Movendo-se livremente tanto na esfera dos conceitos filosóficos como na via sensível da obra de arte, Benedito Nunes é um caso raro de intelectual. Como observou Antonio Candido, por reunir as qualidades de filósofo e grande crítico literário, o autor traz, para a literatura, um nível de abstração rigorosa poucas vezes alcançado e, para a filosofia, um apurado sentimento estético. Publicado originalmente em 1969, O dorso do tigre é um marco no horizonte da interpretação literária e da reflexão filosófica entre nós. Nos sete ensaios da primeira parte, o autor analisa algumas das principais contribuições à filosofia contemporânea, entre elas a de Foucault e Heidegger, de que é um dos maiores intérpretes em língua portuguesa. Da segunda parte do livro, constam ensaios que renovaram os estudos sobre Clarice Lispector ("A experiência mística de G. H.", "Linguagem e silêncio"), Guimarães Rosa ("O amor na obra de Guimarães Rosa") e Fernando Pessoa ("Os outros de Fernando Pessoa"), para citar apenas alguns. No todo, o leitor não deixará de notar o firme compromisso com o trabalho intelectual, a larga erudição e o discernimento profundo no trato com a cultura. Tudo isso não para "domar o esquivo tigre da criação" — como assinala Affonso Ávila em texto incluído como posfácio a esta edição —, mas sim "iluminá-lo pela reflexão crítica, para então compreender, com olhos de inteira lucidez, as cores reais de seu dorso cambiante, o seu exato sentido e destinação".
Benedito José Viana da Costa Nunes foi um filósofo, professor, crítico de arte e escritor brasileiro. Foi um dos fundadores da Faculdade de Filosofia do Pará, depois incorporada à Universidade Federal do Pará - UFPA. Ensinou literatura e filosofia em outras universidades do Brasil, da França e dos Estados Unidos. Escreveu artigos e ensaios para jornais e publicações locais, nacionais e internacionais. Aposentou-se como professor titular de Filosofia pela UFPA, tendo recebido o título de Professor Emérito em 1998. No mesmo ano, foi um dos ganhadores do Prêmio Multicultural Estadão. Foi membro fundador da Academia Brasileira de Filosofia (1989). É autor de O drama da Linguagem, uma leitura de Clarice Lispector; O tempo na narrativa; Introdução à Filosofia da Arte; O dorso do tigre (ensaios literários e filosóficos); João Cabral de Melo Neto (Coleção Poetas Modernos do Brasil); Oswald Canibal (Coleção Elos); Passagem para o poético; A filsofia contemporânea; No tempo do niilismo e outros ensaios e Crivo de Papel (ensaios literários e filosóficos). Benedito Nunes recebeu dois Prêmio Jabuti de Literatura: em 1987, pelo estudo da obra de Martin Heidegger que culminou em Passagem para o Poético; e em 2010 pela crítica literária A Clave do Poético.3 Em 2010, foi agraciado com o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra.