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95 pages, Paperback
First published January 1, 1999
O trabalho sobre o teclado era porventura a transcendência que restava? Tudo se reduzia então a um mundo deserto, onde cabia no entanto uma exigência rigor que era uma forma de virtude, a sua forma de virtude - como tinha dito a do outro teclado? Podia aceitar que assim fosse, pensou olhando em volta as cadeiras desertas. Aceitar o nada, o mundo vazio. E apesar disso, pensou levantando-se e sentando-se no banco - apesar disso sentar-se e tocar.
A música curava as almas porque as fazia regressar à origem, ao primeiro princípio, dizia Rogério Souto, voltando às citações. Atravessar as esferas era despojar-se, purificar-se, ficar igual a um deus. [...]
A música curava as almas. Ela também acreditara isso. Tentara curar o tio Eurico, prende-lo de novo ao tempo. Mas ele permanecera desligado. Nunca iria voltar. Por muito que ela se esforçasse, nunca iria trazê-lo de volta. Não tinha esse poder.
E a música também não tinha esse poder. Era tudo ilusão, pensou. O mundo talvez não fosse um cosmos, um universo ordenado. Provavelmente não tinha medida, nem escapava ao caos.
(Ela caindo dos mundos, de esfera em esfera, presa por um pé. Descendo vertiginosamente através dos planetas. Em cada um uma sereia olhando.)
Ela também não tinha medida nem fronteira. Estava presa à existência, mas não fixada nela. Ligada num só ponto, como uma folha num caule. Por isso vibrava excessivamente, ao menor contacto com as coisas, que acabavam sempre por triunfar sobre ela.
A do outro teclado tinha uma vida individual e pessoal. Mas ela vogava ao sabor do mundo. Nunca iria fixar-se, porque uma vida única lhe pareceria sempre demasiado estreita.