o mistério e o medo estavam instaurados. A Alfreda é sem dúvida uma personagem incrível. A curiosidade dela é sempre mais forte que o medo que sente, recusa-se a ficar na ignorância, o que a leva a descobrir tudo no final. Tenho todo o cenário da Vila, do bosque, da Torre e da cripta na minha cabeça. Muito fácil de imaginar tudo a acontecer. Uma atmosfera misteriosa e assustadora de noite, mas bonito e agradável de dia.
Uma história bem contada, que me deixou em momentos entusiasmada e noutros me deixou ansiosa e temente com o que poderia acontecer.
Uma boa história de monstros, portuguesa. Senti uma pequena inspiração em Frankenstein, que me alegrou bastante. Para o final do livro também me quis parecer que houve inspiração no Jack O Estripador.
Sinto que apesar de a Alfreda amar o Afonso, a sua alma gémea é mesmo o Gustavo, torci pelos dois até ao final, e mesmo permanecendo amigos, fico feliz que não tenham saído do lado um do outro. Foi um prazer ler este livro. 🖤
This entire review has been hidden because of spoilers.
Um romance gótico português passado numa vilazinha esquecida cheia de segredos em 1800 e tal, com uma protagonista fixe, escrito num estilo poético, filósofico e absolutamente delicioso??? Soube logo que ia adorar este livro!
****O enredo:**** Em 1888, após um desgosto amoroso e ávida por começar a sua carreira enquanto advogada, a jovem Alfreda Lencastre muda-se da capital, onde vivia no conforto, luxo e riqueza da casa dos seus pais, para a casa dos tios, donos de um matadouro, na humilde Vila do Fim da Caixa. A princípio, a vila parece um local pacato, ideal para recomeçar do zero e mudar de ares. Mas depressa Alfreda se apercebe de rumores estranhos e hostilidades crescentes nesta vila onde nada é o que parece, e, juntamente com o seu amigo Gustavo, é arrastada para uma teia de mistérios macabros cada vez mais complexos e sufocantes.
****A minha opinião:**** O cenário e world building de uma vila rural portuguesa oitocentista? Incrível. A revelação gradual do leque de personagens obscuros que habitam a vila? Incrível. A dinâmica entre Alfreda e Gustavo? Incrível. O estilo literário mega poético e filósofico, que brilha não só na narrativa, mas ainda mais até nas cartas misteriosas que servem de interlúdio entre capítulos? Incrível. O suspense com o mistério dos animais desparecidos, com pormenores cada vez mais mórbidos que nos são revelados aos poucos? De fazer virar páginas compulsivamente. O conflito interno de Alfreda em relação ao charmoso Afonso, a ambiguidade de um amor que a faz delirar mas também a mata lentamente por dentro, porque o rapaz ama apenas uma versão polida e filtrada de quem ela é? Demasiado real, miúda, já todos passámos por isso.
Não consigo expressar o quanto adorei "A Lenda das Quimeras", pela sua ambiência, estética e pelo vislumbre das vidas internas e emoções das personagens, sobretudo de Alfreda. Sinto que este livro era o nicho específico de "Mary Shelley meets Jane Austen" que eu nem sabia sequer de que precisava. Os meus parabéns a Patrícia Fernandes por ter escrito exatamente o tipo de livro que muitos nós gostaríamos de ler, ainda para mais numa idade tão jovem.
Para terminar, incluo duas (de muitas) citações que adorei:
"Já imaginaste, Alfreda? Se nos achássemos donos da eternidade, possivelmente não teríamos descoberto o abraço; o segurar o outro com toda a ternura da qual somos dotados. Seríamos supérfluos, criadores de corações retalhados por uma imensidão de amores que viriam e iriam; seríamos alheios à tão bem concebida ideia do amor verdadeiro, eterno e único. Os romances não seriam romances como estamos habituados, seriam mais uma história a somar a tantas outras que viveríamos. O aborrecimento assim o ditaria, assim nos governaria e guiaria a emoções voláteis, passageiras e sem peso. É tão bendita quanto maldita esta coisa de morrermos e vermos morrer." (p. 168)
"(...) mal podia esperar por meter os pés fora da cama e viver novas histórias que encheriam a minha velhice com memórias de uma vida bem vivida (...)" (p. 169)
While the horror elements of this book were interesting, and the setting was described in a way that truly managed to transport the reader there, overall I did not have a good time reading this book. I found Alfreda to be a very typical protagonist for books set during that time period, which made her quite boring to me, and there was so much focus on romantic relationships, that I just didn't care for. The idea of her still being in love with that specific guy at the end of the book was genuinely sad to me. I also prefer my characters in historical settings to challenge more of the norms of their times than Alfreda did. The ending was not satisfying, some things I had been theorizing about and really wanted to know the solution for, weren't even answered properly, and others were resolved in ways I wasn't a fan of.
