Estes textos resultam de um ciclo de conferências realizado no Centro Cultural de Belém, em 2020. A origem pode ajudar a explicar alguma aparente falta de estrutura e um ritmo próximo da coloquialidade. Cada um dos seis segmentos é dedicado a um filósofo, por ordem cronológica. No entanto, o objectivo do autor não é o de analisar a fundo o pensamento destes autores; este é um ponto de partida e uma referência a que, nas voltas do seu discurso, Caeiro regressa pontualmente, num diálogo permanente que é também uma iluminação mútua. Ao contrário do que o título possa prometer, é mais à pergunta "Para quê filosofar?" que se procura uma resposta. O acto de filosofar é equacionado, por vezes de forma muito explícita, com a própria condição de ser humano. O texto está repleto de exemplos retirados do quotidiano. Mais uma vez, a saturação de alusões a noções e problemas da existência comum adequa-se bem a um contexto de conferência e a uma compulsão performativa: cabe ao orador atrair a atenção dos ouvintes, apelando a realidades que não lhe sejam alheias. Caeiro é, como é óbvio, muito mais inteligente do que qualquer autor de livros de auto-ajuda, mas esta tentativa reiterada de apresentar campos de aplicação familiares dos conceitos filosóficos discutidos soou-me, por vezes, forçada e excessiva. Talvez a maior virtude deste livro seja a de evitar oferecer aos leitores uma ou mais respostas directas e, em vez disso, demonstrar, por etapas e de forma consistente (apesar dos aparentes desvios), que o acto de filosofar é a própria resposta. E demonstra-o fazendo-nos uma visita guiada pela tradição filosófica ocidental, essa tradição inescapável porque está presente em tudo, como a atmosfera, por mais tentador que seja ver na obra de um certo autor uma "tabula rasa" que rompe com tudo o que existia (como Wittgenstein, que afirmava nunca ter lido Aristóteles). Os seres humanos foram aprendendo a pensar, e continuam a aprender; da mesma forma, qualquer um de nós pode (deve) reproduzir esse percurso de indagação, de dissipação dessa opacidade de que Caeiro nos fala desde o primeiro capítulo, dedicado a Platão.