Uma coletânea de pequenos contos, captando instantes fugazes no tempo, pequenas situações da vida diária, recordações da infância e hesitações da velhice, quase que evocando as fotografias instantâneas que se tiram e fixam aquela expressão inesperada de felicidade ou aquele momento especial de emoção! Contado num tom quase pessoal, intimista, narrado muitas vezes na primeira pessoa, Instantâneos envolve-nos em cheiros, imagens e situações familiares e faz-nos sentir, por vezes, espectadores da vida alheia, espiando o que se passa numa rua, espreitando para dentro do café da aldeia ou ouvindo à esquina uma conversa de namorados, mas sempre revelando uma sensibilidade e um calor humanos que não podem deixar de emocionar o leitor.
Margarida Leitão nasceu em Angola, cresceu entre a cidade de Viseu e a aldeia da avó; aos dezoito anos mudou-se para Lisboa. Atualmente, partilha um apartamento na margem sul com três gatas e uma tartaruga. Participou em duas edições do "Pixel – concurso de pequenas histórias lgbt", cuja coletânea foi publicada pela INDEX ebooks. Ganhou o gosto e começou a escrever contos. Foi pedindo títulos a amigos e ofereceu-lhes as histórias em formato de micronarrativa, não ultrapassando as 250 palavras. Publicou-as no seu blogue "mas tu és tudo e tivesse um casa tu passarias à minha porta". Os amigos gostaram e incentivaram-na a continuar, tornando-se nos principais culpados pela edição deste seu primeiro livro.
Ler um primeiro livro de um autor que conhecemos pessoalmente e de quem somos particular amigo, nem sempre é fácil. A situação piora quando o autor, neste caso a autora, Margarida Leitão, nos privilegia com frequentes consultas sobre um texto ou outro, sobre uma história ainda de contornos não completamente definidos e nos pede uma opinião concreta e sincera. Quando sentimos que contribuímos, de uma forma indirecta, é certo, para o aparecimento dessa obra, pois demos à autora o “empurrão” decisivo para que ela se integrasse e se adaptasse com uma extrema facilidade a uma realidade tão apelativa como é a blogosfera, quando se tem sede de comunicar ideias, recordações, afectos ou anseios, a situação torna-se quase crítica… E a obra nasce, bela, definida enfim, pujante de frases bem construídas que descrevem situações reais, quase nunca ficcionadas (quando muito sonhadas), e mostram uma rara percepção do sentir de pessoas que apenas conhecemos há pouco, mas das quais captámos o essencial, ou então de imagens que nunca abandonaram a nossa mente de infância, povoada de lugares, gentes e factos determinantes da nossa formação, do nosso sentir, do nosso viver de hoje. Se há, aqui e ali, resquícios de uma hesitação, plenamente justificadas numa primeira obra construída com base em pequenas histórias que saíram de um forma pura e natural de dentro do universo da Margarida, por outro lado, encontramos desde já a maturidade adulta de alguém que sabe ter necessidade de se exprimir através da escrita, para se afirmar a si própria.
Quarenta e duas pequenas histórias, algumas delas com endereço, onde se cruza a minúcia da memória com o voo livre da ficção. O tom é sensível e luminoso, a escrita absolutamente irrepreensível.