Em livro preciso, Lilia Moritz Schwarcz analisa o fenômeno social e cultural da branquitude a partir de suas manifestações simbólicas e iconográficas.
"Ninguém lê livremente e sem as lentes e códigos da sua cultura." A maneira pela qual as imagens nos afetam é condicionada por esquemas visuais – em geral nada inocentes – que nos foram transmitidos, e que carregam uma interpretação específica daquilo que é representado. Em Imagens da branquitude , Lilia Moritz Schwarcz analisa uma iconografia múltipla, do século XVI ao presente, passando por mapas, monumentos públicos, fotografias, publicidade, e, a partir do exame detido desses testemunhos, identifica como são atravessados por práticas racistas, buscando "desnaturalizar" essas concepções. Muito mais do que uma análise meramente iconográfica e recortada, esta é uma história, na longa duração, de como a branquitude se manifestou simbolicamente, em especial por meio da visualidade, de modo a estabilizar um ambiente de hierarquização ou estruturas de subordinação. A presença forte mas racialmente ausente dos brancos nesses registros visuais, com o decorrente pressuposto de que seriam o normal ou o intrinsecamente dominante, assoma como ponto central deste livro necessário, que nos convida a olhar para essa produção imagética e fazer o exercício de lê-la na contramão.
"Eis o superpoder da ser, ao mesmo tempo, invisível e onipresente. Suas teias de privilégios integram a paisagem do país do racismo por denegação. Neste livro, Lilia Schwarcz propõe um antídoto poderoso para desvendar a capa de invisibilidade que caracteriza a ler seus rastros em imagens que compõem nossa história e imaginário. Por trás de tantas imagens lidas aqui por Lilia há um país inteiro que ainda precisa se ver no espelho e que, por meio desta obra-prima, Schwarcz nos permite enxergar com a clarividência que nos faltava. — Thiago Amparo O "pacto das imagens" aludido pela autora nesta obra tão importante é desnudado a partir de uma leitura de representações visuais da branquitude, as quais ao longo da história criaram imaginários que naturalizaram a supremacia branca e a acumulação de riquezas por esse grupo. O esforço de Lilia em desconstruir essas categorias é revelador do provérbio que ela mesma "Eles que são brancos já não se entendem", pontuando ser essencial demarcar um outro lugar que pode ser ocupado pelas pessoas brancas, o da transformação da profunda desigualdade racial brasileira como condição fundamental para o atingimento da democracia. — Cida Bento
Nasceu em 1957, em São Paulo. É professora titular no Departamento de Antropologia da USP. Seu livro As barbas do imperador - D. Pedro II, um monarca nos trópicos ganhou o prêmio Jabuti Livro do Ano, em 1999. Além deste, publicou também: O espetáculo das raças, O sol do Brasil (prêmio Jabuti de melhor biografia, 2009), D. João carioca - história em quadrinhos sobre a chegada da corte portuguesa ao Brasil, em coautoria com Spacca -, entre outros livros.
Imagens da branquitude: A presença da ausência é mais um trabalho de fôlego da antropóloga brasileira Lilia Moritz Schwarcz. É um livro enorme, mais de 600 páginas, carregado de ilustrações que são minuciosamente analisadas a partir do binômio negritude/branquitude para denunciar a diferença de tratamento entre essas duas representações identitárias. Ele tem uma apresentação visual muito bonita e, levando em conta tantas páginas coloridas, não é um livro caro. Também é um livro em que o leitor vai se enredar nas histórias por trás da imagens desveladas pela antropóloga e vai entender também como a imagem do Brasil - para si mesmo e para os outros, os estrangeiros - foi construída através da ausência da marca da branquitude nas imagens, porque ela sempre é tomada como universal por quem a representa. Por isso, para entender a branquitude, Lilia volta nossos olhares para a diferença exibida na negritude, como por exemplo, quando abre o livro, nos chama a atenção para a ausência de calçados nos negros, que denota diversos entendimentos que serão desvendados neste livro, até chegar às publicidades de sabonete do início do século XX. Um ótimo livro sobre a questão da cor da pele no Brasil e além.
Peter Burke, historiador inglês, propõe que as imagens devem ser interrogadas pelo observador como verdadeiras testemunhas oculares da História. Lilia Schwarcz defende algo similar, que vigiemos as imagens, dado seu potencial de criação de ideologias. Com uma impressionante pesquisa iconográfica, a autora analisa como a cultura visual esteve e está relacionada ao racismo. Mapas, pinturas, fotografias e campanhas publicitárias revelam o chamado pacto da branquitude, seja de forma explícita ou então daquilo que primordialmente não se queria revelar.
### Resumo do livro **"Imagens da Branquitude"** de Lilia Moritz Schwarcz
Este livro aborda o conceito de branquitude como um sistema de privilégios sociais e simbólicos que molda as relações raciais no Brasil. A autora, uma mulher branca, reflete sobre a invisibilidade histórica da branquitude, que é percebida como neutra e universal, enquanto as demais identidades raciais são classificadas e marcadas. Utilizando imagens históricas, obras de arte e fotografias, Schwarcz revela como a branquitude é naturalizada e perpetuada no imaginário nacional, reforçando hierarquias raciais e sociais.
O texto explora temas como: 1. Representações visuais que consolidam padrões de exclusão e privilégio. 2. O impacto do colonialismo e da escravidão na formação da sociedade brasileira. 3. Como monumentos, mapas e outras produções culturais ajudam a estabilizar as desigualdades raciais. 4. A relação entre branquitude e negritude como categorias interdependentes. 5. A importância de um letramento racial para desconstruir o racismo estrutural e avançar em direção a uma sociedade mais justa.
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### Cinco principais aprendizados do livro: 1. **Branquitude como norma invisível**: A branquitude não se reconhece como uma identidade racial, o que reforça seu poder, tornando-a a norma que classifica os "outros". 2. **Imagens como ferramentas de poder**: Representações visuais têm sido usadas historicamente para naturalizar a superioridade branca e a inferioridade de outros grupos. 3. **Racismo estrutural no Brasil**: Apesar de ser maioria numérica, a população negra no Brasil enfrenta exclusão social devido a mecanismos históricos que perpetuam a desigualdade. 4. **Reconfiguração do imaginário racial**: É possível e necessário ressignificar símbolos e narrativas históricas para promover uma visão mais inclusiva e justa. 5. **Letramento racial como caminho para mudança**: Reconhecer a branquitude e seus privilégios é essencial para combater o racismo estrutural e construir uma sociedade mais democrática.
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### Aplicações práticas para sua vida hoje: 1. **Autorreflexão**: Identifique como os privilégios da branquitude podem estar presentes no seu dia a dia, mesmo de forma inconsciente. 2. **Revisão de narrativas**: Questione as histórias e imagens que consome e como elas perpetuam desigualdades ou reforçam estereótipos. 3. **Atitude antirracista**: Participe ativamente na promoção de igualdade racial, seja ouvindo vozes negras, seja apoiando iniciativas que combatam o racismo. 4. **Educação contínua**: Leia e discuta sobre racismo estrutural e branquitude para compreender melhor os impactos dessas questões. 5. **Apoio à diversidade**: Incentive políticas e práticas inclusivas no trabalho, na educação e na vida comunitária.
4.5 Não é apenas um livro, mas sim um desnudar da nossa sociedade a qual relega suas infâmias à ausência. Senti durante a leitura que foi como deitar nosso país e nação no divã metafórico trazido por Lilia M. Schwarcz. De uma forma geral é uma obra ,apesar de o denso conteúdo, necessária para a formação cidadã. A meu ver ,uma das poucas falhas do livro foi o excesso de nomenclaturas e referências (embora fundamentais, tornam a compreensão fragmentada), contudo, como posto por João Cabral de Melo " a pedra dá à frase seu grão mais vivo:obstrui a leitura fluviante,flutual". Logo, é um livro que exige muito de nós leitores. Faz com que nos deparemos com situações de incômodo, reflexões, diversão, dor e esperança durante a leitura. Um escrito sinestésico e que impulsiona o leitor não só ao raciocínio acerca da realidade circundante ,mas também à práxis... Com certeza estará na minha lista de releituras em breve.
Livro muito interessante da Lilia, abordando tema da maior relevância pro ângulo das representações imagéticas. As representações do poder e hierarquia ficam escancaradas em uma seria de imagens, tanto dos 1800s, quanto bem mais recentes. Alguns dos capítulos poderiam ser, na minha opinião é tomando o livro como uma leitura não científica, um pouco mais curtos (como é o caso das liteiras). Nada disso tira o brilho do livro.