Os contos de Lima Barreto compõem um retrato seco, direto e truncado de uma sociedade hipócrita e viciosa, uma república que se queria positivista e moderna, mas que se revelava inteiramente contraditória. E contraditórias também são as breves histórias que ele nos deixa. Elas transbordam da acidez suburbana do Rio de Janeiro, própria dos vagantes do bairro de Todos os Santos, nas margens do Méier (posição que, biograficamente, compreendo muito bem). Suas narrativas estão diretamente atreladas a uma cidade que se queria vistosa, mas que era torpe em suas próprias presunções.
O conto, em Lima Barreto, não apenas entretém: ele nos detém, ele nos faz pensar. A República de outrora, com seus bacharéis e homens que se julgavam maiores e melhores do que de fato eram, revela-se uma marca cordialmente brasileira e ainda tão presente no mundo em que vivemos. Seus cortes abruptos, após o destilar ácido de críticas tão sutis, deixam-me sempre em êxtase. E me fazem lembrar o quanto aquela sociedade que o rejeitou merecia ser, ela mesma, rejeitada e troçada nos contos aqui presentes.