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Lembremos do futuro: Crônicas do tempo da morte do tempo

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Em trinta crônicas selecionadas, escritas nos períodos mais críticos da pandemia, Julián Fuks reflete sobre a perda e a solidão, a fragmentação do tempo e as incertezas futuras de um país. Mas nestas linhas há também esperança: pelo que podemos construir, ou reconstruir, a partir de nossas experiências.

Julián Fuks, vencedor do Jabuti de Livro do Ano de Ficção e Melhor Romance, além dos prêmios Saramago e Anna Seghers, se volta para o formato da crônica para abordar os períodos mais críticos pelos quais passamos durante a pandemia.
Suas incertezas e medos, a insegurança com a saúde da família e de amigos, se somaram ao que ocorria do lado de fora: as arbitrariedades do governo, a distância dos conhecidos, a contagem diária de mortes.
O convite para se tornar colunista de um jornal online, no entanto, lhe dá a chave que precisava. Valendo-se de Virginia Woolf a Drummond, de Natalia Ginzburg a Clarice Lispector, Julián Fuks busca compreender as sensações conflitantes, a incerteza do tempo e os vazios na convivência com os outros.
É nas frestas do horror que o autor procura as belezas menores, para com elas construir algo novo, a nova identidade do que queremos ser, no futuro que ainda não devemos esquecer.

136 pages, Paperback

Published January 1, 2022

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About the author

Julián Fuks

32 books88 followers
Julián Fuks é um escritor e crítico literário brasileiro, filho de pais argentinos. Em 2012, foi eleito pela revista Granta um dos vinte melhores jovens escritores brasileiros. [Ganhou o Prêmio Jabuti de 2016 na categoria romance com o livro A Resistência.

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Displaying 1 - 7 of 7 reviews
Profile Image for Luciana.
523 reviews169 followers
August 7, 2025
Fuks tem uma prosa muito bonita e se for aliada a uma consciência política social, torna a leitura elegante e ótima de se acompanhar.

Compondo crônicas acerca de dois males que submergiram em 2020, do novo vírus da covid e do novo autoritarismo, o escritor escreve para combater “o assédio da morte, da paralisia, do silêncio, do medo, da alienação e do esquecimento”, aliando seu dia a dia de confinamento aos acontecimentos e barbarie governamental no país.

Sendo assim que explícita que “sob os ternos surge o contorno das fardas, na sombra dos sapatos a forma dos coturnos e em suas mãos canetas longas como cassetetes”, tudo isso aliado ao completo negacionismo científico.
Mais que isso, reflete acerca da dor do outro, da solidão e como estamos habituados à tristeza, fazendo das crônicas meio em que livra o escritor do silêncio e o leitor da solidão.
Profile Image for Anna .
52 reviews1 follower
January 23, 2024
Esperei um pouco para escrever essa resenha depois de ler o livro, tentando evitar o calor do momento, já que, tendo me predisposto a gostar desse livro, recomendado por pessoas em quem confio, me decepcionei desproporcionalmente.

Quero resumir minhas impressões sem acabar em mesquinharias, mas minha maior crítica é bastante subjetiva: o autor não parece gostar de crônica, ou pelo menos de como ela se desenvolveu no Brasil. Grandiloquente, não a leva a sério por si, não parece vê-la como digna de respeito, ainda que cite grandes cronistas com a aparência de um fã. Não quero implicar aqui que a crônica brasileira nunca tratou de assuntos sérios ou profundos, o que seria uma mentira deslavada, mas seu jeito de "falar à fresca" soube balancear tom e tema, público e espaço, uma diretriz que veio de nossos grandes nomes. É essa recusa histórica ao sermão que Fuks ignora, com algo que para mim se traduz em petulância, um fastio em trabalhar com esse gênero menor - uma má vontade.

Talvez por isso penda sempre para um tom ensaístico, marcado pelo academicismo do autor, que recorre a referências em - eu tomei nota - todas exceto uma de suas crônicas, com pendor para uma erudição forçada. Ele não soube escrever uma crônica, ou não parece entender o que é uma crônica, ou não teve paciência com a crônica. Em seus textos perde-se o que ela oferece de especial, em seu tom corriqueiro, a quem a lê. Ao invés disso, o autor oferece pequenos tratados alienantes no tom e quase impessoais, ainda que analisem cada pormenor de diferentes facetas da experiência pandêmica.

Esse ponto foi fator importante e merece um parágrafo: além de falhar no espectro de relevância política, criando textos que não contribuem ao debate além de como espelho das indignações de uma dada classe sociocultural, as crônicas falham também no espectro da arte, pois não produzem sentido nem causam impressão na subjetividade. Considero isso culpa da super exposição de argumentos que Fuks emprega (outra falha de querer fazer de uma crônica um ensaio). Cada experiência é explicada em seus detalhes, cada opinião embasada em dados verificáveis, cada possível argumento enumerado e rebatido. O não dito - que, parafraseando Sabino, diz muito mais - é sacrificado absolutamente pelo dito, sufocando o leitor. Não sobra nada para a imaginação fazer ou ao que a emoção reagir, com o resultado que os textos, transparentes de interpretação, se tornam herméticos de poesia.

É claro que muito pode ser atribuído ao tempo em que os textos foram escritos e o que se propunham a fazer, mas o que me foi intragável foi a sensação de que essa ressalva já é feita pelo próprio autor, quase uma chantagem estética. Escrevendo em um gênero que não domina e para o qual não parece ter dom (opinião que mantenho depois de ler textos mais recentes d'O Globo), Fuks parece dizer: estamos em crise sanitária. A única abordagem correta e justa é a revolta performática, e não é uma falha minha se ele cair mal, é uma falha dos tempos. Como leitora, deparada com a sequência de crônicas medíocres que se empilhavam, isso se traduziu em um autor blindado previamente contra críticas por se ver como a expressão mais honesta de seu tempo.

A partir daqui já estaria entrando na tal mesquinharia, então vale dizer que não acho que Fuks não seja bom escritor ou não tenha talento. Gostei de seu estilo, apesar de achá-lo empoado, e não fui convencida em nenhum momento que ele saiba decantar sentido do cotidiano (ao menos, não com qualquer elegância), mas creio que, como romancista em controle de toda a narrativa, isso pode ser diferente. Ainda vou ler um de seus romances para investigar.

Porém, acho que quem estava certo foi quem me disse que podíamos esperar as obras mais medíocres como decorrência da quarentena, e vejo isso claramente aqui: mal concebida, acumulando textos que expõem mutuamente seus defeitos e manias pela repetição, trata-se de uma obra e de um autor que, como toda uma geração de intelectuais pelo mundo afora, quis ser a voz de um tempo e participar de uma construção subjetiva de sociedade. É verdade que o tempo foi propício à falta de inspiração, à raiva e ao pânico frente aos horrores, ao estresse de uma vida interrompida e de uma convivência sem respiro com os familiares, todos fatores compreensíveis e mesmo desculpáveis, mas que, subtraídos do julgamento, ainda não resultam em boa literatura. Porém, mais do que qualquer uma dessas falhas, o que parece ter condenado o livro foi essa busca afoita de relevância, de literatura como militância, sem ter o autor a envergadura de um Brecht para permitir que o escreve ultrapasse a si mesmo, com a irônica consequência de que o livro não tem peso político fora do momento em que foi veiculado.

No total, minha impressão foi de um livro que não sabe a diferença entre ser sério e se levar a sério, que não sabe que é possível tartar com sobriedade do mundo e seus horrores sem se tornar árido e vazio. Do autor, fica a sensação um pouco indigesta de inflexibilidade e insegurança, que não experimenta e se atém sempre a mesma fórmula pela qual foi reconhecido pelo meio - injustamente, na minha opinião, ao menos no caso desse livro.
Profile Image for Henrique.
1,046 reviews28 followers
October 9, 2025
Nossa geração teve a desventura de passar por uma pandemia, evento que muitos julgavam pertencer a um distante passado. Pois a covid-19 veio e demonstrou que, a despeito de avanços tecnológicos, continuamos muito frágeis e sujeitos a todos os tipos de vírus mais resistentes. Para piorar, percebemos que a humanidade está ainda muito longe de agir de forma unida e coesa para enfrentar um inimigo comum.

Foi um período que deixou marcas inclusive em quem não chegou a perder para o vírus pessoas próximas. Muitos dos efeitos desse momento são ainda sentidos na atualidade, embora muito do que chamamos de “novo normal” tenha ficado para trás – relaxamos outra vez, e seríamos facilmente presas de outro vírus semelhante.

Seja como for, um evento dessa magnitude impacta também o pequeno mundo das pessoas que escrevem crônicas. A princípio, não há nada mais anticrônica do que uma pandemia. É um evento de impacto e proporção tão grandes que domina o noticiário e as conversas cotidianas por meses a fio. Sentimos, de fato, momentos em que não se conseguia falar de outra coisa, a não ser o famigerado coronavírus.

Ora, que espaço teria o cronista então para falar das “coisas desimportantes”? O mundo à beira de um colapso e o cronista falando de pássaros e borboletas? Se um cronista se dispusesse a fazer isso, seria acusado, na melhor das hipóteses, de uma obtusa alienação. Não havia espaço, portanto, para o cronista sugerisse um tema diverso do restante do jornal: ele precisava acompanhar a onda e falar da covid-19.

Julián Fuks precisou lidar com esse cenário. O curioso, contudo, é que ele não era um cronista que já escrevia rotineiramente e que, subitamente, se viu tragado por uma pandemia que monopolizava conversas e textos. Ao contrário, foi por se ver imerso no caos do vírus que sentiu vontade de escrever – e escrever crônicas.

Enquanto refletia sobre as inquietações daqueles tempos em que a morte parecia imperar soberana, Fuks achou que era necessário “encontrar os espaços em que a vida resiste, suas revelações súbitas, seus assombramentos sensíveis, suas inesperadas manifestações de beleza, seus rompantes líricos”. E que gênero seria mais apetecível a essas características do que a boa e velha crônica de todo dia?

“Lembremos do futuro: Crônicas do tempo da morte do tempo” (Companhia das Letras, 2022) é o resultado das reflexões de Fuks sobre esse tempo. Essas crônicas demonstram que foi em boa hora que cronista decidiu passar a escrever sobre o que acontecia no mundo, pois, juntas, elas representam um assertivo recorte do período da pandemia, em análises lúcidas que são um ótimo testemunho da crise.

A crônica é um gênero que apresenta uma relação indissociável com o tempo, e é muito interessante observar como Fuks também a usa para refletir sobre o presente e o futuro. Naqueles meses, mal se poderia apostar no futuro, fosse o nosso, fosse o da humanidade. O cronista, contudo, sabia que inevitavelmente ele viria, e que todo aquele horror inevitavelmente passaria, como hoje, realmente, passou.

Talvez não tenhamos cumprido as suas expectativas de um novo mundo após o fim do mundo, pois temos aqui novos velhos vírus, como o do autoritarismo, a ameaçar igualmente nossas projeções de futuro. Grande parte disso já existia no tempo da pandemia, e Fuks não deixa de apontar os agentes da morte no próprio governo.

Suas crônicas, escritas com uma prosa correta e bem trabalhada, muitas vezes filosóficas, outras vezes mais poéticas, captam esse momento em que se buscava por um sentido no meio da dor generalizada, em que tudo era desorientação e desencontro nas informações, quando não se podia ter certeza de muita coisa.

Nesse cenário, a casa representava um abrigo, inclusive por imposição sanitária. Um dos momentos mais bonitos do livro é a crônica “Sobre o rosto monstruoso do mundo”, em que o cronista conta que sua filha pequena havia se assustado com a falta de sua barba. Partindo desse evento doméstico, Fuks consegue fazer um belo paralelo com a maneira como o mundo se mostrou no período da pandemia.

Outra grande realização enquanto crônica é a “A viagem dos elefantes”, em que ele parte do noticiário, faz links com referências culturais e promove uma reflexão sobre o presente, talvez menos superficial do que o gênero pediria, mas ainda acessível e suficiente para gerar impacto. Há ainda reflexões sobre o lugar da alegria no meio desse contexto opressivo e percebe-se que o lirismo continua bastante necessário.

Pode ser que, vez ou outra, a crônica sofra de “caixotismo”, mas, em um contexto como aquele, era quase impossível que a crônica não fosse opinativa. Hoje, depois de cinco anos, essas crônicas ainda são representativas de uma época em que não havia abraços entre amigos ou encontros fortuitos em esquinas, festas ou bares. Vivemos o futuro previsto pelo cronista, embora ainda sob a sombra do passado.

Em tempo: o livro de Fuks foi vencedor do Prêmio Sabiá de Crônica de 2022.
Profile Image for Patrick Wichert.
40 reviews1 follower
August 22, 2023
A crônica é um gênero literário que, quando deixado à mão de escritores ociosos, pode legar um trabalho autoindulgente e quase totalmente desinteressante. Fuks percorre a fronteira dessa possibilidade com "Lembremos do futuro".

Sem nenhuma dúvida é um tremendo escritor, que domina a língua portuguesa como poucos contemporâneos, mas do começo ao fim me senti agonizado lendo essa coletânea de crônicas. No primeiro instante imediato em que tive essa impressão, atribui a uma aparente falta de conteúdo e excesso de linguagem. Nenhuma delas, a primeira vista, retrata um ponto de vista sobre alguma coisa particularmente interessante, mas apenas diversas facetas da insuportabilidade da vida na pandemia, "um inchaço de presente". O livro evoca, assim, a saudade de um "passado e de um futuro que se deixem ler sem a lente do presente", saudade essa que não parece ter passado com o recuo da pandemia.

Nessas crônicas, Fuks faz com as palavras aquilo que se questiona ser (in)aceitável nos tempos mais sombrios: buscar a beleza. E mais que a beleza, o empreendimento de Fuks ativa e conscientemente luta com o que torna suas crônicas difíceis de ler: a experiência fragmentária e ultraconcentrada que foi a pandemia, pequenos grandes acontecimentos que se sucedem, como se o tempo estivesse apenas passando despercebido por todos eles. As crônicas põem em cheque essa experiência, primeiro mediante o lirismo da escrita, que "altera o mundo com a direção subjetiva do olhar, contrariando assim toda a clareza ilusória, toda a objetividade falsa dos argumentos". Segundo, com os acessos das crônicas enclausuradas, todas oriundas da vida entrincheirada, à experiência maior da pandemia.

É uma tentativa de narrativa da pequena vida e inquietude, tentativa de experiência comunicável que rompe a inércia. Fuks, desde o começo, embora mais tarde explore isso com mais evidência, está ciente do risco que corre ao contar histórias particulares: o risco de encontrar ouvidos cansados, leitores que, diante da imediata identificação com uma história sem história (sem arte, novidade, vida, sem movimento, sem personagens, sem tramas e reviravoltas), não se comuniquem com o texto e seu autor. A aposta de Fuks, contudo, rompe essa experiência convertida em sequência de notícias e informações, transformando um conjunto de fragmentos numa narrativa. Não é História, com H maiúsculo, como ele expressamente rejeita, mas uma profusão de retratos, de estórias, do passado, revelando-o sem pretensão de explicá-lo, mas apenas de nos mergulhar na profunda sensação de desespero e solidão da pandemia.

Fuks não enxerga a crônica como algo literário propriamente, mas como uma maneira de testar a possibilidade de diálogo, de comunicação, de manter o contato com o mundo, de enfrentar junto de si a dor dos outros, "tão vasta quanto o mundo" e que, por isso, se torna fácil de perder de vista.

O livro, como Fuks reconhece ao final, sofre de um déficit narrativo, "porque julgava haver tramas onde não há (...) sem surpresa ou viravolta, sem uma nuance qualquer que faça de um relato propriamente uma história", restando-lhe pouco mais do que "silêncio ou metalinguagem".

É um juízo excessivamente duro da obra de Fuks, na minha opinião, mas revela a sua profunda compreensão daquilo que buscou fazer com essa coletânea, assim como do sucesso com que conseguiu explorar a inibição da literatura em tempo de pandemia. E isso através de um gênero literário (crônica) passível de inexistência fora da vida na rua, fora de casa. As crônicas de Fuks concentram em cargas potentes a inquietude, a humanidade, a frustração política, o horror e a indispensabilidade do coletivo no tempo de maior contenção da experiência humana, impondo paredes a toda expressão, arte e literatura.

A ciência de Fuks do desafio que as crônicas lhe impuseram lhe permitiram fazer um excelente aproveitamento daquilo que a forma lhe permitia captar de conteúdo, transformando esse conjunto de provocações de um dia a dia repetitivo, quase banal e insuportável, num poderoso retrato da sociedade brasileira fraturada pela Covid-19 e da potencialidade de futuro e mudança que esses dias de quarentena carregavam.
Profile Image for Henrique Justini.
101 reviews1 follower
Read
March 13, 2024
"É a dor da desilusão, da desesperança, da indignação, da saudade, da espera. A dor dos outros é plural, são muitas dores, mas é também uma única dor a lancinar o país, talvez o mundo. A dor dos outros é tão vasta quanto o mundo, e por isso a perdemos de vista."
Profile Image for Lucille.
1,398 reviews21 followers
May 30, 2024
uma leitura bastante fluída, que se destaca com diversos elementos, sendo uma obra bem melancólica em diversos trechos, causando uma dor da desilusão, tbm tendo desesperança, indignação e especialmente falando da saudade e da espera.
Displaying 1 - 7 of 7 reviews

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