Quero desde já saudar a autora, Patrícia Fernandes. Há bastantes anos que procurava bons livros, escritos por portugueses, dentro deste género. A Lenda das Quimeras é claramente um livro que foi escrito com muito carinho, muita dedicação e um grande investimento pessoal e emocional. O destaque do livro é sem dúvida a Alfreda e a forma como foi escrita, que é repleta de originalidade e criatividade. O resto do livro é carregado de noções poéticas e com alusão ao romântico. Há momentos estranhos, momentos fora da caixa e momentos onde soube bem voltar atrás para dissecar as camadas do livro - tudo coisas que aprecio no género mas feito de forma completamente diferente do que estou acostumado. É também difícil encontrar um bom livro, que não seja alvo de análise extensiva, algo que também acrescenta ao secretismo e mito da Vila do Fim da Caixa. O segredo da vila é de quem lê o livro e existe fundamento suficiente para interpretar vários acontecimentos de formas diferentes, consoante o leitor.
No que toca à narrativa em si, o crescendo em torno do mistério é excelente. Na minha opinião, as maiores inconsistências do livro devem-se ao facto de por vezes se exceder no quão vago o papel de algumas personagens é. Acredito que, na maior parte das vezes, acontece com intenção, embora pudesse acrescentar à satisfação de quem lê se, em alguns destes momentos, houvesse maior consistência, menos vazio. O mesmo para as partes mais conclusivas da narrativa. Ainda assim, diz-se que um bom livro precisa de boas personagens e se o meu tempo não fosse escasso, a dualidade entre a Alfreda e a autora seriam merecedoras de um estudo de caso.
Parabéns e obrigado enquanto leitor! Espero que a autora continue a escrever!
A história tem potencial, a escrita da Patrícia é agradável, com alguns detalhes bonitos, o tema é pouco usual na literatura portuguesa (terror gótico?) e dá para perceber as influências de Mary Shelley e Conan Doyle.
No entanto, achei que a história precisou de mais acompanhamento e revisão, principalmente na primeira metade. Há diálogos que podem ser melhorados, as descrições de tempo e espaço não me fizeram viajar no tempo (1888). Não entendi o porquê do uso do itálico num terço do livro, não sei se foi escolha da autora ou erro de edição/revisão, mas distraiu-me muito esse detalhe, dei por mim a tentar entender o porquê de ter uma frase inteira em itálico no meio de um parágrafo de descrição, por exemplo.
Fiquei também confusa (mas isso deve ter sido problema meu) com a origem das cartas e o seu remetente.
No geral, foi uma leitura agradável. Tenho pena que não tenha tido o cuidado devido por parte da editora, porque o potencial e talento da autora estão lá.
O que me surpreendeu no início foi como, em poucas palavras e frases, comecei logo a simpatizar com a sua protagonista, Alfreda, o que é fundamental para um livro de ficção alternativa como a fantasia, o horror , ficção científica, gótico, etc.
Embora se pudesse caracterizar a escrita da Patrícia como simples, acredito que ela a utiliza de maneira bastante inteligente de forma que a conversa entre escritor e leitor - como diria Stephen King - se estabeleça rapidamente. De modo a que a imersão do leitor nas suas personagens e nos seus dramas, nas suas esperanças aconteça sem dificuldade.
Acredito que "A Lenda das Quimeras" é uma história sobre confrontar o passado. Sobre confrontar a forma como as feridas de acontecimentos trágicos ou de algo que nos foi feito pode "infetar-nos". Entender que muitas vezes, quando acontece algo que define o nosso passado, nem sempre temos a maturidade e a clareza para o entendermos e crescermos com isso. E alertar, ao mesmo tempo, o que pode acontecer se ficarmos presos num ciclo vicioso dessas feridas. Como essas feridas nos amaldiçoam, como podem destruir as nossas vidas, se transformam em "monstrinhos" que, lentamente, libertam pus para o nosso coração.
Para esse efeito, a autora utiliza elementos do gótico de maneira bastante hábil. Escreve com maturidade e confiança, com uma voz bastante fincada. Leitores que gostem desse género certamente não ficarão desapontados com este livro e encontrarão uma familiaridade nas suas páginas, ao mesmo tempo que conseguirão ver como a autora escreve uma protagonista forte e complexa, dotada de fortalezas e falhas - tal como todos nós.
Por isso, fico a aguardar ansiosamente para ler as futuras histórias da Patrícia.