Nos 27 contos de As conchas não falam, Taylane Cruz apresenta personagens que, por vezes, padecem de dores e amores, mas que também são capazes de se curar. Em uma espécie de malha coletiva, elas se unem em uma só concha, como uma espiral sem fim que liga, indireta ou diretamente, todas as emoções narradas nas páginas do livro. Lançando mão de uma escrita livre e delicada, a autora passa por temas difíceis, como abandono e abuso, e também aborda temas inspiradores, como amor e perdão. O resultado é uma obra forte, que desperta diferentes sentimentos.
Taylane Cruz tem uma escrita muito sensível que eu já conhecia de suas crônicas. Aqui ela reúne contos igualmente marcados pela sensibilidade. Todos têm protagonistas femininas, especialmente crianças, e sugerem um mundo de belezas e ternuras possíveis em meio à violência do mundo.
Dessa seleção, gostei especialmente de "V e G", sobre o flagra que uma avó dá em um romance lésbico e a insuspeitada atitude dela depois disso; "O beijo", que trata de um primeiro beijo também entre meninas, mas com reação bem diferente por parte de um irmão; "O encantador de borboletas", em que um "herói" da infância provoca uma fissura no próprio afeto familiar; "Querido diário", em que uma menina escreve sobre a morte da mãe, enquanto expressa sua descrença em Deus; e "Um amor", sobre uma cadelinha perdida que trouxe afeto para uma família e por isso não poderia ser devolvida.
Há uma relação entre alguns contos, com personagens que aparecem novamente em outras circunstâncias. Tudo contado de forma muito bonita, em textos breves.