Ao redor do mundo, o nascimento das polícias não só coincide, como colabora com a formação dos Estados Modernos. Guardadas as peculiaridades de cada país, em geral, o que se observa é um movimento de interdependência no qual o poder estatal cria as instituições policiais na mesma medida em que estas instituições possibilitam a sua existência. Estados que, diga-se, são formados por grupos políticos que interagem entre si em relações de dominância e opressão. Nem o Estado, nem a sociedade e muito menos as polícias brasileiras fugiram a essa regra. Das polícias como garantidoras dos interesses de oligarcas escravistas, passando pelo acelerado desenvolvimento policial à medida em que a classe trabalhadora ganhava corpo com a abolição e a imigração; das polícias políticas de Vargas ao auge do anticomunismo no golpe de 1964; da redemocratização problemática ao superencarceramento e à guerra às drogas, este livro tenta realizar o difícil trabalho de compilar e contextualizar a história das polícias no Brasil.
O debate é super importante e o conteúdo do livro é amplo, mas a forma como o livro é escrito é muito complicada. Não existe uma linha de raciocínio clara, parece uma colcha de retalhos de informações. Pelo menos um terço do conteúdo do livro poderia ser transferido pra notas de rodapé ou simplesmente retirado sem grandes prejuízos. A leitura se torna chata, apesar da vastidão de conteúdo. Exige um exercício constante por parte do leitor de construir as sínteses que o autor não faz. Não deixa de ser uma leitura interessante, apesar disso.
A evolução das políticas públicas de segurança contatas no livro, que vão desde a concepção de segurança no império até os dias atuais, era tudo que eu buscava para entender um pouco melhor a situação das polícias ostensivas com políticas de extermínio que vivenciamos no passado e agora. Aprendi bastante com os paralelos que o livro faz com épocas passadas, somadas as diversas referências trazidas no livro, e até mesmo a ideia de estado exceção da "democracia" que vivemos. Não esperava uma resposta conclusiva do livro, pois entendo que este é um assunto complexo. Além disso, a vasta extensão regional do Brasil, com seus estados e municípios, cada um seguindo diversos caminhos, contribui para a complexidade da questão. Pelo fim da militarização das polícias brasileiras e pelo fim da inquisitorialidade policial já!
O livro explica de uma forma didática, seguindo a linha do tempo da independência à atualidade, a história da instituição policial no Brasil. Tem pontos bem importantes que são esclarecedores para entendermos como chegamos onde chegamos com a ostensividade das polícias militar, civil e até municipal, uma vez que o militarismo dessas instituições se dá desde antes da ditadura (o que foi uma surpresa pra mim). Não dei cinco estrelas porque esperava que o penúltimo e o último capítulos seriam mais incisivos ao relatar o racismo estrutural das polícias, o que o autor cita, mas senti que foi só uma “pincelada”. Gostei muito! Leria novamente com certeza